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Problemas com voos da ONU atrasam regresso de militares portugueses

Portugal

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Nações Unidas propuseram que força de Paraquedistas regressasse a Portugal e só depois fosse rendida pelos Comandos. Portugal recusou deixar flanco aberto na República Centro Africana. Militares chegam a Lisboa na próxima segunda-feira

Os militares paraquedistas em missão na República Centro Africana desde agosto do ano passado regressam a Portugal no dia 11 de março. O regresso chegou a estar marcado para esta semana, com várias datas em cima da mesa, mas a falta de aviões das Nações Unidas para trazer de volta a maior parte dos 160 militares obrigou a empurrar o regresso para o início da próxima semana.

A primeira data apontava para o dia 5 de março, mas falhou. A hipótese seguinte foi dia 8 de março, e ainda chegou a admitir-se a possibilidade de os militares regressarem a 7, mas nada feito. A 4ª Força Nacional Destacada volta a 11 de março, com chegada a Lisboa prevista para cerca das 20h30.

“Trata-se de um processo das Nações Unidas e está relacionado com a disponibilidade de aerovanes que operam para a ONU e que estão em vários pontos do continente africano”, explica à Visão o porta-voz do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), comandante Coelho Dias. Por ano, a ONU garante dois voos para a rendição de forças destacadas. Fora dessa operação, são os próprios países quem contrata o voo e, depois, as Nações Unidas asseguram a devolução da verba. Este é, aliás, um procedimento habitual.

Nesta tentativa de concicliar o voo de regresso dos paraquedistas com a chegada dos comandos – a 5ª Força Nacional Destacada – à República Centro Africana, a ONU chegou a propor a Portugal que os militares em missão viessem para Lisboa e que, no voo seguinte, de volta ao país africano, fossem rendidos pelos Comandos. Portugal recusou a ideia.

“Não fazia sentido”, defende Coelho Dias. “Mesmo que se tratasse de um intervalo de 12 horas, nós, como Força de Reação Rápida da missão das Nações Unidas naquele país [a MINUSCA], não poderíamos deixar esse vazio” no terreno, explica o militar.

Acabará por acontecer exatamente o oposto desse cenário, como, de resto, tem sido prática habitual nestas fases de troca (ou rotação, na gíria militar) das forças em missão. Os comandos partem de Lisboa na manhã da próxima segunda-feira e, no voo de regresso, o avião traz os militares paraquedistas há seis meses em missão.

A rotação faz-se num período particularmente agitado de uma missão que contou com vários sobressaltos – foram vários os militares portugueses feridos, quer em confronto com os grupos armados quer em consequência de acidentes pessoais, e nestes seis meses a força de paraquedistas deparou-se com vários ataques diretos por parte destas milícias.

Além desse contexto, a própria situação política na República Centro Africana volta a passar por uma convulsão. Em 2016, a vitória à segunda volta de Faustin-Archange Touadéra nas eleições presidenciais não garantiu paz política e social num dos países mais pobres do mundo (o sexto, a contar do fim da lista). Agora, e poucos dias depois de 14 grupos armados assinarem um acordo de paz com o Governo, num documento que deveria por fim há tensão dos últimos cinco anos, o processo sofreu um revés.

Vários dos grupos armados que se tinham sentado à mesa e chegado a um entendimento com Touadéra contestaram a nova composição do Governo, anunciada no último domingo, considerando que a mesma não é suficientemente representativa.

É neste cenário, sob risco de nova escalada do conflito armado, que os Comandos chegam à capital. Como Força de Reação Rápida, os militares portugueses atuam como braço-direito do comandante da missão militar na República Centro Africana, uma força de referência num país em que a representação do Estado fora da capital Bangui é pouco mais que escassa.