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Os segredos das 6 batalhas que salvaram Portugal

Portugal

Aqui se contam os momentos decisivos da Guerra da Independência e da Guerra da Restauração. Os segredos das manobras militares das mais importantes batalhas que permitiram ao País salvar a face

Em Aljubarrota, o rei de Castela estava na retaguarda prostrado numa liteira, a arder em febre, e pouco entendeu do que se passou no campo de combate – o que ajudou, e muito, à vitória portuguesa e à glória de Nuno Álvares Pereira. E, três séculos depois, foi o génio militar de um general alemão que nos livrou de sermos hoje uma província espanhola. A História não oficial da nossa independência e da nossa soberania é uma “caixa de Pandora”, como aqui se conta

GUERRA DA INDEPENDÊNCIA - Batalha dos Atoleiros, 6 de abril de 1384

O estratego 
que não inventou 
nada

Nuno Álvares Pereira aprendeu com mercenários ingleses a tática que dizimava os franceses na Guerra dos Cem Anos, e aplicou-a em batalhas que venceu

No verão de 1381, o escudeiro Nuno Álvares Pereira, 
de 21 anos, ao serviço do monarca D. Fernando, acompanhava mercenários ingleses nas guerras fernandinas contra Castela, onde reinava D. Juan I. Eram operações militares de saque, devastação de território, tomada de prisioneiros e destruição de campos de cultivo, para desmoralizar o inimigo. Mas, desses veteranos, Nuno Álvares Pereira ouviu a lição da sua vida: a receita militar inglesa que dizimava os franceses em sucessivas batalhas, na Guerra dos Cem Anos. Essa nova tática, de combate apeado, consistia na ocupação prévia do terreno da batalha, com o cuidado de verificar se havia nos lados e atrás obstáculos naturais (linhas de água, bosques, zonas de floresta ou de construção), que não permitissem a um exército maior “abraçá-los”, isto é, envolvê-los pelos flancos. Se estivessem num sítio alto, melhor ainda. Por vezes, escavavam fossos e covas de lobo à frente da sua posição, dissimulados com ramagens – se viesse um exército de cavalaria pesada, cheio de ímpeto, os cavalos começavam a tropeçar ou a empinar-se, derrubando os cavaleiros, numa amálgama caótica de homens e animais. O inimigo tornava-se um alvo fácil para a peonagem armada de lanças e, sobretudo, para os arqueiros e besteiros. Álvares Pereira tomou boa nota dos ensinamentos dos mercenários. Foi inteligente e isso consagrou-o depois como grande estratego militar português.

Quando D. Fernando morreu, a 22 de outubro de 1383, a uma crise sucessória associou-se uma “revolução”. Nuno Álvares Pereira alinhou pelo mestre de Avis, no partido dos segundos filhos e bastardos, que viam a sua ascensão política e social barrada pelos primogénitos. Estes, para manter o statu quo, resolveram apostar no trunfo que julgavam ser mais poderoso, o rei de Castela, D. Juan I, que reivindicava o trono português com base no seu casamento com Beatriz, filha herdeira de D. Fernando, que aceitou o enlace quando estava já muito doente.
Não houve aqui sobressaltos patrióticos. “Uns e outros geriam os seus interesses”, diz João Gouveia Monteiro, especialista em Idade Média, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 
E D. Juan I invadiu Portugal, em busca do trono. O objetivo era cercar Lisboa, que o mestre de Avis se preparava para defender. Mas, antes, o líder da “revolução” nomeou Nuno Álvares Pereira “fronteiro” (ou comandante militar) do Alentejo. Era preciso um outro exército, com capacidade de manobra, que não estivesse imobilizado dentro de Lisboa, e que tentasse travar a travessia das tropas castelhanas que usavam a planície alentejana para se juntarem ao cerco da capital.

Mal chegou a Évora, com 240 homens armados, Nuno Álvares Pereira procurou recrutar mais efetivos apeados que trouxessem uma lança ou uma besta, facas domésticas bem afiadas, partasanas (alabardas de ferro comprido, de ponta larga e perfurante), ou manguais, instrumentos para malhar cereais. Era o possível. 
O “fronteiro” estava a formar este exército quando soube, em Estremoz, que um contingente castelhano, a caminho de Lisboa, se encontrava a cercar a vila de Fronteira, no Alto Alentejo. Este contingente tinha cerca de mil cavaleiros, uma cavalaria ligeira de 200 ginetes e um número não apurado de peonagem e de besteiros. Por sua vez, Nuno Álvares Pereira arrancou de Estremoz com cerca de 300 cavaleiros, perto de mil peões e à volta de cem besteiros.

A meio dos 20 quilómetros que separam Estremoz de Fronteira, surgiu um emissário castelhano que tentou aliciar o “fronteiro” com generosas recompensas se desistisse e passasse para o lado onde se encontrava o seu irmão mais velho, Pedro. Nuno Álvares Pereira pô--lo a andar. Os castelhanos só deixaram os preparativos do cerco quando o emissário chegou com a resposta, o que permitiu a Álvares Pereira começar a aplicar, com rigor, a receita inglesa: escolheu o local da batalha, numa pequena herdade em Atoleiros, a cerca de 2,5 quilómetros de Fronteira. O terreno estava cortado ao meio por uma linha de água de uma ribeira (o mês era abril, devia estar bem nutrida), o que quebrava o ímpeto do ataque inimigo. E o próprio topónimo Atoleiros indica solo alagadiço. Toda a tropa do “fronteiro” iria combater a pé, tomando posição num pequeno cabeço, estreito e não muito alto, com cerca de 200 metros de largura, sobre a linha de água. Dispôs a sua vanguarda com lanceiros, colocou nas alas os atiradores com besta, e na retaguarda uma força de apoio. E, mais atrás, estariam possivelmente outros besteiros que se encontravam num ponto mais alto, dez a 15 metros acima da linha de água, e que podiam disparar os seus virotões por cima das cabeças dos seus companheiros.
Foi este dispositivo que os castelhanos encontraram 
à sua espera. Seguiram o modelo francês – o ataque todo feito a cavalo, embora em pequenos esquadrões 
de dez a 15 homens, de cada vez. Os grupos iam-
-se sucedendo, mas tinham de atravessar a ribeira e o terreno empapado, e depois subir, para chegar ao contacto com o exército de Nuno Álvares Pereira. Tudo lhes quebrava o ímpeto. Os cavalos tropeçavam e não avançavam, os que vinham atrás chocavam com eles, que se empinavam, e eram logo atingidos pelos tiros dos besteiros, e os cavaleiros que conseguiam chegar ao contacto com a vanguarda portuguesa tinham combatentes apeados com lanças apontadas aos peitos dos animais a recebê-los. A batalha terá demorado, no máximo, duas horas – tempo suficiente para a chacina do exército castelhano, apanhado pela surpresa e pelo pânico.

“Do ponto de vista psicológico e anímico, esta vitória teve um efeito brutal”, diz João Gouveia Monteiro. 
“Os castelhanos tinham um exército muito mais poderoso – mas, afinal, não eram invencíveis. A quem estava destinado a encerrar-se em Lisboa com o mestre de Avis, a resistir ao cerco do rei de Castela, deu um ânimo tremendo.” Nuno Álvares Pereira foi a Almada, para transmitir a boa nova ao mestre, através de sinais de fogo.

Porém, em setembro de 1384, Lisboa estava nas últimas, após cerca de quatro meses de cerco por terra e mar. Se caísse, isso significava a derrota da causa “revolucionária”. Eis, no entanto, que um surto de peste atacou em cheio o acampamento dos 20 mil castelhanos. Os sitiantes morriam às dezenas por dia. 
A D. Juan I não restou outra alternativa senão levantar o cerco e retirar-se cabisbaixo para Castela.

Batalha de Trancoso, 29 de maio de 1385

A vez do “roncador”

Martim Vasques da Cunha, nobre que contestou a eleição do Mestre de Avis a rei, e que por isso recebeu um sério aviso de Nuno Álvares Pereira, também malhou nos castelhanos

É hoje consensual que a eleição do Mestre de Avis a rei, a 6 de abril de 1385, nas cortes de Coimbra, como 
D. João I, se deve à argúcia jurídica de João das Regras e à demonstração de força de Nuno Álvares Pereira (dali saiu, aos 24 anos, como Condestável e Mordomo--Mor do Reino), que inundou a cidade com 300 escudeiros armados até aos dentes. Ainda assim, Martim Vasques da Cunha, porta-voz de um grupo de grandes senhores da Beira, ousou contestar a elegibilidade régia do Mestre. Estes fidalgos, conservadores e avessos a “revolucionários”, eram partidários da candidatura 
do infante D. João de Castro, filho de D. Pedro I 
e D. Inês de Castro. Não era, porém, uma solução lá muito viável: D. João de Castro tinha caído numa armadilha que lhe fora montada pela rainha D. Leonor Teles, que o instigou a matar a sua mulher, Maria Teles (irmã da própria Leonor), por supostas infidelidades, ao mesmo tempo que lhe dava esperanças de poder vir a casar-se com Beatriz, filha herdeira do meio-irmão e rei D. Fernando (sua sobrinha, portanto), numa espécie de “via verde” de acesso ao trono. O infante exilou-se depois em Castela, para fugir às consequências do crime, e, mal D. Fernando ficou moribundo, o rei D. Juan I prendeu-o, para não lhe fazer sombra na sucessão pela qual também lutava. Nada que perturbasse os senhores da Beira, que defenderam o mais que puderam, nas cortes de Coimbra, a candidatura 
de D. João de Castro. A ponto de, furioso, Nuno Álvares Pereira se virar para o Mestre e dizer-lhe, em voz alta: “Eu já vou calar aqui o roncador do Martim Vasques da Cunha.” Foi o suficiente para o fidalgo abandonar a reunião.

No entanto, o grupo partidário de D. João de Castro seria valente no mês seguinte. Após lamber as feridas da derrota de 1384, D. Juan I voltou à carga, sempre com o objetivo de tomar Lisboa. A frota marítima cercaria outra vez a capital, o rei sitiava Elvas e um contingente de capitães, percorrendo a Estrada da Beira, saquearia tudo o que pudesse até Viseu. O monarca castelhano saiu-se mal, uma vez mais. Embora a frota tenha bloqueado Lisboa pelo mar, Elvas não caiu nas mãos de D. Juan I – que se retirou para Ciudad Rodrigo. Só o saque da Beira pareceu estar a correr bem: ao longo de 15 dias, umas centenas de capitães castelhanos (apoiados por ginetes, besteiros e peões) fizeram cerca de 150 quilómetros em território português, e em Viseu, que incendiaram, realizaram um roubo monumental.

Quando regressavam a Castela, recheados de bens saqueados e prisioneiros, tiveram uma surpresa junto a Trancoso. Um exército português em autogestão, formado por 340 homens de armas bem equipados e por cerca de mil peões e besteiros, comandados pelos senhores da Beira (entre os quais o “roncador” Martim Vasques da Cunha), intercetou-os na estrada que os levava a Pinhel, perto da fronteira. Porém, os castelhanos não quiseram combater. Desviaram-se em direção à população de Freches, para depois retomarem a mesma estrada. O exército português mudou também de posição, e fixou-se junto à Ermida de S. Marcos. E regressava a “receita” inglesa: os castelhanos eram obrigados a combater num terreno que o inimigo escolheu, com uma frente de 200 metros, que dava para poucos efetivos, e o flanco esquerdo protegido pela ermida. Havia ainda um declive frontal acentuado em relação à posição portuguesa e também num dos lados, que dificultava o envolvimento por parte do inimigo.

Foi um combate todo apeado (os castelhanos lembraram-se da “lição” de Atoleiros), que durou várias horas, e em que os fidalgos sobreviveram e os bem preparados capitães de D. Juan I acabaram dizimados. Para lá do “receituário” inglês, João Gouveia Monteiro considera admissível que uma parte dos prisioneiros que os castelhanos traziam tenha conseguido libertar-se, podendo, nesse caso, ter atacado o inimigo por trás, como por vezes sucedia. Documentada pelos historiadores está a decapitação do Estado-Maior de D. Juan I: muitos dos seus melhores quadros militares morreram no cerco de Lisboa, ou em Atoleiros, ou na batalha de Trancoso.

Batalha de Aljubarrota, 14 de agosto de 1385

E se D. Juan I estivesse lúcido?

Sabe-se hoje que o rei de Castela jazia na retaguarda da sua posição, atingido por uma febre que o paralisou

Se Nuno Álvares Pereira e os seus conselheiros ingleses fizeram tudo certo na preparação da crucial Batalha de Aljubarrota, o rei de Castela não podia ter errado mais. A tática da Velha Albion incluiu aqui as armadilhas dos fossos e das covas de lobo (só destas últimas foram descobertas 830, até hoje), disfarçadas com ramagens e situadas em frente à vanguarda portuguesa. De resto, a “receita” inglesa estava lá toda: reconhecimento e escolha do terreno de batalha antes de o inimigo o fazer, linhas de água laterais, envolvidas por barrancos, estreitamento natural, em determinado ponto, do pequeno planalto de S. Jorge (na verdade, localizado no concelho de Porto de Mós, uma dúzia de quilómetros a nordeste de Aljubarrota, freguesia de Alcobaça). O contingente inimigo, de 20 mil a 30 mil homens, vinha de Leiria a caminho de Santarém (que estava do lado do rei de Castela), para depois rumar a Lisboa, que D. Juan I não desistia de tomar. 
“O exército português estava ali a dar tudo por tudo”, diz o investigador João Gouveia Monteiro. “Se o rei castelhano chegava a Lisboa, era o fim, o desastre. Eles queriam atalhar o caminho à hoste inimiga num ponto em que já se encontrasse bem internada em Portugal, que não fosse próximo de Castela – em Pinhel ou Trancoso receberiam facilmente reforços – mas que também estivesse suficientemente longe de Lisboa, para que, se a batalha corresse mal, tivessem alguma esperança de recuperação.” E o exército castelhano tinha mesmo de ir ao combate. Ainda se encontrava longe de Lisboa, e não podia continuar a marcha até Santarém com um exército inimigo na retaguarda, pronto a atacar pelas costas. Os castelhanos não sabiam, mas o efetivo de Nuno Álvares Pereira era de dez mil homens, 
800 dos quais experientes mercenários ingleses 
(na sua maioria arqueiros).

Os castelhanos ainda fizeram uma patética manobra de reconhecimento do dispositivo de Nuno Álvares Pereira, enviando um proeminente nobre, Pero López de Ayala, e um irmão do Condestável, Diogo, ao acampamento do exército português, com o pretexto de uma proposta de negociações. Foram rapidamente corridos dali, sob ameaças de morte. No entanto, o “batido” Ayala (cronista-mor) foi veemente no que depois disse ao rei: aconselhou a que se não combatesse naquele dia, porque os portugueses tinham barrancos laterais, que conduziam a linhas de água, e que isso iria tornar difícil que as alas de cavalaria castelhanas entrassem no confronto. E, de facto, não conseguiriam participar no combate. 
D. Juan I, que sofria de sezões (uma espécie de paludismo moderno), ardia em febre e não entendia o que estava a acontecer no campo de batalha. Havia já 15 dias que era transportado numa liteira, na qual jazia agónico. Nem sequer se terá apercebido bem de que uma grande parte das suas tropas não chegara ao campo de S. Jorge – ainda estava na coluna de marcha, muito a norte. Pensando que ia ser fácil, e sem ter noção das armadilhas que o esperavam, o exército invasor decidiu atacar.
A batalha iniciou-se às seis da tarde e ao fim de uma hora encontrava-se decidida e terminada. E foi cruel. Logo na primeira investida do inimigo, a cargo de cavaleiros franceses, cedidos pelo rei gaulês, Carlos VI, a D. Juan I, a chacina começou. Historiadores espanhóis estimam que fossem entre 800 e 1 200 homens. Muitos morreram, e os que foram feitos prisioneiros acabaram executados, ali mesmo, no Campo de S. Jorge, por ordem de D. João I. Calcula-se que tenham morrido na batalha três mil a quatro mil castelhanos, franceses e fidalgos portugueses (casos de Pedro e Diogo, os irmãos de Nuno Álvares Pereira que combatiam por D. Juan I),
e outros tantos na fuga, assassinados por populares numa noite de facas longas (donde o mito da padeira de Aljubarrota). Do lado do Condestável, as baixas estimadas situavam-se entre 200 e 600 homens.

Numa vala comum, no Campo de S. Jorge, foram encontrados 2 874 ossos humanos (depois datados em laboratório como sendo do séc. XIV), correspondentes a 414 indivíduos do sexo masculino, com idades à morte entre 18 e 65 anos. Observam-se golpes nos occipitais (crânio) e nos fémures (pernas), sinais de agressões direcionadas. Muitos desses homens terão sido mortos quando já estavam caídos no chão ou quando se encontravam em fuga e foram atingidos por trás. Um estudo da especialista Eugénia Cunha, sobre a patologia traumática desses indivíduos, revela “um ambiente de grande pressa e confusão”. Não há grandes diferenças de lateralidade nas lesões, o que significa que os escudos serviram de pouco. É impressionante o que os ossos nos contam.

GUERRA DA RESTAURAÇÃO - Batalha das Linhas de Elvas, 14 de janeiro de 1659

Aos heróis desconhecidos

O primeiro contra-ataque de Filipe IV de Espanha, para reconquistar 
a Coroa portuguesa, foi violentíssimo. No entanto, acabou vencido por homens que só “merecem” uma nota de rodapé na nossa História

Já tinham passado mais de 18 anos sobre a Restauração da monarquia portuguesa, após a revolta de 1 de dezembro de 1640 que terminou com seis décadas de “domínio filipino” espanhol, juntando as duas coroas, mas Filipe IV não esqueceu nem perdoou. Quis voltar a ser Filipe III de Portugal.

O primeiro rei depois da Restauração, D. João IV (antes duque de Bragança), morrera há cerca de três anos, o seu herdeiro, D. Afonso VI, ainda era menor e a regência do trono português estava entregue a uma… sevilhana, a rainha viúva D. Luísa de Gusmão (Guzmán no apelido original). Confusos? Desfaça-se já a perplexidade: D. Luísa de Gusmão irá enfrentar a violência imperialista do compatriota com estoicidade.

Quando ordenou o ataque à fortaleza de Elvas, 
Filipe IV fê-lo em grande e em força. Dez mil homens de infantaria e três mil de cavalaria espalharam-se por uma linha de cerco com 18 quilómetros. Mais: 
“As trincheiras deles, que faziam a ligação a uma série de fortificações, estavam preparadas para suportar os ataques que vinham da fortaleza para fora e do nosso contingente de socorro – era uma força com dupla proteção”, diz o coronel Luís Albuquerque, diretor do Museu do Exército, em Lisboa. A isto somou-se a habitual inferioridade numérica dos combatentes portugueses: oito mil homens de infantaria e três mil de cavalaria. Sabe quem é D. Sancho Manuel? Era o comandante da sitiada praça de Elvas. E D. António Luís de Menezes? Era o chefe da força de socorro. São estes dois homens, quase ignorados na “grande” História, que vão liderar o confronto com o poderoso exército espanhol numa batalha que durou dez horas, das 9h da manhã até às 7h da tarde, e derrotá-lo. Segredo da vitória: atacaram um ponto da linha inimiga, com cinco fortins e outros tantos quilómetros, e furaram o cerco.

Mas, mesmo no final da batalha, o exército português perdeu um dos seus melhores oficiais à época. André de Albuquerque Ribafria, que comandava a força de socorro no terreno, não resistiu a um ferimento causado por um tiro de mosquete.

Batalha do Ameixial, 8 de junho de 1663

Um primeiro-ministro competente? Sim!

O conde de Castelo Melhor chegou ao poder com um golpe palaciano, mas revelou-se um governante 
à altura dos tempos de guerra

Foi D. Luísa de Gusmão quem chamou para junto de si, no Governo, Luís de Vasconcelos e Sousa, conde de Castelo Melhor. Era uma boa escolha, mas da qual a rainha viúva se arrependeria amargamente. Em julho de 1662, o conde faria triunfar um golpe palaciano, que resgatava um “boneco” chamado D. Afonso VI, filho herdeiro de D. João IV, e afastava D. Luísa de Gusmão do poder, ao cabo de seis anos de regência. Então com 20 anos, D. Afonso VI já tinha mostrado que não servia para o que o destino lhe reservara. Há relatos de que, logo em bebé, fora atacado por uma misteriosa “febre maligna” que deixaria sequelas para sempre. “Também fugia para se misturar com pessoas menos dignas nas tabernas e prostíbulos, e era muito influenciável”, acrescenta o coronel Luís Albuquerque. “Era dissoluto e inepto, mas como consequência das suas incapacidades físicas e mentais.”

Como se está mesmo a ver, D. Afonso VI delegou todos os poderes no conde de Castelo Melhor, que se tornou dono e senhor do reino. Para lá de Inglaterra, Luís de Vasconcelos e Sousa estreitou relações com a França do “Rei-Sol” Luís XIV, a cujo Estado-Maior foi recrutar um general alemão com as melhores referências, o conde de Schomberg. E o estratego alemão mostrou logo o seu génio militar naquele que foi, talvez, o momento mais perigoso para Portugal na Guerra da Restauração. Um poderoso exército de Filipe IV entrou em território nacional, tomou Évora, pretendia avançar para Lisboa, mas acabou por ir ao encontro da força de socorro portuguesa, no Ameixial, a norte de Estremoz.

Schomberg deixou que os espanhóis se instalassem nas posições que escolheram. Depois, pôs a infantaria portuguesa em duas colinas, e no vale colocou a cavalaria. Foi ao pôr do Sol que o general alemão atacou o exército espanhol, com investidas de cavalaria no vale (onde também se encontrava a cavalaria inimiga), e de infantaria, constituída por mercenários ingleses (sempre eles…), sobre a infantaria do invasor, igualmente instalada em colinas. O confronto foi curto: durou cerca de 60 minutos e terminou ainda antes de anoitecer. Do lado espanhol estiveram envolvidos 12 mil homens de infantaria e 6 500 de cavalaria. Pelo lado português combateram 11 mil homens de infantaria e três mil de cavalaria.

“Era uma hora imprópria para uma batalha, que se trava normalmente de manhã ou durante o dia. Ou seja, com algumas horas de luz pela frente, por forma a possibilitar um resultado percetível”, afirma o coronel Luís Albuquerque. Porém, foi esse o fator surpresa que determinou o desfecho vitorioso para o exército português.

Batalha de Montes Claros, 17 de junho de 1665

Fogo a 50 metros

Como o general alemão Schomberg 
nos salvou, em definitivo, a pele

Na derradeira tentativa que fez para subjugar Portugal pela força, Filipe IV colocou à frente do seu exército invasor um dos melhores generais que tinha 
– o marquês de Caracena. Nesta última batalha, travada perto de Borba, Schomberg escolheu o terreno de combate que mais lhe convinha, após efetuar um reconhecimento. Tinha alguma na manga, claro.

E a surpresa que reservou para Caracena foi a de lhe colocar a apenas 50 metros de distância seis peças de artilharia, de quatro e seis libras de calibre (uma libra corresponde a quase meio quilo). Mas, para o coronel Luís Albuquerque, “o grande segredo, e génio, de Schomberg está no emprego daquilo a que, modernamente, chamamos ‘armas combinadas’”. Ou seja, a utilização articulada de infantaria, cavalaria e artilharia. “Enquanto os espanhóis pensavam em romper o flanco direito português com um ataque de cavalaria, colocando-a toda no seu flanco esquerdo – e separando a cavalaria, à esquerda, da infantaria, à direita –, Schomberg respondeu posicionando a cavalaria intercalada com a infantaria e com as peças de artilharia pelo meio”, explica o diretor do Museu do Exército. “Foi a ação conjugada da infantaria e da cavalaria, com o apoio dos fogos de artilharia a curta distância, que quebrou o ímpeto do ataque espanhol por duas vezes. Mais: permitiu aos portugueses contra-atacar eficazmente e vencer a batalha.” Não se julgue, porém, que foi tiro e queda. O confronto prolongou-se por dez horas, com o envolvimento de grandes efetivos. Do lado espanhol encontravam-se 
15 mil homens de infantaria e 7 500 de cavalaria. O lado português estava, claro, em inferioridade numérica 
– 15 mil homens de infantaria e 5 500 de cavalaria.

No palco político, o conde de Castelo Melhor seria traído pela sua ambição. Em 1666, com 23 anos, 
Afonso VI casou-se com Maria Francisca Isabel de Saboia, neta do antigo rei Henrique IV de França e, portanto, aparentada com o “Rei-Sol” Luís XIV. A união fora negociada por Castelo Melhor, que perseguia a ideia de, após a derrota de Espanha, ver França anexar os Países Baixos espanhóis (a Flandres) e reservar a Galiza para Portugal. No entanto, Afonso VI não conseguiu consumar o ato sexual durante os 15 meses que durou o casamento, deixando o trono sem herdeiro. A rainha envolveu-se então com o cunhado, D. Pedro, e ambos iniciaram uma conspiração para destituir D. Afonso VI, através da abertura de um processo sobre a sua virilidade. Acusado, julgado e condenado pelo “crime” de impotência sexual, D. Afonso VI seria deportado para Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, nos Açores, onde ficou preso numa sala de um quartel militar. Depois recambiaram-no para o Continente e fecharam-no numa outra sala, no Palácio da Vila, em Sintra. Assim “viveu”, enlouquecido, entre 1667 e 1683, ano em que morreu de uma suposta crise cardíaca.

Por isso, é mentiroso o frontispício do Tratado de Paz de Lisboa, assinado a 13 de fevereiro de 1668, fez agora 350 anos, pelo qual Espanha renuncia, em definitivo, à conquista de Portugal. Ali, em letras garrafais, lê-se que Afonso VI foi o soberano português que subscreveu 
o documento. No interior, a assinatura é a do irmão 
D. Pedro, na qualidade de “regente”. Desfecho mais 
do que previsível: após a morte de Afonso VI, o irmão conspirador subiu então ao trono, com o nome de 
D. Pedro II, e casou-se com a ex-cunhada, Maria Francisca – que foi assim duas vezes rainha de Portugal. E tudo voltou a ficar bem