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A história proibida dos 'narcos" de Portugal e Espanha

Portugal

Sabia que Portugal foi uma peça-chave para que a Galiza se tornasse a porta de entrada da cocaína na Europa? Um jornalista do ‘El País’ explica como tudo aconteceu num livro que já vai na 10ª edição mas que acaba de ser confiscado – e que inspirou uma série televisiva recém-estreada em Espanha

Anxo Lugilde

É o livro da moda em Espanha depois de ter sido proibido por decisão judicial, a 21 de fevereiro, e da estreia de uma série televisiva nele inspirada que bate recordes de audiência. Chama-se Fariña e tem muito de português. Em qualquer fenómeno social que se desenvolva na Galiza não é preciso escavar muito para aparecerem vínculos ao Estado com quem a região autónoma espanhola partilha a fronteira e, sobretudo, o mesmo passado linguístico e cultural. Mas no caso do narcotráfico galego, cuja história é relatada por Nacho Carretero na polémica obra cuja venda já está proibida em Espanha, a conexão lusitana é essencial, uma vez que os clãs da droga surgiram a partir de redes históricas de contrabando na raia e, quando já trabalhavam para os cartéis colombianos, tiveram em Portugal a retaguarda para onde podiam retirar-se para fugir à polícia espanhola.

Em Fariña, Portugal é a fronteira em que aparecem organizações de contrabandistas nascidas para violar a lei, amiúde com a conivência dos corpos de polícia que lucram com o negócio. É o lugar onde se refugiam os capos do contrabando galego quando na década de 80 as autoridades espanholas começam a persegui-los e onde o então presidente da Xunta de Galicia chega a reunir-se com eles. É o paraíso próximo para onde se dirigem os automóveis de luxo dos narcotraficantes quando vão festejar um bom carregamento de droga nos bares de alterne do Minho. É o sítio para onde fogem os membros dos clãs ao sentirem que a polícia lhe morde os calcanhares e também o centro de operações de alguns dirigentes em fuga há muitos anos, como Josefa Charlín. É a economia próxima em que investem parte dos seus enormes lucros. E é também um dos cenários das polémicas viagens da década de 90 do atual presidente da Xunta, Alberto Núñez Feijóo, com o capo Marcial Dorado, que cumpre uma pena de 14 anos e a quem foram confiscadas propriedades e contas bancárias em Portugal, na Suíça e nas Bahamas.

Edição portuguesa a caminho

“Os direitos da edição portuguesa estão vendidos há muito tempo, muito antes de se produzir a apreensão judicial, à editora Saída de Emergência”, afirma Alberto Sáez, porta-voz da Libros del K.O. O editor de Fariña explica que a ordem da magistrada Alejandra Fontana, titular do juízo de instrução número 7 de Collado Villalba (Madrid), de apreender os exemplares do livro e proibir a sua distribuição e a sua reimpressão impede também novas vendas dos direitos para outros países, mas não afeta as já efetuadas. Sáez reconhece que a decisão judicial teve efeitos positivos a curto prazo para a comercialização da obra, pois uma vez anunciado o arresto e enquanto este não se efetivou, as vendas dispararam. Mas assegura que a médio e longo prazo as consequências são muito negativas, porque agora já não pode satisfazer a enorme procura existente e desconhece-se quando haverá uma decisão dos tribunais. Entretanto, já circulam na Internet inúmeras versões pirata.

Nacho Carretero

Nacho Carretero

Farinha é uma das formas coloquiais que na Galiza se usa para descrever a cocaína. Sob este título e uma capa imponente que recria um fardo de droga, obra de Artur Galocha, Nacho Carretero publicou em 2015 um trepidante relato de como o território galego se transformou na porta de entrada na Europa dos cartéis colombianos. A força deste livro, que já ia na sua décima edição, reside no enorme poder de atração da história, muito bem contada, e no seu cenário cativante que retrata toda a idiossincrasia galega. O seu ponto fraco está no que várias fontes do livro definiram num colóquio no canal de televisão Antena 3, depois da estreia da série, a 28 de fevereiro, como “imprecisões” no colossal trabalho de documentação que a obra exigia. A uma destas “falhas” agarrou-se Alfredo Bea Gondar, o ex-alcaide de O Grove pela Alianza Popular, antecessora do Partido Popular, formação no poder, liderada pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy. Detido por narcotráfico e encarcerado nos anos 90, Bea Gondar é referido em apenas algumas linhas do livro. No entanto, foi quanto bastou para apresentar uma queixa no tribunal de Collado Villalba, porque se sente difamado por não se dizer que o Supremo Tribunal o absolveu do crime de narcotráfico. Carretero argumenta que o Supremo anulou uma sentença da Audiência Nacional por defeito processual, mas manteve os factos provados e sublinha que Bea Gondar foi condenado por branqueamento de capitais.

Liberdade de expressão em causa

A providência cautelar que ordenou o sequestro do livro, com uma fiança de dez mil euros avançada por Bea Gondar, é uma medida muito drástica que está a gerar uma vaga de críticas em Espanha. Críticas motivadas também pelas restrições à liberdade de expressão depois da condenação do rapper Valtonyc por insultar o rei de Espanha nas suas canções e da retirada da feira de arte Arco de Madrid de uma obra sobre os dirigentes independentistas catalães presos. A Associação de Imprensa de Madrid, a que pertence Nacho Carretero, considera “excessiva” a apreensão do livro e defende que esta medida viola 
“a liberdade de opinião”.

Na documentação do processo judicial, figura, segundo a agência EFE, uma nota de parabéns de um leitor que diz: “Caro 
Nacho. Obrigado por Fariña. Já o li. Está muito bem documentado. Imagino que terá levado o seu tempo e é um bom contributo. Oxalá não tenhas de escrever sobre o tema nunca mais. Seria uma boa notícia. Um forte abraço. Muito obrigado.” O autor deste texto é o presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, a quem, em 2016, o porta-voz do Podemos, Pablo Iglesias, entregou um exemplar de Fariña depois de entrevistar Carretero no seu programa de televisão. A reação de Rajoy explica-se porque, paradoxalmente, o livro apreendido é um dos escassos best sellers dos últimos anos em Espanha em que se diz bem do desgastado primeiro-ministro, no âmbito das lutas internas da Alianza Popular de Pontevedra na década de 1980. Rajoy confrontou o setor próximo dos contrabandistas e narcotraficantes, liderado pelo então vice-presidente da Xunta Xosé Luís Barreiro, que contou nesse conflito com o apoio do patrão da direita espanhola, Manuel Fraga Iribarne.

Cascais e ligações perigosas

A obra de Carretero voltou a pôr em foco as perigosas relações entre a política e o narcotráfico. No livro inclui-se o testemunho anónimo de um juiz que assegura que “na Galiza não houve um só partido que não tenha sido financiado pelos narcos”. Não obstante, as relações mais intensas surgem na órbita do que era a Alianza Popular e é hoje o Partido Popular. Atingem o próprio presidente de la Xunta, Alberto Núñez Feijóo, que é insistentemente dado como possível substituto de Rajoy à frente do PP. O diário El País publicou a 31 de março de 2013 várias fotografias de meados dos anos 90, em que Feijóo aparece no iate do capo Marcial Dorado. Feijóo, que era na altura secretário-geral da Conselheria de Saúde, assegura que desconhecia que o seu amigo era narcotraficante, apesar das numerosas informações já publicadas então na imprensa galega sobre as ligações de Dorado à droga.

No entanto, em Fariña deixa-se a porta aberta para que possa ser verdadeira a versão de que Dorado só se dedicou ao tabaco, ainda que o tenham condenado por vender um barco para uma descarga de cocaína. Carretero conta que uma das viagens de Feijóo com o capo foi a Cascais, numa das numerosas referências da obra a Portugal e que arrancam com o mercado negro dos anos 40, como o fazia o livro Minho Connection, uma exaustiva descrição do narcotráfico galaico-português publicada em 1991 pelo jornalista José Luís Manso Preto, que pormenorizava os procedimentos para recolher a droga em alto-mar e levá-la até à costa em lanchas rápidas. “O contrabando é tradicional nas zonas raianas entre o Minho e a Galiza”, escreveu Manso Preto.

Carretero conta que quando negaram ao capo galego Falconetti uma licença urbanística, em 1980, no município de Vilanova de Arousa, este pôs uma pistola em cima da mesa e disse que “trazer de Portugal alguém que possa dar uma ensinadela custa apenas um milhão de pesetas”. “Aconteceu qualquer coisa, porque ele fugiu para Portugal”, diz-se mais à frente, aludindo a outro narcotraficante. Também são habituais alusões deste tipo que dizem respeito a Marcial Dorado: “Em Portugal tinha uma poderosa empresa vinícola, com uma enorme plantação.” Carretero fala vagamente das organizações do outro lado da raia, sem dizer nomes, como quando conta a fuga para Portugal dos capos galegos nos anos 80, que “se alojaram em hotéis de contrabandistas portugueses, antigos sócios já amplamente superados pelos galegos”. É que “Fariña’’ também é Farinha.