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Costa leva reforma da floresta a Estrasburgo

Portugal

FREDERICK FLORIN/ Getty Images

Costa quer a PAC a apoiar a reforma da floresta. Mas como? Ligando o tema ao combate às alterações climáticas. Rebuscado? Talvez. Mas não custa tentar

Filipe Luís

Filipe Luís

Em Estrasburgo

Editor Executivo

Foi na ligação de TGV entre Paris e Estrasburgo que António Costa aproveitou para afinar o discurso que haveria de proferir, horas depois, esta quarta-feira, na sessão plenária do Parlamento Europeu, naquela cidade da Alsácia francesa. E um dos recados mais importantes e subtis foi dos que lhe deu mais trabalho a burilar: a Europa quer enfrentar as alterações climáticas? Quer. A política agrícola pode contribuir para isso? Pode. Então, porque não ligar uma coisa à outra e incluir a reforma da floresta portuguesa na PAC (Política Agrícola Comum) e pôr a União Europeia a financiar essa reforma?

Este ovo de colombo político foi esta quarta-feira encontrado por António Costa, no seu discurso, como convidado do Parlamento Europeu. Parecendo que falava de grandes temas europeus - nos quais não deixou de falar - meteu, lá no meio, discreta mas habilmente, o recado português. Até agora, a PAC não contempla a floresta, visto que a exploração florestal não se inscreve, propriamente, no que a Europa entende por "agricultura". Mas as palavras de António Costa, que, ditas assim, de uma forma com que qualquer grupo político do PE poderia concordar, provoca uma mudança fundamental. O que, a verificar-se, o primeiro-ministro considerou, em conversa com um grupo restrito de jornalistas, à margem da sessão, simplesmente... "interessante".

Com a perspetiva de uma nova PAC e a tónica no seu 2.º pilar - Desenvolvimento Rural -, Portugal sugere, assim, a introdução da agricultura como instrumento de combate às alterações climáticas. Daí ao financiamento europeu da reforma da floresta portuguesa vai um passo.

O "vândalo" Juncker

O tema talvez tenha apanhado de surpresa o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, que, numa pequena intervenção de resposta a António Costa, preferiu falar de temas gerais e, bem ao seu estilo, divertir a plateia com algumas histórias pessoais. E foi assim que ficámos a saber que, na sua juventude, andou à pedrada às janelas do consulado português no seu País, o Luxemburgo: "Participei em manifestações contra a ditadura portuguesa, no seu período final. Uma vez, a polícia procurou, mas não encontrou, o autor de uma pedrada que partiu um vidro do consulado português. Pois bem, têm o culpado diante de vós..."

No final das intervenções, os deputados tiveram a oportunidade de fazer perguntas a António Costa, num debate muito participado. O primeiro-ministro, que já foi deputado europeu, confessou, aliás, nunca ter falado para uma plateia tão preenchida - num hemiciclo que raramente se encontra, sequer, a metade da sua capacidade. De 150 deputados, no inicío, a audiência rapidamente cresceu para mais de 400 e, embora sem tempo para tantas perguntas, havia cerca de 50 pedidos de intervenção para questionar o governante português. Com cinco perguntas de parlamentares lusos (num total de 15 admitidas), Costa acabou por ser bombardeado por, nomeadamente, Nuno Melo (CDS) e Paulo Rangel (PSD) sobre políticas nacionais, motivando o apelo do presidente do PE, o italiano Antonio Tajani, para que não se replicassem em Estrasburgo os debates do Parlamento português. Isto, não obstante o primeiro-ministro ter aproveitado, no seu discurso, a oportunidade para brandir os resultados económicos e financeiros da "geringonça" (conseguindo, assim, aliás, o primeiro aplauso das bancadas da ala esquerda e algumas tímidas palmas do setor direito) - e isto sem a admoestação de Tajani...

No final, António Costa compareceu numa conferência de imprensa conjunta com o presidente do Parlamento Europeu, este logo cercado pelos jornalistas italianos, excitadíssimos com a situação interna no seu País. Talvez por isso, alguém comentava: "Coitado do Tajani, a pensar que já nem devia estar aqui, mas sim a entrar no Palazzo Chigui..." (sede do governo italiano, depois de ter sido dado como candidato a primeiro-ministro, a seguir às recentes eleições). Pois sim, mas, se calhar, vai ter de esperar...