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Estes são os factos e figuras que prometem marcar 2018

Portugal

NELSON ALMEIDA/ Getty Images

António Costa ainda é o chefe da “geringonça”, mas sabe que vai ter de continuar a ir a despacho a Belém. Parte do seu sucesso ou insucesso terá a ver, em 2018, com a sua capacidade para viver com isso

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

Com o discurso proferido na mensagem de Natal, António Costa fez uma inflexão profunda na estratégia de comunicação, corrigindo a mão, na forma como reagiu aos incêndios de 17 de junho e de 15 de outubro. Mas o empenho anunciado na reconstrução, agora com o upgrade da sensibilidade face ao drama humano, não pode deixar de ser associado às iniciativas do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que teima em não deixar cair o tema. A mensagem de Costa faz a marcação, homem a homem, ao Presidente da República, que, no mesmo momento, passava o dia de Natal entre as famílias das vítimas, arrastando consigo a habitual parafernália de meios televisivos.

Esse será, mais do que as próprias relações interpartidárias na “geringonça”, o grande foco político de 2018: como se acomodará o Governo às iniciativas menos “colaborantes” de Marcelo e até que ponto o PR preservará as relações com o Governo. A coabitação ganha, assim, uma importância que ainda não tinha tido. “Já que não o podes vencer, junta-te a ele”, parece ser o lema do primeiro-ministro, quer nos cumprimentos de Boas Festas, quer na mensagem televisiva, e tudo para recuperar a incitativa perdida algures em meados de 2017. É verdade que houve uma retoma política que conduziu o PS à retumbante vitória nas autárquicas. Mas essa, para além da falta de comparência do adversário principal, teve o dedo de Mário Centeno, cujo peso tornou o Governo um tanto ou quanto “Centeno-dependente”. Mas até isso foi desbaratado, com os incêndios de outubro. Agora, com o respaldo dos números do crescimento, do desemprego e do défice, o primeiro-ministro mostra ao que vem. Ele ainda é o chefe da “geringonça”, mas sabe que vai ter de continuar a ir a despacho a Belém. Parte do seu sucesso ou insucesso, no novo ano, terá a ver com a sua capacidade para viver com isso.

Tiago Miranda

A figura

O ano de 2017 transfere para 2018 o epílogo de um caso político que pode ainda crescer. Tudo depende do que os inquéritos, sobretudo, o judicial, apurarem sobre o escândalo da Raríssimas. 
À partida, parecia um caso menor de gestão danosa, mas o que lhe deu uma dimensão nacional perdurável no tempo foi a sua componente política. O ministro Vieira da Silva, homem com a imagem séria que lhe deu tão boa imprensa, está a ser atingido, precisamente, nesse ponto, que é onde mais lhe dói. De repente, tornou-se suspeito de praticar uma espécie de nepotismo. Ele é um dos ministros mais preciosos para António Costa, quer pelo seu perfil político quer pela sua competência. 
O seu peso pode garantir-lhe a sobrevivência, mas, ainda que os inquéritos o ilibem, entra o ano com algumas dificuldades para assegurar uma credibilidade que parecia de betão.

O fator 1,1%

A Autoeuropa tornou-se símbolo do que estará a acontecer na área laboral e na esfera íntima da própria solução governativa. O PCP mudou: cumpre as exigências das posições conjuntas assinadas com o PS, nas votações parlamentares, mas solta a rua para não dar um minuto de descanso ao Governo. A força sindical extravasa a área da Função Pública para abordar uma grande empresa privada, que representa 1,1% do PIB. Estão em causa o investimento estrangeiro e o nervosismo criado num vasto conjunto de empresas que, na margem sul, gravitam à volta do gigante alemão. Ter ou não capacidade de produzir o novo modelo, o T-Roc, também ajudará um pouco a definir o nosso modelo de desenvolvimento. O desinvestimento em Palmela teria, em toda a região, o efeito de uma espécie de “alterações climáticas” na economia local.

Lucília Monteiro

O duelo

“O dr. António Costa que me perdoe, mas em 2019 vou ganhar-lhe as eleições.” Com esta frase, proferida na SIC no momento em que se candidatava à liderança do PSD, Pedro Santana Lopes não se dirigia a António Costa nem, sequer, ao conjunto do eleitorado. E as palavras não se destinavam a produzir efeitos, propriamente, em 2019. A mensagem, assim comunicada, com uma espécie de força serena de quem sabe o que está a dizer, destinava-se a obter dividendos na abertura de 2018, por ser diretamente dirigida aos militantes do PSD, de quem Santana sabe exatamente o que querem ouvir. O ano começa, assim, com as diretas de 13 de janeiro no PSD. O debate – ou debates – entre Santana Lopes e Rui Rio, deverá ser o primeiro grande momento político e mediático do ano. Mais do que qualquer plataforma de ideias para revitalizar o PSD, a discussão centrar-se-á na preparação, na notoriedade e na capacidade de mobilizar o eleitorado. A competir com Santana estará um Rui Rio também formidável em campanha. O ex-autarca do Porto não deixará de recordar que consegue travar combates impossíveis e ganhá-los. Pois não foi isso mesmo que aconteceu quando bateu o “invencível” Fernando Gomes, do PS, nas autárquicas de 2001, no Porto? E não derrotou ele, também, no mesmo passo, o próprio presidente do FC do Porto, Pinto da Costa, apoiante principal da candidatura de Gomes?

O debate centrar-se-á, assim, nas garantias de cada um para o combate eleitoral de 2019. Falar-
-se-á de de mudanças de rumo (mais à esquerda ou à direita do centro) e de heranças – quem melhor assume o legado positivo de Passos Coelho e quem melhor se preparou para cortar com o lado negro desse legado. Mas, sobretudo, assistiremos a um combate de personalidades, de carismas e de estilos pessoais. Mas não foi sempre isso que foi decisivo nas escolhas dos líderes do PSD?

Marcos Borga

Os outros

Sem grandes contratempos, os líderes políticos principais viverão, em 2018, o seu momento de afirmação. Na “geringonça”, Jerónimo de Sousa será o “polícia mau”, preparando a descolagem de 2019, e Catarina Martins o “polícia bom”, apostando numa coligação de Governo com o PS na próxima legislatura. Assunção Cristas tentará manter o avanço, conseguido este ano em Lisboa, esfriando as relações com o PSD e procurando situar-se como alternativa à direita.

A dúvida

A entrada da Santa Casa da Misericórdia no capital do Montepio, que marca a estreia da instituição no setor financeiro – e logo num banco com um rating de elevado risco – avoluma as preocupações sobre a excessiva exposição dos contribuintes ao setor bancário. O montante do resgate encapotado – 200 milhões de euros – até poderá ser irrisório para uma Santa Casa cujas receitas suportam bem esse risco. Mas do que se trata 
é do modelo e da motivação. 
O resultado desta mal explicada operação vai perceber-se 
em 2018.

Marcos Borga

Estrelas emergentes

O secretário de Estado das Finanças, Mourinho Félix passou, discretamente, boa parte dos últimos meses a preparar-se para substituir Mário Centeno, sobretudo, na representação do Governo no Eurogrupo. Da sua competência dependerá boa parte do sucesso do Executivo. Ouviremos falar dele, não só nas reuniões em Bruxelas, mas, mais para o outono, quando se tratar de negociar o último orçamento da legislatura. Os números, sobretudo o do crescimento, que pode estabilizar ou arrefecer, terão um papel. A habilidade de outro “subministro”, Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e pivô da negociação permanente com BE, PCP e Verdes, permite olear a “geringonça”. Se, daqui a um ano, virmos que a legislatura chega mesmo ao fim, ele ter-se-á tornado o principal candidato à sucessão, no PS.

(Artigo publicado na VISÃO 1295 de 28 de dezembro)