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O “impopular” no recreio do “tabloide”

Portugal

Miguel Carvalho

José Carlos Carvalho

Crónica do primeiro debate entre Rui Rio e Santana Lopes, na RTP, a propósito das eleições internas no PSD

Rui Rio deveria estar avisado. Mas foi apanhado na curva. São muitos anos a virar frangos, diria o outro. E Pedro Santana Lopes continua a virá-los com habilidade, tostadinhos e suculentos, para quem apreciar esta culinária mediática. Tem propostas para o País? Tem. Propostas para o partido? Tem. Mas do que ele gosta é de não falar de diversos assuntos, falando. “Eu podia falar de...” é uma frase comum, que lhe sai como o ar que respira, para rememorar um certo episódio ou artimanha que lhe fizeram. “Mas não vou falar”. E, entretanto, já falou. De tudo.

Na RTP, no primeiro debate televisivo sobre as eleições internas do PSD, Pedro Santana Lopes tentou fazer gato-sapato de Rui Rio, adversário na corrida à liderança. Anos de televisão e de comentário político deram-lhe a arte, a pose, as ferramentas. Entre elas, a casca de banana, onde Rio escorregou, quando se falou das diferenças entre os dois.

O discurso de Pedro – naquele jeito delambido e diletante de quem fala à mesa do café, mas depois tem um compromisso de Estado ou um outro prazer à espera - os apartes, as fotografias que exibe, as fotocópias que traz à liça, constituem um mix generoso de assuntos e de striptease político do oponente que qualquer diretor de tabloide não desdenharia. Vejamos: ele há referências a mexericos, amizades perigosas, bastidores, telefonemas privados, meias verdades, pequenas diatribes, denuncia de apoiantes “toca e foge”, patifarias de bas-fond partidário. A isso, Pedro junta lamentos e beicinhos típicos, ensaiados muito antes do dia em que se apresentou ao partido como o “menino guerreiro”. E na barrela de Santana, nem a Associação 25 de Abril foi poupada. Pior: foi estigmatizada como uma qualquer agremiação de malfeitores que pretende, antes de tudo, o mal do PSD.

Ah, também se falou de financiamento partidário, do peso do Estado, de corrupção, de estratégias eleitorais para ganhar 2019, do que quer e pode o partido nos tempos mais próximos. Rio não tem o dom de servir as câmaras, os holofotes, mas Pedro faz deles o que quer e ainda pousa a mão no braço do mediador do debate, para lhe dar mais uma palavrinha. É por isso que tantos anos a assistir à presença televisiva de Santana nos dão sempre a sensação de que ele fala mais, falando igual.

Quanto a Rio, faria bem em combater a rigidez, a postura de quem acha que lhe devemos sempre alguma coisa. A impopularidade está lá, nas convicções e no argumentário de décadas, sem cedências ao facilitismo e ao mediatismo. Talvez seja isto a seriedade, mas o recreio, ali, é de Pedro. Como o foram, tantas e tantas vezes, os congressos do PSD. Ele entrava e o universo parava. Depois, o partido ouvia-o sem deixar zumbir uma mosca, e ele ia à sua vida. Derrotado como sempre, mas a andar por aí.

Se a história se repetirá, não se sabe. O partido gosta do Pedro, acha-lhe graça. Viu-o crescer, nas patuscadas, gabinetes e salões. Viu a obra que fez e também desfez. Nuns quantos meses de “trapalhadas”, sim. Dele pode esperar-se uma anedota, uma petit histoire. Rio parece, pelo contrário, saído do Olimpo, inacessível. À espera que o partido vá atrás do sentimento do povo anónimo e se enleve. Mas, no dia 13, os militantes votam e o País assiste. Chegará ser desassombrado como poucos a falar do financiamento partidário e da falta de eficácia e recato do Ministério Público?

José Carlos Carvalho

Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.