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Administrador do grupo Lena confessou que sem Carlos [Santos Silva] o grupo não existiria

Portugal

Marcos Borga (MB)

Joaquim Paulo Conceição, CEO do grupo Lena, queixou-se aos investigadores da Operação Marquês: “Sabe qual foi o único salário que não consegui baixar? Foi o do Carlos Santos Silva. Ele tinha poder sobre o grupo”

Quando foi ouvido pelo Ministério Público no âmbito da Operação Marquês, Joaquim Paulo Conceição, CEO do grupo Lena, descreveu um grupo empresarial em que não conseguia ter mão em muitas das decisões. Todas as decisões que envolviam Carlos Santos Silva, o empresário que trabalhou para o grupo Lena e é acusado de ser o testa-de-ferro de José Sócrates, seriam tomadas por Joaquim Barroca Rodrigues, um dos fundadores do grupo Lena, também acusado no processo por ser um dos intermediários do dinheiro que circulou até chegar ao ex-primeiro-ministro.

A tal ponto que, numa certa fase em que o grupo de Leiria precisou de fazer uma reestruturação devido a um enorme buraco nas contas, Joaquim Paulo Conceição não conseguiu tocar no salário de Carlos Santos Silva: “O Carlos diz que sem ele nós não existíamos e era assim mesmo. Portanto tudo aquilo que pagámos era muito pouco em função daquilo que ele arranjou e que angariou efectivamente de negócio.”

E prosseguiu, tentando mostrar ao inspetor tributário Paulo Silva que as decisões que comprometiam o grupo Lena não tinham sido suas: “Aquilo que eu tenho estado a tentar fazer é tentar salvar um grupo que tinha à minha entrada, olhe aqui, a 30 de Novembro de 2010, não sei se quer ver ali em baixo o saldo negativo de tesouraria. Está a ver sr. Dr? 50 milhões de buraco. Isto foi a prenda que me deram quando me nomearam presidente executivo do grupo. )…) Nós fizemos um caminho de reestruturação. Uma simplificação societária enorme, despedimento de pessoas, diminuições salariais aos administradores… E sabe qual foi o único salário que não consegui baixar quando cheguei à XMI [uma das empresas do grupo, de que Santos Silva era administrador]? Fui ter com o Joaquim Rodrigues e disse: “Meu caro, o salário que está ali é impossível de manter-se e, portanto, vais falar por favor com o Carlos e vamos baixar-lhe o salário.” Sabe qual foi o único salário que não consegui baixar? Foi esse. Até os dos acionistas eu baixei, mas o do Carlos não se baixou.”

Porquê?, quis saber Paulo Silva. “O Carlos tinha realmente um poder sobre o grupo, obviamente porque tinha poder sobre o Joaquim Rodrigues, mas isso é evidente, ó Dr. Paulo Silva.”

E que competências tinha Carlos Santos Silva para merecer tamanhas quantias?, quis saber o procurador Rosário Teixeira. “Há uma coisa de que não há dúvida: os negócios vieram por ele. O da Venezuela por exemplo. Foi um negócio que demorou não sei quantos anos a chegar; foi um negócio que se não tivesse chegado na hora que chegou… com este cenário que aqui tinha jamais teríamos aguentado até 2013 com a reestruturação da banca. Porque, o que é que aconteceu? Em 2010 a banca diz assim: “Meus senhores as dívidas estão todas vencidas e portanto vocês já não têm mais financiamento.”(…) Este negócio foi trabalhado tecnicamente, desde a génese, pelo engenheiro Carlos Santos Silva.”

E não se dizia não a negócios daqueles naquela altura, insistiu Joaquim Paulo Conceição, quando se estava “absolutamente teso”.

Sobre o negócio em torno dos terrenos do Kanhangulo, em Angola, que o Ministério Público entende ter sido uma estratégia usada para colocar mais dinheiro na esfera de José Sócrates, o CEO do grupo Lena disse ter-se sentido enganado por Hélder Bataglia. Mas disse também que de nada valia reclamar junto de Joaquim Barroca: “Isto é uma estratégia e uma agenda muito própria do Joaquim Rodrigues.” E como é que Joaquim Barroca se conseguia impor ao CEO do grupo e ao seu irmão, António Barroca? “Ó sr. dr., essa é uma questão muito difícil, invocava questões no sentido de dizer que então a gente não consegue mais obra nenhuma… O argumento era: então se vocês não confiam na estratégia eu saio. Quantas vezes ele se levantou da mesa a dizer assim. O António é uma pessoa mais tranquila, uma pessoa que aceita muito aquilo que ouve, uma pessoa muito mais afável.. ele tenta ser o equilíbrio. O Quim é uma pessoa impulsiva… e se a vontade dele não prevalece aquilo é um tormento. Eu aceito que o António em boa parte das questões tenha preferido o equilíbrio, a manutenção do equilíbrio numa fase tão difícil para não se chatear com o irmão, porque assisti e estive várias vezes no meio de grandes discussões.”

Joaquim Paulo Conceição foi constituído arguido no processo por suspeitas de que teria tido intervenção em negócios dos quais terão resultado contrapartidas para José Sócrates e seus familiares, mas não chegou a ser acusado no processo.