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Quem é o homem escolhido para a missão de acabar com o flagelo dos incêndios

Portugal

Nuno Botelho

Tiago Martins de Oliveira é o novo presidente da Estrutura de Missão para a instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais. A escolha estava perto de ser consensual, não fossem as críticas do Bloco de Esquerda e do PEV. Mas quem é, afinal, o homem escolhido para reformar a famigerada área de prevenção e combate aos incêndios?

"Há 20 anos, estava longe de imaginar que a experiência que hoje acumulo – o saber fazer operacional aliado ao conhecimento científico na ciência do risco – pudesse ser útil ao meu país neste momento tão difícil para todos". Foi desta forma que, durante a sua tomada de posse, Tiago Martins de Oliveira se referiu à sua experiência profissional de modo a justificar a sua escolha. A experiência académica e técnica que detém é reconhecida. Sapador florestal, viveu em 2006 um dos momentos que mais o marcaram no combate ao fogo: lutava contra as chamas num grupo de que faziam parte dois bombeiros chilenos que acabaram por morrer. Foi aliás o próprio quem recordou este episódio na cerimónia de tomada de posse.

Não é a primeira vez que Tiago Martins de Oliveira vai trabalhar para António Costa. Em 2005, quando o atual primeiro-ministro detinha a pasta da Administração Interna no Governo de José Sócrates, o até agora trabalhador da Navigator (ex-Portucel) foi um dos técnicos que elaborou uma proposta para reformar a floresta. Costa nunca chegou a aplicar uma linha do Plano Nacional de Defesa da Floresta contra incêndios – assim se intitulava o documento. Agora, 12 anos depois, chama Tiago Martins de Oliveira para dirigir a Estrutura de Missão para a instalação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais.

As críticas de Bloco de Esquerda e os elogios da Quercus

Embora a escolha de Tiago Martins de Oliveira para o cargo tenha sido amplamente elogiada foi também alvo de algumas críticas. O Bloco de Esquerda questiona a escolha de uma pessoa que, ao longo dos últimos 20 anos, trabalhou na Navigator, uma empresa do ramo das celuloses. O deputado Pedro Soares (BE), em declarações ao jornal Público, disse estar surpreendido por o Governo ter indicado "para presidir a uma estrutura e para um lugar que parece ser equivalente a secretário de Estado uma pessoa que, independentemente das suas qualidades técnicas, tenha estado ligado à indústria das celuloses".

A estas críticas, o primeiro-ministro respondeu de forma clara ontem, durante o debate sobre a moção de censura apresentada pelo CDS. António Costa afirmou que Tiago Martins de Oliveira "é uma pessoa que detém a nível nacional e internacional um prestígio à prova de bala", salientando a sua "independência" que pode ser comprovada "pela vasta bibliografia publicada".

Mas não é apenas António Costa que defende o homem que vai liderar a unidade de missão para incêndios. Também a associação ecologista Quercus sai em defesa da escolha do Governo. "Há essa questão das ligações à Portucel, mas ele é um técnico que tem credenciais e habilitações para coordenar, liderar a Estrutura de Missão, portanto, profissionalmente tem o perfil adequado", disse à Lusa o presidente da Quercus, João Branco. No entanto, a associação fez questão de deixar um aviso a Tiago Martins de Oliveira: "Achamos que esta estrutura deve integrar vários setores da sociedade, nomeadamente das organizações não-governamentais, como as do ambiente", de forma a garantir um "equilíbrio de interesses".

Filho de peixe saberá nadar?

O técnico escolhido por António Costa para a difícil tarefa de reformar a floresta tem um currículo e uma bibliografia vastos na área dos fogos. É, acima de tudo, um académico e um técnico especializado no tema. Bombeiro com experiência no combate aos incêndios, tem sido retratado como uma das pessoas mais habilitadas para desempenhar a função para a qual foi ontem desginado. Há, no entanto, um fator que pode complicar a equação: trata-se de um cargo político.

Tiago Martins de Oliveira nunca foi um político. Mas a política é algo que sempre existiu na sua família. O seu pai, César de Oliveira, foi militante do PCP antes do 25 de Abril. Depois da revolução, deixou o partido para se associar à fundação do Movimento de Esquerda Socialista, ao lado de nomes como Jorge Sampaio ou Eduardo Ferro Rodrigues. Mais tarde juntou-se à União da Esquerda para a Democracia Socialista, partido pelo qual chegou a ser deputado. Foi-se afastando de uma esquerda mais radical até acabar por integrar o PS. Entre 1990 e 1994, César de Oliveira foi Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital. Curiosamente, uma das áreas mais afetadas pelos incêndios de 15 de outubro.

Filho de um político com tarimba, chegou a vez de Tiago Martins de Oliveira dar pela primeira vez passos na área. Um amigo de infância contou à VISÃO que o César de Oliveira era um "grande pescador". E acrescentou que "para além das lides florestais, o Tiago também tinha muito jeito para as lides marítimas. Era um bom timoneiro". Será que, nesta nova função, filho de peixe vai saber nadar?