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Os três erros e o tiro certeiro da CIA em Portugal

Portugal

Charles Ommanney

Acredita que a agência americana de espionagem foi apanhada de surpresa pelo golpe militar de 25 de Abril de 1974, que derrubou a ditadura do Estado Novo?

A CIA cometeu erros impensáveis de análise da sociedade portuguesa, se observados por quem hoje olha para trás. Estes “tiros ao lado” são as revelações mais surpreendentes de um livro agora publicado, Portugal Visto pela CIA, do jornalista Luís Naves (ed. Bertrand, 245 págs., €17,70). O autor, 56 anos, trabalhou a “informação inédita” reunida na obra a partir da recolha, pelo investigador italiano Eric Frattini, de uma centena de documentos desclassificados pela secreta americana, e que refletem a atividade dos seus espiões em Portugal e no então Ultramar. É longo o período documentado – quatro décadas, de 1945 a meados dos anos 1980. Era expectável a existência de lapsos. Mas o que Luís Naves encontrou foram erros grosseiros, que aqui são escrutinados. Também há um “tiro” particularmente certeiro, relacionado com o “Verão Quente” de 1975. Outra coisa não seria de esperar: é um memorando da autoria do então vice-diretor da CIA, Vernon Walters.

OS ERROS...

1. Tese delirante

A 5 de abril de 1963, cerca de dois anos após o início da luta armada dos movimentos angolanos de libertação contra o regime colonialista de Lisboa, chefiado com mão de ferro por Oliveira Salazar, a CIA produziu um insólito “relatório especial”. Depois da explicação sobre as origens das organizações nacionalistas e a possível evolução do conflito, onde mencionava a descoberta recente de reservas de petróleo e sublinhava a negligência portuguesa em investir na então “província”, os espiões americanos “faziam uma previsão totalmente ao lado”, como destaca Luís Naves. Lê-se no documento: “Há uma sensação corrente entre todos os níveis da sociedade angolana de que é possível uma eventual acomodação entre os brancos e os intelectuais de educação portuguesa que lideram o MPLA.” Em 1963, para a CIA, o MPLA era um movimento nacionalista que integrava muitos mulatos e brancos, com fortes simpatias nos grupos populacionais educados. Há uma passagem nesse “relatório especial” de absoluto delírio: o MPLA, consideravam os espiões, “é mais um partido de oposição português do que um partido nacionalista angolano.”

Os agentes responsáveis pelo “relatório especial” de abril de 1963 viam Angola como uma “província” em estado de guerra que parecia ponderar desligar-se da metrópole. E não era só com a “acomodação” entre colonos e a liderança do MPLA. Havia desagrado nas patentes intermédias das forças armadas. “O cônsul-geral [dos EUA] estima que um terço das forças que agora servem ali gostariam de ficar como colonos”, lê-se no documento. Embora reconhecessem que havia uma fação pró-comunista no MPLA, sublinhavam que essa ala, chefiada por Viriato da Cruz, fora superada pela de Agostinho Neto, que até mantinha contactos com gente próxima de Humberto Delgado, o general, pró-americano, opositor de Salazar. A História demoliu este The Angolan Rebelion and White Unrest, Special Report, CIA. Da primeira à última linha.

2. Aos papéis

Quando se deu o golpe militar de 25 de Abril de 1974, que derrubou a ditadura de 48 anos do Estado Novo, então apodrecida por completo, a CIA foi apanhada desprevenida. O primeiro “farrapo” de informação, como lhe chama Luís Naves, enviado de Lisboa pelos espiões foi um curto telegrama, mandado na manhã desse dia (às 5h30, hora de Washington). “Dava conta da rebelião militar”, relata o jornalista, “sem conseguir identificar exatamente os autores, que se definiam como Movimento das Forças Armadas (MFA), que, dizia-se no texto, ‘parecem representar os apoiantes militares do general António de Spínola’”. Já entrados em maio de 1974, o padrão dos papéis produzidos pelos agentes da CIA continuava a ser o mesmo, descreve Luís Naves. 
“A ação de 25 de Abril era atribuída sem reservas à Junta Militar e ao seu membro mais destacado”, Spínola. Os espiões não perceberam que um movimento de capitães conspirou contra o regime anterior e decidiu lançar o golpe, escolhendo à última hora os membros da Junta, para impulsionar as bases da transição política.

Designado Presidente da República, Spínola queixava-se de que não tinha qualquer autoridade, porque a Comissão Coordenadora do MFA funcionava como órgão de poder paralelo. A 30 de setembro de 1974, renunciou ao cargo. 
E a 11 de março de 1975 deu-se um golpe de direita. Falhado. Os espiões da CIA explicaram aos seus superiores que todos os detidos, na sequência desta ação militar fracassada, apontavam para a mesma responsabilidade – “O general conservador ex-presidente Spínola.” Escreve Luís Naves: “Repare-se na mudança de representação do militar, em tão pouco tempo, de homem forte do novo regime para simples general conservador.”

3. Soares e Cavaco ignorados

A CIA falhou também com estrondo nas suas previsões sobre as Presidenciais de 1986 e o novo ciclo político que a seguir se abriu. Num memorando de 8 de janeiro de 1986, “de forma incrível, não foi incluída uma entrada com a análise do eventual triunfo de Mário Soares [nas Presidenciais]”, escreve Luís Naves. Os espiões achavam “mais credível uma segunda volta entre Maria de Lurdes Pintasilgo e Freitas do Amaral”. Mas acabou a ser disputada por Freitas e Soares. E, a 16 de fevereiro de 1986, o candidato ignorado pela CIA foi eleito Presidente da República, obtendo 51,2% dos votos. Dois meses depois, a 7 de março, os espiões falhavam outra vez o alvo. Davam Cavaco Silva, então primeiro-ministro minoritário, como “grande derrotado”, porque apoiara Freitas. “Pensamos que a eleição de Soares vai provavelmente tornar o Governo de Cavaco Silva ainda mais frágil”, anteviam. Aconteceu o oposto: nas Legislativas antecipadas de julho de 1987, o PSD liderado por Cavaco conquistou a primeira das suas duas maiorias absolutas. O domínio que se seguiria passou ao lado dos espiões.

… e o ‘tiro certeiro’

Se a CIA demorou meses a perceber quem eram os autores do golpe militar de 25 de Abril de 1974, correu depois atrás do prejuízo e acertou o passo. Foi crucial a nomeação de um novo embaixador em Lisboa, o muito ativo e influente Frank Carlucci. Após a entrada em funções do VI Governo Provisório, chefiado pelo almirante Pinheiro de Azevedo, a CIA produziu, a 29 de agosto de 1975, um memorando ao mais alto nível. Era assinado pelo vice-diretor da agência, Vernon Walters, que se baseou em observações de Carlucci, tinha como destinatário o secretário de Estado, Henry Kissinger, e admitia a iminência de uma guerra civil em Portugal entre radicais e moderados. O documento interpretava a nomeação de Pinheiro de Azevedo “como uma evolução desfavorável, o que se tratou de uma má leitura”, escreve Luís Naves.

Mas no resto acertava em cheio. Os americanos colocaram todas as suas esperanças no então major Melo Antunes (na foto), à época ministro dos Negócios Estrangeiros, e a figura mais destacada do chamado Grupo dos Nove, que apresentara no Conselho da Revolução, no início daquele mês, um documento de rutura, exigindo a concretização de uma democracia parlamentar. Vernon Walters, porém, inquietava-se com a estratégia paciente da “fação anticomunista” de Melo Antunes. Ainda não se tinha lutado devido “à interminável capacidade portuguesa para procrastinação”, escreveu o “vice” da CIA. Mas a 25 de novembro de 1975, em reação a um aparente motim numa unidade militar, ocorreu uma rápida ação que pôs termo à revolução e permitiu estabilizar o regime. Em 1976, foi aprovada a nova Constituição, houve eleições legislativas, ganhas pelo PS de Mário Soares, e nas Presidenciais triunfou o general Ramalho Eanes, um dos cérebros do golpe de novembro de 1975. O perigo da guerra civil e a “ameaça comunista” estavam eliminados.

(artigo publicado na VISÃO 1279, de 6 de setembro de 2017)