Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

1948-2017: Pequenas memórias do Bispo do Porto

Portugal

Filipe Pombo

D. António Francisco dos Santos morreu esta segunda-feira de manhã, aos 69 anos, de ataque cardíaco. Qual era a Igreja em que ele acreditava?

Impulsionou, enquanto Bispo de Aveiro, a criação da Cristoteca, discoteca cristã que não renegava a pista de dança, partidária do “namoro com seriedade e santidade”, mas vedada a bebidas alcoólicas e drogas. Era a forma de dar corpo a um projeto de renovação da diocese que D. António Francisco dos Santos liderou durante sete anos e que, com fito na evangelização, até “tendas cristãs” levou às praias. Otimista inabalável, era igualmente um ferrenho adepto do atual momento turístico do Porto, apesar dos riscos. “Hoje sinto que estamos todos a trabalhar para devolver à cidade e ao centro histórico os habitantes que daqui saíram”, referiu, numa das suas últimas entrevistas, em julho, à Rádio Renascença.

D. António Francisco dos Santos, Bispo do Porto, faleceu esta manhã no paço episcopal, aos 69 anos, não resistindo a um ataque cardíaco.

Natural de Tendais, freguesia do concelho de Cinfães, ordenado padre em 1972, serviu a diocese de Aveiro antes de ser nomeado para o Porto, em fevereiro de 2014, substituindo o atual patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente. De perfil público discreto era, no entanto, expansivo em privado. Mais do que manter ou impulsionar os rituais eclesiásticos, gostava de conhecer o terreno e teria já concluído o seu périplo pelas 477 igrejas da diocese para ouvir as comunidades e a sua história. Queria “conhecer os sonhos das pessoas” e destrancar ferrolhos históricos: “A porta não pode ser nunca uma porta que feche caminhos para a Igreja ou que encerre cristãos dentro da Igreja”, afirmou, numa entrevista à revista Família Cristã. Era devoto da criatividade aplicada às celebrações e, numa entrevista ao Porto Canal, elogiou mesmo a interpretação de Aleluia, de Leonard Cohen, do padre irlandês Ray Kelly, num casamento, defendendo a abertura da Igreja a “novas linguagens” e formas de envolver os fiéis. Reclamava, com frequência, “novos gestos, novo vigor e entusiasmo”.

Nas celebrações pascais, não esquecia que a “festa da vida” tinha de ser “garantida e assegurada para todos” e não apenas para alguns. Era a sua forma de chamar a atenção para os excluídos, desfavorecidos e marginalizados da sociedade. A Igreja, desafiava, tem de “despertar a consciência comum e a responsabilidade coletiva”.

Nos últimos anos mostrara-se “muito preocupado” com o acolhimento a quem procurava no Velho Continente a sobrevivência. Atento à situação dos refugiados “que chegam por mar e terra”, era igualmente crítico da Europa. “Tem mostrado pouca solidariedade e está a perder o sentido da sua própria história”. Aos 69 anos, calou-se, mas deixando muitas pistas para a reflexão interior da Igreja e do seu papel em sociedade. Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto, decretou três dias de luto municipal pelo seu falecimento.