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Como Sócrates quis comprar o ‘Público’

Portugal

Rafael Marchante

Paulo Azevedo revelou, na Operação Marquês, que José Sócrates lhe ofereceu um comprador para o jornal Público: o grupo Lena, tendo como intermediário Armando Vara, à data no BCP. Tudo aconteceu numa época em que o então primeiro-ministro telefonava zangado ao líder da Sonae por causa de notícias publicadas naquele diário

Paulo Azevedo estava a ser ouvido como testemunha na Operação Marquês quando, a meio da inquirição, contou que José Sócrates costumava telefonar-lhe “zangado” com notícias publicadas no jornal Público. Sempre que isso sucedia, esclareceu, respondia da mesma forma, dizendo que não influenciava as decisões dos jornalistas. Segundo contou, também lhe disse que não era segredo que a empresa estava disponível para vender o diário lançado pelo seu pai, Belmiro de Azevedo, total ou parcialmente, visto que a Sonae não se revia na ideia de um grupo económico ter um jornal. Para que isso sucedesse era necessário que aparecesse uma entidade com “credibilidade” na área jornalística e com “independência política” que garantisse a continuidade do jornal. Foi então que, a determinada altura, prosseguiu o presidente da Sonae, o então primeiro-ministro lhe terá dito que “tinha um excelente comprador” interessado no Público. Mas para saber quem era deveria ir falar com Armando Vara, à data administrador no BCP.

O presidente da Sonae contou que seguiu o conselho. Foi à sede do grupo BCP, tendo então ouvido da voz do ex-ministro Armando Vara – também arguido na Operação Marquês –, que o “excelente comprador” para o Público era o grupo Lena. A confiar no depoimento que deu no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), de que a VISÃO teve conhecimento, Paulo Azevedo recusou de imediato a proposta intermediada por Vara, por entender que o grupo Lena não cumpriria nenhum dos critérios estabelecidos pela Sonae para a venda do Público: nem “reputação” na comunicação social, nem garantia de independência do poder político, nem “credenciais de boas práticas de Estado”.

Perante dois procuradores do Ministério Público e dois inspetores da Autoridade Tributária, Paulo Azevedo sublinhou que tudo lhe pareceu “muito estranho”, mas não chegara a saber mais pormenores porque não alimentara a conversa. O procurador Rosário Teixeira estava interessado, no entanto, em saber por que razão Armando Vara era o “arauto” do grupo Lena. O CEO da Sonae respondeu que “o mais estranho” é que José Sócrates lhe tinha dito que só Armando Vara podia dizer quem era o comprador. Como declinara a oferta, não sabia dizer se Vara aparecia como intermediário porque o BCP iria financiar o grupo Lena nessa operação ou por outra razão qualquer.

Paulo Azevedo não precisou a data destas conversas. Situou-as apenas numa época que terá coincidido com notícias do jornal Público que incomodavam José Sócrates, com a passagem de Armando Vara pela administração do BCP e num momento anterior ao lançamento do jornal i, diário financiado pelo grupo Lena. Ora, Vara tornou-se vice-presidente do Banco Comercial Português logo no início de 2008 e pediu a suspensão das suas funções em novembro de 2009, quando rebentou o escândalo do Face Oculta – em que acabaria por ser condenado a cinco anos de prisão (ainda em fase de recursos). Foi oficialmente suspenso em novembro de 2010. Já o jornal i foi para as bancas em maio de 2009, depois de começar a ser desenhado no final de 2008.

Entre 2007 e 2009, o Público esteve na linha da frente de várias investigações que terão deixado José Sócrates furioso, a ponto de o então primeiro-ministro ter nomeado publicamente José Manuel Fernandes, à data diretor do jornal, como o seu “melhor inimigo”. A tensão começou quando o antigo governante quis travar a investigação sobre a sua licenciatura na Universidade Independente, logo em 2007. E prosseguiu com as histórias das assinaturas de projetos de edifícios na Guarda que não seriam seus, mas de outros engenheiros; e com a revelação das primeiras suspeitas de fraude fiscal na compra do seu apartamento no edifício Heron Castilho, na Rua Braamcamp, em Lisboa.

Paulo Azevedo foi ouvido no DCIAP a 22 de setembro de 2015, mas grande parte das suas declarações – como as que envolvem o alegado interesse de Sócrates em passar o Público para as mãos do grupo Lena – nunca foi tornada pública. Contactado pela VISÃO, o presidente da Sonae recusou dar mais detalhes sobre aquelas conversações por não querer “revelar nem comentar o conteúdo de conversas privadas”: “O testemunho que prestei foi ao abrigo do meu dever de colaborar com a Justiça.”

José Sócrates nega tudo. O principal arguido da Operação Marquês diz à VISÃO ser falsa a história de que telefonava com frequência a Paulo Azevedo; falso “que alguma vez” tivesse “tido conhecimento de alguém interessado na compra do Público”; falso que “alguma vez tivesse sugerido ao dr. Paulo Azevedo que falasse com o dr. Armando Vara, sobre esse ou sobre qualquer outro assunto”. O antigo governante diz ainda ser “falsa a insinuação” pois nunca foi “próximo ou esteve ligado ao grupo Lena”. E remata: “Só não é falso que o dr. Paulo Azevedo se preste a estas intrigas.”

Armando Vara não quis prestar esclarecimentos. Já o grupo Lena rejeita alguma vez ter tido ou mostrado interesse na compra do diário da Sonae. Diz que essa hipótese “nunca esteve em cima da mesa” e que, “jamais, em tempo algum”, mandatou Armando Vara ou José Sócrates como intermediários. E como saberia Sócrates, à data primeiro-ministro, dos interesses do grupo Lena em órgãos de informação? Os responsáveis do grupo empresarial de Leiria não sabem. “O que podemos dizer é que nunca foi trocada qualquer informação, fosse de que teor fosse, com o antigo primeiro-ministro sobre esses assuntos ou outros.”

Os planos de controlo

Os novos detalhes contados por Paulo Azevedo são relevantes para os investigadores da Operação Marquês no contexto dos alegados planos do ex-primeiro-ministro para controlar a comunicação social porque ligam, mais uma vez, José Sócrates ao grupo Lena. Afinal, novas provas recolhidas no processo em que Sócrates é suspeito de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais levaram o Ministério Público a desenterrar o alegado plano do governo de Sócrates para tomar de assalto a TVI.

Recorde-se que essas suspeitas surgiram em 2010, quando no decorrer das escutas ao ex-ministro Armando Vara os investigadores do Face Oculta desconfiaram estar em marcha um plano para controlar alguns media, e mandaram extrair uma certidão por suspeitas de que José Sócrates tivesse cometido um crime de atentado contra o Estado de Direito. O então presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento, mandou destruir as escutas. Pensava-se que o assunto tinha ficado enterrado ali.

Mas não. Por um mero acaso, nas buscas ao Haitong (antigo Banco Espírito Santo de Investimento) foram encontradas anotações de uma reunião na qual se discutiu a compra da Media Capital, proprietária da TVI, por parte de um consórcio formado pelo Taguspark, grupo Lena e investidores angolanos. A responsável do banco que escreveu as anotações foi chamada ao DCIAP e confirmou ter tido reuniões com Rui Pedro Soares, então administrador da PT e acionista do Taguspark, sobre a possibilidade de aquisição da Media Capital. O projeto tinha como nome de código Operação Aljubarrota. O procurador Rosário Teixeira aproveitou o embalo para pedir à Assembleia da República a documentação reunida na comissão de inquérito que investigou o assunto. Pediu também ao Tribunal da Relação do Porto, que tinha em mãos os recursos do Face Oculta, todas as conversas intercetadas a Armando Vara naquele processo.

José Sócrates sempre negou quaisquer tentativas de controlo dos media. O que ninguém esperava era que um novo processo – a Operação Marquês – viesse mostrar que depois de já não ser primeiro-ministro Sócrates terá usado a sua influência para decidir quem iria liderar o Jornal de Notícias. Conversas telefónicas e sms mostram que, quando o advogado Proença de Carvalho assumiu a liderança da Global Média (DN, JN e TSF), José Sócrates começou um processo de recomendação do jornalista Afonso Camões para a direção de um dos jornais do grupo. Proença, dizia Sócrates, precisava de alguém que obedecesse e não fizesse perguntas. Desta vez, não há como negar o que ficou gravado.