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Parque Escolar pagou 148 milhões de euros a empresas ligadas a Santos Silva

Portugal

NUNO FOX

Os investigadores da Operação Marquês acreditam que Sócrates não terá recebido dinheiro apenas do Grupo Espírito Santo. Há uns meses pediram todos os dados sobre o concurso do TGV e sobre as obras da Parque Escolar

Depois de conseguir reconstituir que parte dos milhões que chegaram às contas na Suíça de Carlos Santos Silva (o empresário suspeito de ser o testa de ferro de José Sócrates) tiveram origem em contas do Grupo Espírito Santo, os investigadores da Operação Marquês voltaram às primeiras linhas de investigação e às suspeitas que levaram à detenção de José Sócrates, em novembro de 2014. Já no início deste ano, foram pedidas informações sobre o concurso do projeto de alta velocidade ferroviária (TGV) e sobre o consórcio Elos (liderado pela Brisa e pela Soares da Costa), que venceu a concessão. E também sobre as empreitadas encomendadas pela Parque Escolar, o programa de remodelação das escolas lançado em 2007 pelo governo de José Sócrates.

Em fevereiro deste ano, a equipa liderada pelo procurador Rosário Teixeira pediu elementos ao processo nascido em 2012 para investigar a Parque Escolar. A Polícia Judiciária enviou um quadro com a listagem de todos os contratos celebrados entre a Parque Escolar e as empresas a que Carlos Santos Silva estava ligado como o grupo Lena, a construtora Abrantina, a EFS, a Prospectiva e a Optimyzer.

Da informação contratual que tem por base as listagens fornecidas pela Parque Escolar, e que a VISÃO analisou, resulta que as empresas em que Carlos Santos Silva tinha interesses foram premiadas com 25 contratos de obras em escolas, através de concursos ajustes diretos e ajustes diretos simplificados. No total, o leque de empresas recebeu 148 milhões de euros.

À construtora Abrantina (comprada pelo grupo Lena em 2007) foram adjudicadas oito empreitadas em escolas de Lisboa, Guarda, Marinha Grande e Vila Viçosa, no total de 91,2 milhões de euros. A empresa Lena Engenharia e Construções liderou apenas a execução de obras de modernização de escolas com ensino secundário: apesar de ser só um contrato rendeu 31,1 milhões de euros. A MRG – Engenharia e Construção venceu também apenas um contrato, de 16,3 milhões de euros. O mesmo aconteceu com a EFS – Engenharia, Fiscalização e Serviços, só que por um montante muito mais reduzido: 192,7 mil euros.

A Optimyzer-otimização e revenda de soluções de engenharia – foi responsável por seis obras, no total de 181, 7 mil euros. Já a Prospectiva – projetos, serviços e estudos – ganhou oito concursos e ajustes diretos que, somados, resultaram em perto de 8,7 milhões de euros.

O Ministério Público suspeita que José Sócrates terá recebido milhões como contrapartida de decisões que, enquanto governante, terá tomado a favor de várias empresas.

A Parque Escolar foi criada para modernizar 332 escolas secundárias e terá custado, segundo um relatório do Tribunal de Contas, mais de 3,2 mil milhões de euros. Essa auditoria criticava o governo de Sócrates por nunca se terem estabelecido tectos máximos para o investimento e frisava que o parque escolar iria continuar envelhecido já que só se iria modernizar 70% do total das escolas secundárias e menos de metade das escolas no geral.