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Os peixes que valeram um prémio a um ilustrador português

Portugal

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José Caria

Pedro Salgado venceu o primeiro prémio internacional de Ilustraciência, com um trabalho sobre Garoupas do Mediterrâneo, atribuído pela Associação Catalã de Comunicação Científica. Quem é o ilustrador científico, que também desenhou exemplares da nossa costa e do Mediterrâneo para uma emissão de selos?

“Pode fazer um boneco para a fotografia?”, arriscamos, um pedido a que Pedro Salgado responde com um sorriso: “Cada bicho demora mais ou menos uma semana a fazer.” Falamos de alguém que gosta tanto de desenhar peixes – e de os revelar exatamente como eles são – que os procura no seu habitat natural.

“Mergulho desde miúdo”, confessa o autor, 56 anos, há trinta a fazer ilustração científica, uma descoberta dos tempos da faculdade, apesar de ter sido aos cinco anos (e isso está no seu currículo) que desenhou pela primeira vez uma criatura com barbatanas. Hoje, além destes trabalhos por encomenda – faz animais e outras representações da natureza para selos desde 1996 –, dá ainda aulas na Faculdade de Belas Artes.

O seu fascínio pelo mundo marinho e pela diversidade dos animais vertebrados (mais de 20 mil espécies) está espalhado por todos os lados naquele sótão povoado de mesas e estantes a que chama ateliê, dezenas de recortes e livros encavalitados nas prateleiras. Um imenso trabalho de paciência até chegarmos aos novíssimos selos acabados de chegar às suas mãos.

As garoupas do Mediterrâneo que deram o prémio a Pedro Salgado

As garoupas do Mediterrâneo que deram o prémio a Pedro Salgado

D.R.

São quatro selos soltos e um bloco filatélico, 40 por 30,6 milímetros os primeiros, 125 por 95 milímetros os segundos, de valor facial entre os 47 cêntimos e os 80 cêntimos cada, com o bloco a ascender aos 1,88 euros. Com tiragens entre os 40 mil e os 135 mil exemplares, o conjunto atende ao pedido feito pelos CTT – Correios de Portugal para serem peixes do Mediterrâneo, ao que o ilustrador deu um toque pessoal.

“Preferi espécies que também existem no Atlântico, nas nossas águas”, explica, antes de nos mostrar o preferido desta coleção: o tal de bonito, azul metalizado. No traço, tanto usa grafite sobre papel ou poliéster como lapiseiras e lápis de todas as cores. Só na parte mais escura é que recorre à tinta-da-china. Depois, reforça o branco com borracha-pão ou com guache branco.

Num ou outro caso, serve-se até de pó de maquilhagem. Seja qual for a técnica, as escamas são todas contadas, numa medição minuciosa, e as cores aferidas ao detalhe, até encontrar a tonalidade certa. Tudo somado, um conjunto destes pode demorar tanto a fazer como escrever um livro ou fabricar um carro. “Podia ser um biólogo naturalista do século XIX”, brinca, a elogiar a linha pioneira de Darwin, esse mesmo, autor da Teoria da Evolução das Espécies, momentos antes de confidenciar que ainda hoje se espanta sempre com o que descobre, debaixo de água e um pouco por toda a natureza. “E o passo seguinte é desenhar. Só o desenho permite ir mais longe no conhecimento.”

(artigo publicado na VISÃO de 14 de julho de 2016)