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“A temperatura dentro dos carros chegou aos 600 graus”

Portugal

LUCILIA MONTEIRO

Peritos de Medicina Legal têm horas muito duras pela frente. A identificação dos corpos vai exigir análises de ADN

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Os especialistas do Instituto de Medicina Legal chegaram ao terreno na madrugada da noite de sábado para domingo e encontraram um cenário dantesco - quer pela dimensão da tragédia quer pelas características dos danos. “A temperatura dentro dos carros chegou aos 600 graus”, contou à VISÃO Gonçalo Carnim, do Instituto de Medicina Legal de Coimbra, que fez parte do primeiro grupo de peritos a chegar.

Juntamente com a Polícia Judiciária, os patologistas começaram por identificar os corpos em termos de idade, sendo os ossos e em concreto as placas de crescimento (ou placas epifisárias) o elemento mais relevante nesta caracterização. Quanto mais novo é um indivíduo, menos desenvolvidos estão estes ossos. “Através da sua análise conseguimos agrupar as vítimas em categorias: crianças até aos 2/3 anos, crianças até aos 10 anos, dos 10 aos 18 anos e adultos”, explica. Entre as vítimas havia bebés, crianças, adultos e idosos. “Encontrámos corpos de todas as faixas etárias.” Análises mais precisas, só com a realização das autópsias, que deverão começar a ser feitas na segunda-feira.

O trabalho de identificação será uma tarefa complicada quer pelo facto de muitos corpos estarem carbonizados, quer por em alguns casos toda a família direta ter morrido. Há carros em que seguiam pai, mãe e filhos.

Os peritos tentarão agora extrair material genético dos ossos ou dentes, a parte do corpo que melhor resiste ao calor do fogo. Também será usado outro género de informação no processo de identificação, como as matrículas dos carros ou eventuais documentos que tenham sido encontrados junto aos corpos. Um trabalho de detetive, em que todos os dados são depois comparados com a lista de desaparecidos.

Poderá ainda ser analisado material genético de familiares dos desaparecidos para comparação do ADN. O osso do fémur, o mais revestido do corpo, é habitualmente o que permite extrair mais informação.

Reconhecendo que um cenário de incêndio apresenta um grau de dificuldade enorme, Gonçalo Carnim, que trabalhou em Espanha na identificação das vítimas do franquismo, sabe bem como a identificação de um familiar é importante para fechar um ciclo de luto e chorar a perda de quem se ama, num funeral. A equipa de Medicina Legal entra agora em ação, determinada a identificar todas as vítimas: "O fogo destrói muita coisa, mas não tudo.”