Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Major Mário Tomé desabafa sobre o 25 de novembro

Portugal

  • 333

Marcos Borga

Mário Tomé, um dos comandantes da Polícia Militar em novembro de 1975, reagiu a um artigo da Edição Especial de Aniversário da VISÃO, no qual se contavam as 24 horas alucinantes de Ramalho Eanes naquela data marcante da História de Portugal

Reagindo a um artigo sobre o papel de Ramalho Eanes no 25 de novembro, uma das histórias das série "24 horas alucinantes" de diversas personalidades portuguesas, integradas no número especial de aniversário da VISÃO, o major Mário Tomé, um dos comandantes da Polícia Militar em novembro de 1975 e, posteriormente, deputado eleito pela UDP, contesta, em termos vivos, a leitura oficial dos acontecimentos. Como sempre, a História, contada pelos vencedores, pode ter mais de que uma única versão. Republicamos o artigo sobre Eanes e a carta enviada por Mário Tomé. Comente e diga de sua justiça!

ALUCINAÇÕES

Mário Tomé

"No dia 25 de Novembro de 1975 os “moderados” (Grupo dos Nove e afectos) lançaram uma acção militar que provocou a morte de três militares no ataque à PM na manhã de 26 - dois comandos e o aspirante Albertino Bagagem.

Tal acção moderada era apoiada pelos bombistas do General Spínola e de Alpoím Calvão e quejandos.

Uma das estórias com que há 41 anos tentam esconder a tramóia que montaram durante seis meses, e se transformou no maior embuste da nossa história recente, contada pelo General Ramalho Eanes e citada pelo jornalista Filipe Luís que dela faz uma peça vivíssima, preenchida pelos momentos cheios de “adrenalina” daquele incontornável herói do 25 de Novembro. A estória, publicada no nº 1255 desta prestigiosa revista, intitula-se «O Dia Mais Longo do Processo Revolucionário» e surge integrada num conjunto de casos sob a sugestiva designação de «24 Horas Alucinantes».

O objectivo confesso do embuste foi expurgar o 25 de Abril da sua essência revolucionária ou seja acabar com única forma válida, no mundo moderno, de sustentar a credibilidade e a ética da democracia representativa: a participação popular, a vitalidade do espaço público.

Desde o verão quente de 75 que os “moderados” perceberam não ter pedalada para a luta política aberta e democrática e decidiram enveredar pela conspiração e pelo bombismo, forma escolhida pelo Conselho da Revolução para destruir a antena emissora da Rádio Renascença controlada pelos trabalhadores.

Seguiu-se o golpe militar apoiado por praticamente todas as unidades militares e, entusiasticamente, pela Força Aérea. Daí o “perigo” de guerra civil também não passar de uma estória do papão, apesar de armas distribuídas pelo PS e por alguns grupos guerrilheiristas ou fixados no cânone anti-fascista. A tropa estava já toda alinhada e as já muito poucas unidades ligadas ao movimento popular não jogavam esse jogo.

A esmagadora maioria dos revoltosos do 25 de Abril pensara-o como um 28 de Maio “democrático”. Mas esqueceu-se que, rompendo os nós que seguravam a sagrada hierarquia, o MFA só sobreviveria marchando ao som do Zeca Afonso e do Zé Mário Branco e do Fausto e do Sérgio Godinho e do Vitorino e do Pedro Barroso…, e não das marchas militares embora tenham posto a malta a trautear uma delas mas a pensar noutra coisa.

Os “moderados”, tendo sido incapazes de se impor durante o PREC, quer no areópago da representação quer na ágora do povo, sentem hoje uma pesada incomodidade: afinal, três mortos depois, mais o Padre Max e a Maria de Lurdes assassinados em pleno dia da promulgação da Constituição, esta emerge exactamente inspirada e marcada, na sua essência, pela mesmíssima Rua com que eles tentaram acabar a tiro.

Ninguém, informado e de boa mente , acredita ainda no embuste a não ser para não pôr em causa os alicerces do regime que abana a cauda aos Dijsselbloem que mandam na Europa, excepto ao próprio por ter exagerado na expressão.

Os factos estão aí, dispersos por milhares de notícias, por inúmeros relatos e declarações em que os próprios golpistas se dizem, entredizem e desdizem.

O próprio responsável político que não aparece na alucinação eanista, o coronel Vasco Lourenço “não sabe quantos 25 de Novembro houve”. Eu, por mim, sei que só houve um!

Finalmente: Que fizeram, afinal, os disciplinados e obedientes páras (11 de Março às ordens de Spínola, 7 de Novembro a destruir a antena da Rádio Renascença às ordens do AMI )? Ocuparam as bases da Força Aérea, sem um único tiro, sem beliscarem ninguém, num acto de insubordinação, nada mais, para sustentar a sua exigência exclusivamente castrense de travar as decisões imbecis do desastrado Chefe do Estado Maior da Força Aérea exigindo a sua demissão, com a esperança, que lhe terão assegurado fundada, de que seriam atendidos! O PCP que nos dias seguintes se pôs logo a atacar os militares revolucionários, deu o sinal, e os “Nove” estavam preparados mesmo sem sms . Melo Antunes apressou-se a caucionar o papel democrático do PCP, mas esqueceu-se das outras forças de esquerda. O regime retomava a senda da estabilidade posta em causa pelos excessos definidos pelo cânone da ala liberal do fascismo e do republicanismo do PS, socialismo na gaveta.

Por seu lado a “poderosa PM” às 08.10 de 26 de Novembro é atacada pelos comandos de Jaime Neves porque o Comando da PM assobiava para o lado quando, pelo telefone, alguns chefes golpistas lhe exigiam para se apresentar em Belém. Porquê? Porque sim! Não vamos, “estamos de prevenção rigorosa às ordens do Presidente e CEMGFA”, como aliás todas as unidades da Região Militar!

Entretanto a investigação interessada tem-se esquecido de perguntar qual era a forte (só podia!) guarnição empenhada na segurança do Presidente da República com a “poderosa” e insurrecta PM a 100 metros, Calçada da Ajuda acima. Ramalho Eanes responderá decerto que se esqueceu desse pormenor.

Conforme se sabe a “história” corrente é escrita pelos vencedores. Neste caso os vencedores decentes estão envergonhados – praticamente nunca comemoraram esse dia inicial da verdadeira democracia e metem os pés pelas mãos.

A história ainda não está escrita, embora haja quem a queira fixar. Mas não deixamos."