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"O direito à felicidade não pode depender da latitude e do regime político em que cada um nasce"

Portugal

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Mónica Ferro, nova diretora regional do Fundo das Nações Unidas para a População

Marcos Borga

Leia ou releia a entrevista a Mónica Ferro, nova diretora regional do Fundo das Nações Unidas para a População

Mónica Ferro costuma dizer que tem o coração azul. Por ser do Futebol Clube do Porto, símbolo da cidade onde nasceu há 44 anos, mas sobretudo por ser essa a cor da ONU. A partir de 1 de abril, vai cumprir um sonho e trabalhar na organização liderada por António Guterres. A professora de Relações Internacionais, antiga deputada do PSD e secretária de Estado da Defesa, não esconde o orgulho e a responsabilidade que sente por ir tutelar, em Genebra, o Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP). Admiradora de Maria de Lurdes Pintassilgo e Leonor Beleza, vai ter menos tempo para ler os seus autores preferidos – Vargas Llosa, García Márquez, Umberto Eco e Ian MacEwan. Em contrapartida, promete dar o seu “modesto contributo” para tornar o mundo melhor.

Qual o segredo para se chegar a um lugar de topo de uma organização internacional?

Há quase duas décadas que ensino matérias relacionadas com as Nações Unidas. Além do meu interesse académico, sempre achei que estudar e compreender uma matéria vale de muito pouco se não podermos ser ativos na defesa de certos ideais e valores. Trabalhar sobre temas de desenvolvimento e de população tem também subjacente uma agenda de direitos humanos – a eliminação da violência contra as mulheres e as raparigas, a emancipação dos jovens...

Como é que tomou conhecimento do concurso?

Soube que Alanna Armitage, a diretora do FNUAP em Genebra, iria abandonar o cargo e que seria aberto um concurso. Candidatei-me em outubro de 2016, com um sentimento de grande humildade. Conhecia o trabalho dela, veio a Portugal várias vezes e, para nós, deputados, sempre foi uma grande inspiração. Fez um trabalho extraordinário e imaginar-me no lugar dela era quase irrealista. 
E depois eu tive sempre a noção de que este tipo de funções em organismos internacionais pressupõe uma grande experiência. Muitos portugueses não se candidatam a estes lugares por isso.

Achava que por não ter experiência tinha poucas hipóteses?

Tenho pouca experiência de trabalho dentro de organismos internacionais e pensei que isso seria um grande obstáculo.

Quando é que começaram 
os testes para o cargo?

O prazo de candidatura encerrou a 24 de outubro – o dia das Nações Unidas – e eu achei logo que essa data só poderia ser auspiciosa para mim. Passadas poucas semanas fui informada de que fazia parte da lista de selecionados. A seguir, avisaram--me que iria passar para a fase das entrevistas. Primeiro com um painel do próprio FNUAP, depois uma fase de verificação de competências por uma empresa de recrutamento internacional que me fez testes psicotécnicos, testes de coerência linguística, testes de coerência lógica, simulações. Na primeira semana de dezembro fui também entrevistada pelo diretor executivo do FNUAP.

Quando é que soube que tinha sido escolhida?

No final de fevereiro.

E quantas vezes teve de deslocar-se a Genebra durante o processo de recrutamento?

Tudo foi feito a partir de Lisboa, através de plataformas digitais, por email e skype.

Até a entrevista com o diretor 
do FNUAP?

Sim, a conversa com o doutor Babatunde Osotimehin foi através de uma outra plataforma online, a BlueJeans.

Quais vão ser as suas funções 
em Genebra?

O FNUAP é um organismo criado no final dos anos 60 que tem por objetivo tratar especificamente os temas da população, com uma agenda muito centrada na construção de sociedades onde “todas as pessoas contam, onde todas as gravidezes são desejadas, todos os partos são seguros e o potencial de todos os jovens é realizado”...

Esse é o mote do FNUAP...

Sim. Como responsável pela delegação de Genebra terei de lidar com todos os Estados-membros que têm aí representação, com todas as outras agências e organismos do sistema das Nações Unidas, com outras organizações internacionais e sobretudo promover aquela que é a visão do FNUAP para a construção de um mundo mais digno. Não nos podemos esquecer que Genebra é um sítio especial. É a capital do mundo em matérias de direitos humanos, de saúde e de assistência humanitária.

A sua escolha teve algum apoio do Governo português?

A iniciativa é pessoal, mas o Governo foi informado do processo e fez depois uma carta de apoio à minha candidatura.

Qual a vantagem de termos mais uma emigrante num alto cargo internacional?

Ser portuguesa, neste cargo que vou ocupar, tem algumas vantagens. 
A lusofonia é um espaço de trabalho que as organizações internacionais reconhecem como cada vez mais importante e julgo que isso foi um ponto a meu favor. E a visão de Portugal nestas matérias é também muito importante. Temos uma grande experiência de trabalho com o FNUAP. O direito à felicidade não pode depender da latitude e do regime político em que cada um nasce. Temos de construir um patamar mínimo de dignidade para todos. Olhamos para o mundo e sabemos hoje como é que se pode salvar, por exemplo, a maior parte das mulheres que morrem devido a complicações relacionadas com a gravidez e o parto. E Portugal sabe como fazê-lo. Portugal consegue ser hoje um dos países do mundo onde é mais seguro para uma mulher estar grávida e dar à luz. E conseguimo-lo porque também tivemos apoio de organizações internacionais e do próprio FNUAP. Penso que Portugal tem a responsabilidade de estar presente neste combate.

Está a dizer que a saúde reprodutiva e sexual será uma das suas prioridades?

Sem dúvida nenhuma.

Um desafio tremendo se tivermos em conta que 35% das mulheres no mundo são ainda vítimas de violência física e sexual, mais de 32 milhões de meninas e raparigas não vão à escola e todos os dias quase 
40 mil adolescentes são obrigadas 
a casar contra a sua vontade...

O direito destas pessoas à felicidade obriga a que mantenhamos um combate incessante em prol da sua dignidade. Mas não basta olhar para as estatísticas. Sabemos que há 
200 milhões de vítimas do crime de mutilação genital feminina, que há 14 milhões de raparigas que todos os anos casam antes dos 18 anos. Sabemos quais os benefícios de trabalharmos sobre estes problemas. Sabemos muito bem qual o impacto de disponibilizarmos planeamento familiar, métodos e serviços contracetivos aos 225 milhões de mulheres que não os têm neste momento. E o que isso representa para o desenvolvimento global. São inúmeros problemas de saúde que podem ser evitados. Daí a aposta do FNUAP na juventude. É uma das áreas estruturais do nosso trabalho. 
A população jovem corresponde a cerca de um quarto da população mundial. Temos de olhar para eles não apenas como um grupo que tem muitas necessidades mas também para o seu enorme potencial. 
É um dividendo demográfico que tem de ser aproveitado para o desenvolvimento de vários países. No caso das raparigas, se lhes dermos a possibilidade de adiarem o casamento e a gravidez, permitindo-
-lhes completar ciclos de ensino mais longos, estamos realmente a libertar este potencial demográfico. Não temos desculpa para continuar a falhar a milhões de pessoas que continuam a não ter os seus direitos realizados. A possibilidade de trabalhar numa agência que corporiza este ideal enche-me de orgulho, de responsabilidade e faz-me sentir do tamanho de uma formiga.

Não receia ser absorvida pela máquina burocrática que está quase sempre associada à ONU?

Grande parte do trabalho é informar governos, organizações, parlamentos e os decisores sobre quais são os dados e quais os instrumentos à nossa disposição. O trabalho mais burocrático não me assusta. 
O importante é termos o exemplo das boas práticas. Em Genebra, uma das minhas responsabilidades é ao nível da tomada de decisão política. Quando era deputada uma das coisas que mais me preocupava era ver que as ONG's tinham muito boas ideias e olhavam para nós como parte do problema e não como parte da solução. As boas ideias só vão salvar vidas se forem traduzidas em políticas públicas – e se essas políticas públicas forem financiadas e levadas à prática. Portanto, em Genebra, sinto que terei a oportunidade de recolher algumas boas ideias e ajudar para que se traduzam em políticas públicas. 
E claro que se puder ir ao terreno para ver como tudo está a funcionar serei uma pessoa ainda mais feliz.

A administração Trump pretende cortar drasticamente o financiamento dos EUA à ONU. Não receia que muitos programas e agências como o FNUAP possam entrar em colapso?

Vivemos um momento de grandes desafios. Nos últimos 70 anos habituamo-nos à ideia de que a paz pelo direito e a cooperação através das organizações multilaterais era um dado adquirido. Quando olhamos para a política de alguns estados, vemos que os governos usam a questão do financiamento às Nações Unidas como uma forma de demonstrar o seu desagrado por processos que consideram ser demasiados burocráticos e pouco eficazes.

Mas permanece otimista quanto ao funcionamento do FNUAP face a eventuais cortes no financiamento?

Não acredito que os EUA façam uma redução drástica do seu financiamento à ONU. O que nós temos de fazer é mostrar aos governos e aos cidadãos do mundo o que vale o trabalho das Nações Unidas. António Guterres, quando tomou posse, dizia isso, a ONU tem de aprender a comunicar melhor, tem de saber explicar às pessoas para que serve e de que modo é que contribui diariamente para termos um mundo mais seguro, sustentável e digno.

Qual o impacto desta nomeação na sua vida familiar?

Acho que posso dizer que a minha família está orgulhosa, embora isto vá ser uma mudança radical. Antes de me candidatar falei com o meu marido e com as minhas duas filhas. Vou iniciar esta aventura sozinha mas, no final do ano letivo, estaremos novamente juntos para reconstituirmos o nosso lar em Genebra. Gosto muito de um provérbio africano – 'Se queres ir depressa vai sozinho, se queres ir longe vai acompanhado'. A minha família é a minha estabilidade – são eles a razão pela qual eu tenho energia e ânimo para fazer tudo o que faço.

É conhecida a sua faceta feminista. É por isso que já apelou às mulheres para que não aceitem flores e chocolates no Dia da Mulher?

Há todo um mundo de desafios que a 8 de março deve ser trazido para a mesa sob a forma de luta. Já houve algumas conquistas extraordinárias, mas não devemos deixar baixar os braços porque algumas delas estão constantemente ameaçadas. Isto não se trata de ver o feminismo como uma outra face do machismo. Uma feminista não é alguém que defende que as mulheres são superiores aos homens. Uma feminista é alguém que defende igualdade de oportunidades. A minha filha de seis anos, a Caetana, já aprendeu que há países onde as mulheres ainda não podem votar e ela acha que isso é inaceitável.

Alguma vez se sentiu discriminada por ser mulher?

Nunca me senti preterida na escolha para um emprego por ser mulher. Mas não tenho dúvidas de que no espaço político a discriminação ainda é persistente. E eu sei muito bem que estive no Parlamento porque há uma política de quotas. A prova disso é que os 33% para um dos géneros é sempre entendido como 33% para as mulheres. Nunca vi uma lista com 66% de mulheres e 33% de homens. No dia em que vir uma lista assim talvez acredite que a discriminação pode estar perto do fim.

(Entrevista publicada na VISÃo 1253, de 9 de março de 2017)