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Acusações à obra da CUF Descobertas marcam encontro da APA

Portugal

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Marcos Borga

A contaminação dos solos na obra de ampliação do Hospital da CUF Descobertas continua a dar que falar. Análises erradas, efeitos para a saúde e outros temas marcaram workshop da Agência do Ambiente sobre solos contaminados em Lisboa

Aquilo que era um workshop organizado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a associação ambiental Zero e a AEPSA (Associação de Empresas Portuguesas para o Sector do Ambiente para discutir a questão dos solos contaminados em Lisboa rapidamente se transformou num debate sobre o que se tem passado na obra de ampliação do Hospital da Cuf Descobertas.

E foi clara a divergência sobre a forma como a APA e as restantes entidades competentes têm acompanhado este processo. Desde logo as análises feitas previamente ao solo da obra. Se é verdade que a própria APA diz que as análises que recebeu inicialmente, e que a VISÃO sabe que foram feitas pela EdZ, de Edward Zungailia, não davam nota de níveis de perigosidade, Carlos Costa, da empresa de consultoria ambiental Egiamb garantiu para a audiência que as análises que estão na Câmara de Lisboa dão nota do contrário.

Um dos elementos que estava na sala explicou que muitas vezes quem recolhe as amostras não as envia logo para laboratório e elas perdem caraterísticas que permitem a sua avaliação correta. E pediu a intervenção da fiscalização e inspeção para que estas situações não aconteçam.

Também Rui Berkemeier, da associação Zero, diz que “o estudo prévio não avaliou corretamente o que estava lá. Apontava para 2 a 3 mil metros cúbicos de solos contaminados não perigosos. Mas afinal saíram pelo menos oficialmente 5 mil metros cúbicos perigosos”.

Durante o debate, uma moradora do Parque das Nações interviu, relatando a existência de “sintomas” nas pessoas que ali vivem e pedindo a intervenção das autoridades. Falou em irritações de garganta, dores de cabeça e garantiu que no Pingo Doce que existe ao lado desta obra “há trabalhadores de máscara”.

Berkemeier diz que “as pessoas nunca vão saber o que lhes aconteceu. Estiveram meses a inalar gases que não sabem o que tem e tiveram uma delegação de saúde a dizer que se sentissem cheiro fechassem as janelas”, denunciou.

É certo que a APA diz que já criou uma comissão técnica, com Câmara de Lisboa e entidades de saúde, com técnicos da APA especializados em solos, ar e resíduos, CCDR-Lisboa e Vale do Tejo e IGAMAOT (Inspeção do Ambiente) para tratar da questão da CUF e para obras adjacentes e evitar que volte a acontecer o mesmo.

Mas Berkemeier apontou divergências, lembrando que houve um comunicado da CCDR-LVT a pedir elementos à CUF e análises, quando já sabia que “o terreno já estava selado e esses dados já não existem”. Diz também que sabe que “as águas da zona da escavação foram drenadas para as águas fluviais”, com os perigos daí decorrentes.

Manuel Simões, da Ecodeal, um dos centros que pode receber resíduos perigosos, também falou sobre o assunto e perguntou: “espero que os responsáveis sabem onde estão os solos que saíram antes e onde foram depositados”. Isto porque um dos pontos que foi discutido neste workshop foi precisamente o “drama” que existe de resíduos que são depositados em pedreiras não licenciadas para as receber, com todos os riscos para a saúde que daí decorrem.

Durante o workshop ficou patente que há muitas dúvidas sobre a classificação dos solos em Portugal, que o seu encaminhamento nem sempre é feito de forma correta e que a legislação dispersa prejudica todo o processo. Mais uma vez houve um repto geral para que o Governo aprove rapidamente o pacote ProSolos, que se encontra ainda em reflexão ministerial.