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Cavaco diz que episódio das escutas foi "maquinação" de Sócrates

Portugal

O conflito institucional entre José Sócrates e Cavaco Silva começou com a polémica em torno do Estatuto dos Açores e, no ano seguinte, chegaria ao rubro, por causa das alegadas escutas em Belém

Luís Barra

Livro de Cavaco acusa Sócrates de não "olhar a meios" para vencer eleições em 2009 e diz que ex-primeiro-ministro usou "tom de vítima exaltada" quando falaram pela primeira vez das escutas.

Um capítulo inteiro é dedicado ao que Cavaco classifica de "intrigas políticas do verão de 2009", quando surgiram alegações de que a Presidência da República estivesse a ser vigiada pelo Governo de José Sócrates. No livro "Quinta-feira e outros dias", Cavaco Silva não poupa o ex-primeiro-ministro e acusa-o mesmo de, nessa altura, não ter olhado "a meios" para vencer as eleições de 2009.

No seu modo habitual de quem se habituou a "não ligar a televisão ou a rádio" em tempo de férias e que nesse verão no Algarve não tinha "quem" lhe "assinalasse previamente as partes dos jornais diários a que devia prestar alguma atenção", Cavaco diz que só deu conta "dos primeiros passos da intriga" que o visou nessa altura com algum "atraso" e que começou por lhes atribuir uma importância relativa: "delírio jornalístico ou intriga política entra por um ouvido e sai pelo outro sem merecer qualquer comentário", diz nas suas memórias.

Mas fica claro neste capítulo que o episódio marcou em definitivo o afastamento entre Cavaco e Sócrates. E embora a acusação nunca seja totalmente direta, o antigo Presidente deixa bem claro que atribui ao PS a responsabilidade por aquele episódio que envolveu a campanha eleitoral para as legislativas de 2009 e está convencido de que ele fez parte de uma "maquinação estival" para que Sócrates obtivesse a vitória. Um resultado, aliás, que Cavaco diz ter ficado convencido, na última reunião antes desse verão com o primeiro-ministro, que preocupava Sócrates: "Fiquei convencido de que o Primeiro-Ministro e o PS iriam fazer tudo, sem olhar a meios, para ganhar as eleições e para preservar a maioria absoluta no Parlamento. O controlo e a manipulação da comunicação social, de cuja fama não se livravam, e a pressão sobre os empresários - fragilizados pelo seu grau de endividamento -, seriam certamente armas que seriam utilizadas".

Vai mais longe e fala mesmo em "distribuição de benesses a grupos profissionais para 'comprar' votos, limitando as opções orçamentais do Governo seguinte".

Cavaco conta como passou aquele verão em família, entre um "jipe" de diplomas para promulgar que lhe chegavam todos os dias ao Algarve. Mas é quando recorda a última reunião a dois que teve com Sócrates antes das eleições, mais precisamente no dia 16 de setembro de 2009, a dez dias do ato eleitoral, que o antigo Presidente afina o tiro. "Quando me preparava para dar por finda a citada reunião, o primeiro-ministro abordou a questão das intrigas políticas (...) e lamentou que durante as férias eu não tivesse vindo desmentir a notícia do jornal Público (...) 'Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo Governo'. Disse que tinha sido negativo para a sua imagem e prejudicado a sua luta política. Em tom de vítima exaltada, colocou a questão de modo algo acusatório, insinuando que eu tinha querido prejudicá-lo eleitoralmente. Tendo ido nas suas afirmações, além do que dele esperava, respondi-lhe de forma muito firme, não deixando a mínima dúvida de que considerava que tinham sido setores do PS, o Governo e os seus agentes de comunicação que tinham montado, com objetivos eleitorais, as intrigas de verão envolvendo o meu nome".

Cavaco conta as explicações que deu a Sócrates, acusa dirigentes do PS e assume que esta foi "a reunião mais difícil" que teve com o então primeiro-ministro. "O diálogo chegou a azedar e, quando se exaltou ao ponto de subir o tom de voz, interrompi-o e chamei-o à ordem, dizendo-lhe que não estava a falar com membros do seu gabinete ou do seu Governo, mas sim com o Presidente da República e que, se não era capaz de manter a compustura, o melhor era dar por finda a audiência".

Sócrates e a intenção de controlar a TVI

Neste livro, que é apresentado esta quinta-feira no CCB, em Lisboa, Cavaco volta ao assunto num outro capítulo dedicado a Sócrates e à comunicação social. Lembra que em fevereiro de 2010, perante a divulgação de escutas telefónicas no âmbido do processo Face Oculta, que davam a entender a existência de um plano do primeiro-ministro para controlar a TVI, bem como DN e JN, Cavaco diz que Sócrates lhe negou essa informação e não conseguiu conter a "ira em relação a certos jornais". "Foi por esse motivo - e pelas informações que me chegavam de que o PM protestava violentamente junto dos jornalistas que sobre ele publicavam notívias negativas - que não descartei a possibilidade de ele pensar em formas de aumentar a sua influência sobre os meios de comunicação social".

Esta questão da TVI foi, recorde-se, alvo de uma comissão de inquérito no Parlamento português, para tentar provar que o primeiro-ministro sabia e teve intervenção na tentativa de compra por parte da PT desta estação de televisão.