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"Os refugiados precisam de uma casa, de um emprego e de um país em que possam ser úteis. Enviar coisas para a Grécia não resolve o problema"

Portugal

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Mariana Branco, Coordenadora de missão da Plataforma de Apoio aos Refugiados, em Lesbos, na Grécia

Leia ou releia a entrevista de à VISÃO de Mariana Branco, Coordenadora de missão da Plataforma de Apoio aos Refugiados, em Lesbos, na Grécia

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Em Portugal, Mariana Branco tem tudo: uma família, trabalho, amigos. Aos 30 anos, sente-se feliz, a todos os níveis. Mas desde cedo que se habituou a dividir o que tem a mais, participando em diversas missões de cooperação, que incluem uma experiência no Quénia. Economista, com especialidade em análise de investimentos sociais, está na ilha de Lesbos, na Grécia, desde novembro, como coordenadora de missão da Plataforma de Ajuda aos Refugiados, uma organização não governamental portuguesa presente em duas frentes: no campo de refugiados de Kara Tepe, onde estão 756 pessoas, e em Atenas, em que a base é um hotel alugado pela Cáritas para acolhimento. Os rigores do inverno obrigaram a medidas extremas, e pela primeira vez em vários meses houve mais pessoas a sair do campo do que a chegar. 
O seu trabalho, voluntário, é promover atividades dirigidas a crianças e adolescentes e a adultos em situação particular de vulnerabilidade. Sempre numa lógica de empoderamento. “Porque é preciso preparar as pessoas para a vida fora do campo. Não podem deixar de pensar no futuro”, diz.

Trabalha muito com crianças e jovens. Quais são as principais atividades?

Trabalhamos a criatividade, com jogos, artes plásticas e também estimulação cognitiva, através de exercícios de matemática e inglês. A nossa lógica de intervenção é estimular os miúdos e prepará-los para o futuro. Com os adolescentes, trabalhamos a autoestima, a imagem, as suas relações com a sociedade e também exploramos o voluntariado, analisando o que podem fazer pela comunidade.

Eles podem estudar aí?

Não podem. O Governo não autoriza, o que é uma grande frustração para eles. Muitos, principalmente os sírios, são jovens inteligentes e bem preparados. Ficam um ano, dois anos, sem estudar. Tenho aqui uma miúda que era a melhor da sua escola. Neste momento, tem 18 anos e há quatro que não estuda. O que nós fazemos é mostrar-lhes que podem fazer cursos, ler. Tentamos que aproveitem o tempo aqui para aprender. Este trabalho com os adolescentes é muito importante e necessário. Bem como o nosso trabalho de empoderamento comunitário. Há dias, falava com uma representante das Nações Unidas no campo e ela dizia-me que a lógica da ONU é precisamente esta: pôr as pessoas a ajudarem-se umas às outras, de forma a que resolvam os problemas como uma sociedade, em vez de ficarem à espera que as organizações os resolvam. É importante que se vejam como elementos ativos.

Outro pilar da intervenção 
são as mulheres.

Com as mulheres, o trabalho é particularmente importante. Muitas delas estão cá sozinhas. Vivem processos depressivos grandes. Ainda na semana passada, falava com uma que tem cá o marido – mas ele não tem pernas, tem só um braço, acabou por ficar com problemas com o álcool porque não consegue aceitar a sua situação, e têm sete filhos. Está completamente desesperada! Há uma tendência, quando estão todas juntas, de desanimarem e falarem dos aspetos negativos. Nós tentamos fazê-las pensar em coisas boas. Com música, trabalhos manuais, sem deixar de estar disponível para ouvi-las.
Mas deve ser difícil pensar positivo estando numa situação como esta: sete filhos, um marido sem pernas e um braço, a viver num campo de refugiados...
É muito difícil. Por isso é importante não as deixar cair numa espiral de onde seja difícil sair. Uma estratégia é dizer: “Vamos fazer uma coisa boa hoje, juntas, vamos libertar-nos um bocadinho disso.” É fundamental porque elas precisam de aguentar. Este é apenas um passo para o seu caminho. Nós aqui não temos recursos para um tratamento psicológico. O que tentamos fazer é dar-lhes ferramentas para aguentarem o resto do percurso. Vão ter de montar uma casa, encontrar emprego. E a forma como nós fazemos isso tem muito a ver com a maneira portuguesa de ser. Às vezes aqui não temos nome, somos Portugal. Temos uma capacidade de olhar para as pessoas como pessoas e desdobramo-nos além do planeado. E eles todos sentem isso, essa diferença. E dizem muitas vezes: “Queremos ir para Portugal.” Apesar de saberem que na Alemanha se paga mais.

Qual é essa marca portuguesa?

A nossa intervenção está alicerçada em três grandes pilares. O primeiro é o do amor – apesar de parecer piroso para quem está de fora, tenho de o dizer. Quem vem para cá vem mesmo embrenhada deste espírito. Em Portugal não me falta nada, tenho tudo, a todos os níveis. Eu vim para dar tudo o que tenho a mais. Damos amor e recebemos a triplicar. A segunda dimensão é o empoderamento. As pessoas estão aqui sem saber o que lhes vai acontecer. Os afegãos, por exemplo, não devem conseguir visto nunca. Não se concedem vistos a afegãos. Imaginemos o que seria da nossa vida se não tivéssemos nada para fazer durante o dia. Estão aqui pessoas que eram médicos, engenheiros, mecânicos, administrativos. As mulheres tinham muito trabalho doméstico, tratavam de famílias grandes, e aqui não têm nada para fazer. Por fim, há o apoio intracomunitário. Sabemos que quando as pessoas estão a passar por momentos complicados, ajudar os outros ajuda-as a pensar além do seu problema. Podemos dizer que o terceiro pilar será o de criar uma comunidade.

Como é a população do campo?

Quem chega à Europa é a classe alta e média. Aqui temos sobretudo famílias. Trabalhamos com as mais vulneráveis – por terem problemas de saúde, serem monoparentais ou muito grandes. É uma forma de estabelecer prioridades no atendimento. Muitas destas famílias já estão a fugir há muitos anos, o caminho é muito longo. A partir do acordo da Turquia com a Europa, tornou-se ainda mais difícil a entrada das pessoas na Europa. O sistema de admissão começou a ficar parado. Aqui temos pessoas há vários meses no campo, mas a fuga pode durar já vários anos. Estão à espera que lhes seja concedido o estatuto de refugiados. Não são migrantes porque não estão à procura de um emprego melhor. Estão é a fugir de guerras e conflitos. É uma zona cinzenta em termos de linguagem. Chamamos--lhe membros da comunidade ou residentes. É um caso atípico na ajuda humanitária termos pessoas de tantas nacionalidades no mesmo campo. Os afegãos falam a língua persa, não árabe. Sírios e afegãos não conseguem comunicar, por exemplo.

E há as diferenças religiosas. 
Como se gere tudo isso?

Criamos ambientes de descontração e interajuda, estimulamos a cooperação.

Só depois de concedido o estatuto de refugiado é que podem tentar ir viver para um dos países europeus de acolhimento?

Exato. Por isso é que é tão difícil para os afegãos, a quem não se concede este estatuto e têm de ser deportados para o seu país. Se continuam a argumentar que estão em risco de vida, ficam aqui. Mas não há resposta para estas pessoas. Estão presos num impasse. Há cá um miúdo do Afeganistão cuja mãe era dentista, e o pai, que era cirurgião, foi morto. Disseram-lhes que tinham poucos dias para sair do país. Este miúdo estudou numa boa escola inglesa, fazia equitação, taekwondo, tinha imensas expectativas de vida. E agora está aqui. A vida muda completamente. E eram pessoas com uma vida muito parecida com a que temos a nível europeu. Há pessoas que tentam suicidar-se porque não conseguem lidar com esta incerteza. Não sabem se vão ter de esperar um mês, um ano ou dez anos. E nós não temos resposta para lhes dar. Ninguém tem. É um falhanço redondo do modelo de acolhimento, do modelo europeu. Retermos estas pessoas aqui vai ter consequências para a Europa. Mas podemos minimizar estas consequências, os riscos, tirando o melhor partido das pessoas que cá estão.

E são pessoas que terão muito para dar aos países que as acolherem...

Sim. É impressionante! São pessoas muito educadas, sensíveis. E as crianças são muito maduras e solidárias. Atentas ao outro. Passaram por situações que não podemos imaginar e por isso têm uma grande capacidade de entender o estado de espírito de quem está à sua volta. Quando estou mais triste ou cansada, percebem imediatamente. Se for preciso, vão tentar arranjar dinheiro para me comprar bolachas ou um chocolate. Estes exemplos são diários. É impressionante! Quem tem menos é quem dá mais. Isso vê-se aqui, claramente.

E agora, com o inverno, o que tem sido feito?

Com o agravamento das condições climatéricas, há um esforço muito grande de realocar as pessoas, levá-las para sítios mais protegidos.
Mesmo assim, quem chega ao campo acaba por ser já um privilegiado.
Bem, aqui vivem em tendas e contentores. Têm aquecimento, comida. Estarão muito melhores do que quem está no campo de refugiados de Moria, em tendas de campo fininhas. Mas, dito isto, é preciso notar que as pessoas tomam banho de água fria, a comida é igual todos os dias. Em termos de saúde é complicado. Vem um psiquiatra à ilha de três em três meses. Conseguimos as condições mínimas e não temos mortes. Mas há situações muito complicadas. Há pessoas que têm ataques de pânico. Uma rapariga iraquiana com quem trabalhamos tem ataques sucessivos, chega a ter sete no mesmo dia. Este é um dos problemas de saúde mais reportados: pessoas com ataques de histeria constantes. 
Há fortes depressões.

O que é que a Europa, e Portugal, podia e não está a fazer?

Nesta crise está bem à vista o que se costuma dizer: a Europa é um gigante económico e um anão político. 
É preciso que haja vontade política. Portugal tem um papel, o de acolher. Compreendo que, quando alguém é confrontado com uma imagem com neve e uma criança exposta ao frio, o impulso seja mandar cobertores e alimentos para resolver aquela situação concreta. Mas a questão é que nós estamos cá para resolver isso. Os portugueses podem contribuir para que haja mais instituições anfitriãs no terreno. Recebemos sete mil cobertores em quatro dias. Neste momento, a grande questão é a distribuição de todo o material. Os portugueses podem é contribuir para evacuar as pessoas daqui. Esta ilha não consegue comportar mais gente. Não vale a pena enviarem material para cá. Arranjem forma de acolher pessoas. 
A Grécia não tem capacidade. 
Não podemos estar a enviar coisas...

Só para aliviar a consciência?

Pois. Eu compreendo, é natural. Estas pessoas precisam de uma casa, de um emprego e de um país em que possam ser úteis. Enviar coisas para cá não resolve o problema. Um refugiado, quando chega a um país, é das pessoas mais produtivas, porque se sente grato. Desperdiçar isso, reprimir, criar revolta e medo só agrava um problema internacional.

O que pode então fazer o cidadão?

Pode doar dinheiro à Plataforma de Ajuda aos Refugiados ou ajudar no acolhimento. O cidadão português tem um papel determinante na integração. É importante ter uma estratégia.

Mas a parte mais difícil é 
conseguir o estatuto de refugiado.

Sim. É entrar na Europa. Falta o modelo de acolhimento funcionar. Mas cada um de nós tem influência. E estamos a conseguir, diariamente. É um facto, cada vez que vamos ao campo as pessoas dizem-nos: obrigada, se não estivessem cá, 
hoje o meu dia tinha sido horrível.

O que foi mais difícil até agora?

Lidar com a injustiça. Criar relações com pessoas iguais a nós e dar-me conta da desigualdade. Eu tenho e elas não. Porquê?

(Artigo publicado na VISÃO 1248, de 9 de fevereiro, de 2017)