Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Estátuas, cabeças, nomes de ruas e a avenida que se abre para Soares

Portugal

  • 333

Numa entrevista à VISÃO, em 2006, quando se candidatava, pela 3.ª vez, à Presidência da República

Luís Vasconcelos

Ao contrário do que se pensa, em Santa Comba Dão, terra de Salazar, a memória nunca foi assunto pacífico. E chegou a ser “decapitada” à bomba. Agora, a liberdade e Mário Soares fizeram a unanimidade

Porta do Cemitério na Cerimónia de comemoração do nascimento de Oliveira Salazar em Santa Combadão - aniversário 28 de Abril

Porta do Cemitério na Cerimónia de comemoração do nascimento de Oliveira Salazar em Santa Combadão - aniversário 28 de Abril

DR

A Câmara Municipal de Santa Comba Dão aprovou por unanimidade um voto de pesar pela morte de Mário Soares.

Até aqui, nada de novo. Mas à boleia desta decisão, a autarquia garantiu também o voto histórico de todos os eleitos do município para dar seguimento à atribuição do nome do fundador do PS e ex-chefe de Estado a uma avenida no concelho. O socialista Leonel Gouveia que lidera o executivo camarário quase nem precisava de justificar os propósitos, mas fê-lo salientando o percurso do “combatente pela conquista da Liberdade e pela consolidação da Democracia”.

À primeira vista, a atribuição do nome de Soares a uma artéria no concelho onde nasceu Oliveira Salazar soa a ironia.

Mas menos do que se pensa.

Na verdade, o PS foi o partido que durante muitos anos dominou o poder no município e venceu mesmo as primeiras eleições autárquicas em 1976, em clima de grande efervescência. Mais do que a normalização do regime democrático é a memória do ditador – e do Estado Novo – que ainda hoje originam fissuras entre os seus conterrâneos.

O espólio e a estátua

Recentemente, e na sequência da sempre adiada constituição de um núcleo museológico alusivo a Salazar e à ditadura, a autarquia foi obrigada, por sentença lavrada no Tribunal de Viseu, a avaliar, em 60 dias, o espólio do antigo Presidente do Conselho entregue pelo sobrinho-neto Rui Salazar de Lucena e Mello entre 2007 e 2009. Até agora, o conjunto de documentos e objetos esteve a marinar na autarquia, que alegou dificuldades várias para acelerar o processo, entre as quais a de encontrar pessoal habilitado a fazer a avaliação dos materiais entregues. O prazo para determinar o conteúdo das caixas e a sua relevância histórica terminará em breve, findo o qual o município terá de estabelecer uma compensação mensal ao doador. O descendente de Salazar pretende receber uma pensão de 1000 euros até ao final da vida. O tio-avô, esse, está enterrado no cemitério do Vimieiro, no concelho.

Nem os apaniguados de Salazar conseguiram fazer milagres pela perpetuação da memória do ditador na sua terra. Em fevereiro de 1978, a tentativa de repor uma nova cabeça da estátua de Salazar em Santa Comba Dão – parcialmente destruída nos tempos de brasa de 1975 – desafiou ordens de vários ministérios e resultou em violentos confrontos entre defensores da manutenção da escultura e os detratores da mesma. Houve sinos tocados a rebate, barricadas, manifestações, sirenes de polícia e ambulâncias. Hermínia de Figueiredo, uma mulher que se encontrava à varanda de casa a assistir à refrega, morreu atingida por balas da GNR, enquanto 18 pessoas ficaram feridas. Na altura, a câmara socialista deliberara pela remoção da estátua, mas a assembleia municipal decidiu em sentido contrário. Dias depois, a escultura foi destruída à bomba e vários deputados municipais demitiram-se.

Com o tempo, a democracia colocou estes assuntos nos trilhos.

Todos? Não. Em Santa Comba Dão, é certo, vai agora abrir-se uma avenida unânime para Mário Soares e por cima dos estilhaços de uma época.

Mas a 175 quilómetros de distância, em Rio Maior, terra que muitos consideram determinante para a viragem do processo revolucionário ocorrida a 25 de Novembro de 1975, continua por cumprir uma decisão da assembleia municipal tomada há quase doze anos: atribuir os nomes de Álvaro Cunhal e José Saramago a duas ruas do concelho.

  • Edição especial da VISÃO História sobre Mário Soares

    Visão História

    Está nas bancas um número extra no qual se recorda a vida de uma figura ímpar da história contemporânea de Portugal. António Arnaut, Francisco Seixas da Costa e José Manuel dos Santos são algumas das personalidades que relembram, em artigos inéditos, Mário Soares, numa edição que conta também com um texto de Diogo Freitas do Amaral

  • Isto não é um obituário

    Em sincronização

    …É um agradecimento. Em nome de uma geração que, como eu, nasceu em liberdade. A liberdade em nome da qual, toda a vida, Soares lutou e à qual serviu, com todos os músculos do seu corpo, a começar pelo coração

  • Um “rei” no seu palácio

    Portugal

    A década de Mário Soares em Belém muda a face do palácio cor-de-rosa. Aberto ao povo e aos eventos mundanos, já não é apenas o centro da política… mas da sociedade também