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Como Soares via a vida, a morte e o juízo da História

Portugal

A última aparição pública de Mário Soares, em setembro, para a homenagem a Maria Barroso

PAULO PETRONILHO

Mário Soares deixou-nos, em devido tempo, as suas opiniões sobre a existência, a morte e a forma como vê o seu lugar na História. A VISÃO recorda dez reflexões do antigo Presidente da República que definem o seu perfil mais intimista

Desaparecido aos 92 anos, o fundador do PS passou as últimas semanas de existência a lutar pela vida com as mesmas ganas com que a atravessou. Em 1996, Soares garantiu nunca se ter desencantado nem deprimido com as opções e o rumo da sua existência. Disse-o em devido tempo, e com plena consciência, ao fazer o balanço do seu percurso pessoal e político. A partir dessas leituras, a VISÃO selecionou dez reflexões do antigo chefe de Governo para ajudar a redescobrir os traços mais intimistas da sua personalidade, as suas memórias mais afetivas, o seu gosto pelos prazeres da vida e a forma como fez o seu caminho. As dúvidas sobre a Fé e sobre a Morte também têm aqui lugar. E não falta o que ele antecipara, sem perder o humor, sobre o juízo da História e o seu obituário. Quatro linhas?! Olhe que não, doutor Soares, olhe que não...

INFÂNCIA

“O meu pai tinha o hábito de inventar nomes carinhosos e alcunhas (...) Chamava-me Gigi, outras vezes tratava-me por Licas. Mais tarde comecei a chamar «Liquinhas» aos meus filhos e depois, por graça, também aos meus netos (...) Não somente sou batizado pela Igreja Católica, como sou afilhado da Nossa Senhora da Conceição por voto expresso da minha madrinha e tia Júlia, irmã de meu pai”.

MULHERES

“Lembro-me que, uma vez, ainda vivia na casa da Rua Gomes Freire, teria, talvez, seis anos, fiquei estranhamente seduzido pelas pernas de uma garota de doze ou treze, filha da nossa mulher-a-dias. Comecei subitamente a acariciar-lhe as pernas e levei logo uma bofetada. Foi, que me recorde, a primeira manifestação de um interesse que, mais tarde, se manifestaria com força. Sempre fui particularmente sensível aos encantos femininos: as pernas, os cabelos, a voz, os olhos. Às vezes, quando estava já metido na política, num elétrico ou num cinema, via uma mulher que me agradava e perguntava a mim próprio: que ando eu a fazer nesta vida, a tentar salvar o mundo, desperdiçando oportunidades tão mais interessantes? (...)”

PRIVILEGIADO

“Fui um privilegiado – mas com consciência de o ser! Não me recordo de alguma vez ter pedido dinheiro aos meus pais, tinha um automóvel à minha disposição – naquele tempo, uma coisa fabulosa! Comprava os livros que queria, ia ao cinema quando me apetecia, almoçava ou jantava fora de casa (...)”

PAI

“Não sou, no sentido clássico, patriarcal, o chamado «homem de família». Mas sou – e fui – um pai afetuoso, atento, a meu modo, embora muitas vezes distante, pela força das circunstâncias. A minha presença junto dos meus netos tem sido mais constante e com menos sobressaltos (...)”

APETITE

“Sempre tive esse grande apetite pela vida e pelas maravilhosas surpresas que encerra e uma grande alegria de viver. Às vezes, a luminosidade de certas tardes em Lisboa, uma árvore em flor, como esses belos jacarandás do Parque Eduardo VII, um quadro, uma pessoa que observo e que, por qualquer razão, me desperta a atenção, bastam-me para me reconciliar com a vida e abrir diante de mim novos horizontes de esperança...”.

“A fé é uma graça divina – dizem os católicos – que não me foi, até hoje, concedida. Mas o mistério da fé – como o da morte – perturbam-me e comovem-me. Ainda que sejam exteriores à minha estrutura mental, de racionalista e agnóstico assumido”.

MORTE

“É uma ideia, até hoje, desagradável, que procuro afastar – no que me respeita – bem como em relação aos seres que me são próximos ou aos quais quero bem. Em abstrato, a morte afigura-se-me tão natural como a vida. É o seu contraponto necessário. Mas como aceitá-la, em concreto? Definitiva e irremediável?! E, no entanto, vai sendo tempo de começar a pensar nisso (...)”

PAPEL

“A História – como ensinava Braudel – por mais objetiva, é sempre produto de circunstâncias, as quais influenciam os pontos de vista dos que a escrevem. Haverá momentos, quando se falar em liberdade e quando se valorizar esse bem inestimável, em que os historiadores talvez sejam levados a considerar que desempenhei algum papel na vida política portuguesa dos últimos anos (...) A História tem uma enorme capacidade de digestão de acontecimentos e de pessoas e, um dia, pronunciar-se-á (...)”.

HISTÓRIA

“Nunca me tomei excessivamente a sério (...) Só o suficiente, desde que não fosse incompatível com o sentido de humor. De resto, não estou muito preocupado com o juízo da História (...) Dirá: um político que exerceu determinadas funções ou que contribuiu para isto ou para aquilo. Talvez...Quatro linhas, não mais...Quanto ao resto, o sonho, as ambições, a vivência, os afetos, as aversões, as empatias, tudo aquilo que pulsou como sangue e nervos, o que me interessou e vivi e terá dado consistência ao homem real que fui, tudo isso desaparecerá na bruma do tempo...Com a passagem de uma ou duas gerações...É a lei inexorável da vida e da condição humana!”

REALIZADO

“(...) Que gostaria eu que a História registasse nas, necessariamente, poucas linhas que porventura me dedicará? Que fui um resistente, sem falhas, contra a Ditadura, durante mais de trinta e dois anos. Que me bati pela liberdade depois do 25 de Abril, com idêntica determinação à que tivera antes. Que exerci diversas funções públicas – Ministro, Deputado, Primeiro-Ministro e Presidente da República – com civismo e na fidelidade das minhas convicções. Que fui líder de um grande e generoso Partido, que ajudei a fundar; e Vice-Presidente da Internacional Socialista, ao serviço da qual realizei diversas missões com alguma importância, em várias partes do Mundo. Cometi, decerto, erros por ação e omissão, faltas, injustiças, mas sempre com reta intenção ou por inadvertência. Procurei ser isento, tolerante, compreensivo, aberto, relativamente às opiniões contrárias. Tive uma ideia para Portugal que procurei realizar (...) Continuo curioso e enamorado da vida, das pessoas, das situações, como nos meus primeiros tempos de rapaz consciente (...) Continuo a ser capaz de entusiasmos, de interesses novos e súbitos, de cóleras, de paixões. Agradeço à vida – e, porventura, aos genes de que fui herdeiro – nunca, ao longo dos anos, me ter aborrecido, desanimado, ficado deprimido, entrado em stress. Não tenho nenhuma razão para me queixar, bem pelo contrário. Recebi muito mais da vida do que, pobre de mim, lhe terei dado. Devo tudo quanto sou aos outros! Não tenho contas a ajustar com ninguém. Estou sereno, confiante, realizado, feliz. Ámen!”.

Fontes: Soares: Ditadura e Revolução; Democracia; Presidente (Círculo de Leitores, 1996)