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Chefe dos Comandos não viu nada de errado na 'prova de choque' que levou à morte dos dois instruendos

Portugal

Gonçalo Rosa da Silva / Arquivo VISÃO

O alerta estava dado: 4 de setembro ia ser um dos dias mais quentes deste ano. Era também o dia do início da duríssima "Prova Zero" do 127.º Curso de Comandos, data que o comandante do Regimento, coronel Dores Moreira, decidiu não alterar. "A prova podia realizar-se", disse à procuradora Cândida Vilar, que investiga as mortes dos instruendos Hugo Abreu e Dylan da Silva, que não resistiram aos "golpes de calor" que sofreram

Na tarde de 18 de outubro último, o comandante do Regimento de Comandos, coronel Dores Moreira, continuava a mostrar-se um defensor intransigente da "Prova de Choque", agora designada "Prova Zero", em que, logo no primeiro dia da instrução de cada curso, os formandos são sujeitos a um enorme esforço físico. O oficial estava a ser interrogado como testemunha, nas instalações da Polícia Judiciária Militar, pela procuradora Cândida Vilar, que dirige o inquérito-crime às mortes dos instruendos Hugo Abreu e Dylan da Silva, ambos de 20 anos, na sequência de "golpes de calor" que sofreram na "Prova Zero" do 127.º Curso de Comandos, a 4 de setembro passado.

No conjunto do seu depoimento, que a VISÃO consultou, o comandante do Regimento de Comandos não admite que algo de errado ali tenha acontecido - a começar pela sua própria decisão de não alterar a data do início daquela "Prova Zero", apesar do alerta de que 4 de setembro ia ser um dos dias mais quentes deste ano. "Face a uma temperatura mais elevada, a prova pode realizar-se, sendo adaptada às novas condições", disse Dores Moreira à procuradora Cândida Vilar. O coronel acrescentou, aliás, que entre junho de 2005 e fevereiro de 2006 esteve numa missão no Afeganistão, com temperaturas de 45 graus positivos a 17 negativos, e "as missões eram executadas na mesma".

"A 'Prova Zero' visa criar condições para que o instruendo sinta que tem muito para aprender, do ponto de vista físico e psicológico", insistiu Dores Moreira. O nível de esforço físico imposto "é elevado", mas "traduz uma exigência decorrente dos objetivos que se pretendem alcançar".

Sobre a sua intervenção em concreto na instrução em causa, o coronel disse ter falado pelas 14 e 30 de 4 de setembro com o tenente-coronel Maia (diretor do curso e um dos militares que haveria de ser constituído arguido), o qual lhe comunicou que o treino, no Campo de Tiro de Alcochete, "estava a decorrer conforme o planeado", mas que "o calor já se fazia sentir". Dores Moreira diz ter então sugerido que no dia seguinte (5 de setembro) "a instrução fosse iniciada mais cedo" e que "no período mais quente passaria das 14h00 para as 16h00".

O comandante afirmou à procuradora não ter sido informado do internamento de dois instruendos (Hugo Abreu e Dylan da Silva) na enfermaria desde as 12h00 de 4 de setembro. A situação, lê-se no seu depoimento, apenas lhe foi comunicada pelas 18 e 30 daquele dia, quando voltou a falar com o tenente-coronel Maia, o qual passou o telefone ao capitão médico Miguel Domingues (também posteriormente constituído arguido), que disse a Dores Moreira que o quadro clínico de dois instruendos não estava a evoluir e que era necessário proceder à sua evacuação, o que o comandante ordenou que fosse feito.

Mas só três horas depois, pelas 21 e 30, Dores Moreira deslocou-se ao Campo de Tiro de Alcochete. Nessa altura, já Hugo Abreu se encontrava cadáver numa tenda separada - sucumbiu a uma paragem cardiorrespiratória. Quanto a Dylan da Silva, estava numa ambulância do INEM para ser transportado para o Hospital do Barreiro. Viria a falecer seis dias depois, a 10 de setembro, no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, enquanto aguardava um transplante hepático.

Sobre as numerosas horas em que Hugo Abreu e Dylan da Silva permaneceram na enfermaria do Campo de Tiro de Alcochete, sem que fossem evacuados para tratamento hospitalar, Dores Moreira nada disse. Apenas informou que a capacidade do posto de socorros é de 12 militares - quando lá foram internados em estado de exaustão, nos dias 4 e 5 de setembro, pelo menos 25 recrutas do 127.º curso.

Também deu como boa a informação que recebeu segundo a qual todos os formandos beberam mais água do que o mínimo preconizado - cinco cantis, correspondentes a cinco litros de água por cada instruendo. Mas um relatório médico feito depois, e incluído nos autos do processo, conclui que todos os formandos internados na enfermaria "apresentavam sinais de exaustão e rabdiomiólise - destruição dos tecidos musculares -, sendo que a desidratação, associada à destruição dos tecidos, conduz à libertação de mioglobina, provocando insuficiência renal".

O certo é que o relatório da Inspeção Técnica Extraordinária ao Curso de Comandos, divulgado pelo Exército no final da semana passada, menciona diversas falhas, das "provas de classificação e seleção" ao "sistema clínico de apoio". Por isso, o Chefe do Estado-Maior, general Rovisco Duarte, mantém cancelados os próximos cursos de Comandos, pelo menos até final de janeiro de 2017.