Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Morreu Miguel Veiga, histórico do PSD que era "como os gatos"

Portugal

Pedro Letria / Arquivo VISÃO

O advogado e fundador do PSD morreu esta segunda-feira, aos 80 anos, no Porto. Recorde aqui a longa entrevista de vida que deu à VISÃO, há dez anos, em que dizia que era "como os gatos": Indomesticável

O advogado e fundador do PSD Miguel Veiga morreu hoje, cerca das 12:30, aos 80 anos, no Porto. O corpo de Miguel Veiga vai estar no Palácio dos Viscondes Balsemão, na Praça Carlos Alberto, no centro do Porto.

Miguel Veiga nasceu no Porto tendo sido, ao lado de Francisco Sá Carneiro e Pinto Balsemão, um dos fundadores do Partido Popular Democrático, hoje PSD, em 1974.

Em Julho de 2006, por altura do seu 70º aniversário concedeu uma longa entrevista de vida à VISÃO, que hoje republicamos na íntegra:

"Sou como os gatos"

São 70 anos ainda gulosos pela vida. Humorados, feitos de carácter, referências fortes e três grandes fidelidades: a amizade, as mulheres e os livros. Miguel Veiga, ei-lo. Indomesticável

Loivo, Lugar do Calvário, Cerveira. O homem que tem no olhar a luz da Foz do Porto, embeiça-se aos 70 anos por esta paisagem deslumbrante, onde o rio Minho, lá ao fundo, faz a curva na ilhota como mãos marinheiras na anca de uma mulher. Miguel Veiga, advogado, fundador do PPD-PSD com Sá Carneiro, chamou Casa das Nuvens a este refúgio. «Porque, às vezes, ao fim da tarde, aqueles flocos de céu pairam sobre o rio.» Na casa moram também os amigos, a quem dedicou recantos do novo território de afectos. Onde moram pinturas, fotografias, poemas, esculturas, livros.

E alguns exercícios humorados a forrarem a intimidade.

O cão que tem na coleira a inscrição «chamo-me Timmy e Miguel Veiga pertenceme » deita-se, por momentos, aos seus pés.

Ele mira a Anja dourada que José Rodrigues esculpiu e serviu ao olhar «com asas à flor da pele» e abundantes formas. Fuma cigarros de mentol, um atrás do outro. Bebe sangria, bebida que adora. Está uma manhã de domingo em brasa. A conversa, também permeável a outros calores, faz-se espreguiçada como um gato.

VISÃO: Esta casa é o descanso do guerreiro?

MIGUEL VEIGA: Não. Continuo combatente. O campo foi, durante muito tempo, uma distracção esporádica e transitória, «um legume santifi cado», como dizia o Baudelaire. O escultor e meu amigo José Rodrigues, que me queria perto dele, falou-me disto. E apaixonei-me por este enquadramento, a vista sobre o rio, estes cheiros e águas. A verdade do desejo é a única que não mente.

Quem o conhece, não imaginaria.

O grande desejo de minha mulher, minha senhora de mim, era ter uma casa no campo. Para as casas que lhe agradavam ela pedia a minha cumplicidade. E a bolsa, claro! [risos] Recusei sempre. Por outro lado, adoro bons hotéis. Nos momentos de lazer sou homem de grandes preguiças e o hotel fornece tudo. Mas apareceu esta casa.

Era capaz de viver num hotel?

Sobretudo num bar de um hotel. Gosto de escrever, de pensar, sonhar, encontrar pessoas. Os bares dos hotéis são uma espécie de carrefour, um cruzamento. Algumas das conversas mais interessantes com escritores, pintores e mulheres lindíssimas tive-as em bares de hotéis.

Na escolha da casa pesou a costela rural do seu pai?

Não. A costela beirã do meu pai pesa no carácter. O beirão é um sujeito de grande dignidade, rectidão, compostura e de uma certa agressividade civilizada. O meu pai fez a sua vida toda no Porto, mas foi sempre um cosmopolita e um esteta. Tanto assim que casou com uma parisiense. Sou um produto, avant la lettre, da comunidade europeia.

Diz que os seus pais eram «jovens e solares».

Um belíssimo casal. A minha mãe, elegante, nascida em Paris, de ascendência cossaca. O meu pai, muito bem apessoado, com um cuidado nos gestos e comportamentos.

O filho tem a quem sair...

Em relação aos meus pais, sou um subproduto, um refugo.

Como é que se conheceram?

Nos anos 20, aos vinte anos, o meu pai começou a advogar com sucesso no Porto. Comprou um Opel lindíssimo, cor de sangue de boi, décapotable. Abria a capota e ia para o Sul de França, para a zona de Cannes. Instalava-se na praia mais chique, Juan-les-Pains, e aí conheceu a minha mãe, que passava férias com a família. Ela era aluna na Sorbonne, quase a licenciar-se em Filosofia. Tomaram-se de amores. Casaram em Paris e vieram para o Porto. Mas foi um problema. Para a família da minha mãe, Portugal quase não existia e tinham dúvidas sobre esse Luís Veiga de carro aberto e que se dizia advogado. Ainda tenho os pedidos da minha avó aos seus amigos embaixadores para darem informações sobre o meu pai. Do lado beirão, era um susto. Parisiense, para eles, era só folies bergère.

A sua mãe adaptou-se bem?

Ela adorava Portugal. O meu pai também, mas era avesso ao regime, às mentalidades, ao mau gosto inato dos portugueses. A maior parte das vezes a minha mãe falava para o meu pai em português e ele respondia em francês [risos]. Viajavam muito . O meu pai trazia imensos livros. Gostava de Paris, o que me transmitiu, como quem gosta de uma mulher.

Foi uma criança feliz?

Se há paraíso, a minha infância e a minha juventude foram um paraíso. Devo-o aos meus pais. Continuo a trazer a infância pela mão. Sou um menino velho. Muito mimado.

Defeito ou virtude?

Sobrevivência. As pessoas dão-me mimos e eu ponho-me a jeito. Peço. Sou como os gatos, gosto que me façam festas. Não tenho o mínimo pudor nem constrição em afirmá-lo. Há tipos que sentem que isso lhes ataca a masculinidade ou a virilidade. Não acho nada! O mimo é a melhor temperatura do mundo.

Mimado desde a infância, portanto?

Sim e não. O filho único tem estatuto especial, mas uma parte de solidão. Embora cheio de amigos, brinquei muito sozinho, não tinha cúmplices nas asneiras. Vivia num meio de filhos de família abonadas, na Foz, que tinham carro, lambreta, etc, e os meus pais estavam atentos a isso. Fui sempre bom aluno. E um dia cheguei à idade do armário. Os meus pais meteram-me num colégio inglês, perto de Brighton, para saber tomar conta de mim, um ano a aprender as regras do civismo. Ali fui desflorado.

Com que idade?

Treze anos. Duas meninas inglesas, de olhos azuis e cabelo aos caracolinhos encostaram-me a uma sebe e desfloraram-me. Foi o único galardão que trouxe do colégio. Não estudava puto.

Praticou desporto...

Fui campeão de ténis infantil, campeão regional de natação. Praticava hipismo e jogava futebol. Ainda hoje, adoro um bom jogo de futebol.

Então vê outros jogos que não os do Sporting...

Tenho de ter uma dose de sofrimento na vida. E o Sporting tem-mo dado. Generosa e prodigamente [risos].

Quem é então o Miguel Veiga que vai para Coimbra?

O que já estava consagrado ao seu destino mais íntimo: a paixão. Aos 16 anos, apaixonei-me pela primeira vez por uma mulher. Foi a débacle total. Nesta altura de paixões arrebatadoras, confusas e desatinadas inspirava-me nos grandes poemas amorosos. Pedia-os emprestados.

Assinava por baixo?

Não. Fazia assim: «Como alguém dizia e eu próprio também digo» e ia tudo a eito. Interessava o efeito [risos]! Era e sou um ultra-romântico, muito táctil. As minhas papilas gustativas estão aqui [aponta para os dedos]. Não era pelos amores etéreos, Tristão e Isolda, essas coisas. Os corpos são fundamentais. O corpo da mulher é, para mim, mais do que uma atracção, um mistério não resolvido.

É a sua outra geografia, não?

É o território onde um homem se perde, mas sempre se salva. É dos raros momentos em que tocamos nos deuses.

Diz-lhes isso?

Ai digo, digo. Os homens, mesmo os meus amigos, passado algum tempo, aborrecem-me. Não me excluo. Nós somos uns chatos, não temos grande graça.

Os amigos sentem ciúmes dessa relação com as mulheres?

Não. A amizade é o lugar da terra onde mais gosto de viver. São os meus amigos que me têm feito. Era amigo do José Cardoso Pires. E o António Lobo Antunes, que só me conhecia através do que o Zé lhe falava, escreveu-me isto, numa carta: «As três coisas mais importantes na vida são a amizade, as mulheres e os livros. Tudo o resto é vão e acessório». Em mim, isto é autobiográfico.

Ainda troca cartas...

Sim. A última que recebi foi do Eduardo Lourenço. O José da Cruz Santos escreve-me todos os dias pequenos postais deliciosos. Eu também escrevo, compro coisas, telefono-lhes se estou a comer algo de que eles gostam.

Manda gravatas de seda em embalagens requintadas...

Noutro dia, como sabia que o Eduardo Lourenço estava deprimido, mandei-lhe uma gravata solar, amarela. E disse-lhe: «Você precisa desta gravata para deixar de pôr essas de funcionário, de luto aliviado com que anda». Ele escreveu-me na volta: «Você trouxe-me o sol».

Houve quem pensasse que, aos 70 anos, você estaria com uma grande neura...

Nunca tive uma neura. Momentos de amargura, tristeza e sofrimento, sim. E lambo sempre as feridas sozinho. Quando estou doente, fecho-me no quarto. A Belicha vai lá ver se eu morri, se já pode ser viúva alegre, enfim, essas coisas da cartilha das pessoas bem formadas [risos]. Agora a sério: tinha conversas infindas com o Francisco Sá-Carneiro sobre isto. E ele dizia: a ética é uma estética. E há também uma estética no sofrimento.

Voltemos a Coimbra, onde chega com 18 anos...

Era uma pasmaceira. Pertencia ao único grupo que tinha rapazes e raparigas. E fundei a república Os Gansos.

Manuel Alegre diz que viu em si o primeiro social-democrata de carne e osso...

O primeiro e o único! [risos]. Mas há outra coisa que temos em comum.

Para além do culto das mulheres e da poesia?

Sim. Recusamo-nos a ter mais de 20 anos.

Integrou uma lista que quase ganhou a Associação Académica.

Sim, no fi nal dos anos 50. Perdemos, mas demos origem a grandes movimentos estudantis de oposição.

Assinou um manifesto a pedir a demissão de Salazar.

Eu e mais uns quatrocentos. Fiquei entre a Isabel do Carmo e o Jorge Araújo, do PCP. Dizíamos: nós, os abaixo-assinados, vimos pedir, por ocasião do seu 70.º aniversário, a sua imediata demissão a bem da pacifi cação da família portuguesa! [risos].

Isso teve consequências?

Não me deram nota para ir para o Instituto Jurídico considerando e bem! que, como andava metido nas políticas, nas literaturas e com o mulherio, não ia lá fazer nada. Mais tarde, vedaram-me a admissão ao concurso para uma das quatro cadeiras de Direito da Faculdade de Economia do Porto. O processo foi enviado para o Conselho de Ministros e excluíram-me. Tentou-se resolver o assunto. Mas a contrapartida era nunca mais dizer uma palavra contra o regime. Mandei-os à puta que os pariu! O meu pai esteve quase para me dar duas chapadas e obrigou-me a pedir desculpa. No meu processo na Torre do Tombo, lá estava um pedido de informações do Conselho de Ministros. A PIDE dizia: «O supracitado indivíduo tem bom comportamento moral. Mas não oferece as mínimas condições para colaborar na realização dos fi ns superiores do Estado». Como é que um ganapo como eu, de 22 anos, ia colaborar na realização dos fins superiores do Estado?!

A advocacia foi escolha sua?

Sim. No início não correu bem. Dava-me a outras vidas, ao teatro, sobretudo bastidores [risos]. Esteve cá uma companhia brasileira com uma revista, Fogo no Pandeiro. Andava sempre com as brasileiras, corri o País. Deitava-me às seis, sete da manhã. Um dia, o meu pai disse-me: «Não tenho nada a ver com a vida que tu levas, a vida é tua. Mas advogar assim, não. O melhor é pensares noutra ocupação.» Percebi e passei a sair só às sextas e sábados.

Qual é hoje a sua relação com a advocacia?

A família do Direito mudou. A comunidade era mais reduzida, as regras deontológicas, da lealdade e da franqueza eram outras. Depois vieram estes hipermercados do ensino que criaram licenciados em Direito. Mas a nova geração considera-me ainda uma referência.

Qual é a receita para continuar tão guloso pela vida?

Vivo a minha quarta puberdade. Sou um gourmet da vida.

Viaja muito e diz-se que o Brasil é a sua paixão...

A primeira vez que lá fui tinha 23 anos. As melhores férias da minha vida, Rio de Janeiro. Dois meses. Só no Leblon e Ipanema. O Vinícius tinha ficado quatro dias em minha casa, cá. E em Coimbra, na república, já tinham estado os Jograis de São Paulo, conjunto de alguns dos melhores actores brasileiros que depois fizeram as grandes novelas. Tive uma relação amorosa com a Glauce Rocha, uma actriz em ascensão, mas acabámos porque eu ia apanhando uma tareia pelo facto de ela fazer de má numa novela. Era solteiro, ganhava bem a vida, o meu pai pagava tudo no escritório, vivia em casa dos pais, enfi m. vivia como um príncipe. Instalei-me no Copacabana Palace. Um dia, uma senhora telefonou-me. Queria encontrar-se comigo, mas não podia ser no quarto nem no hotel, tinha de ser fora. Lá fui. Encontrámo-nos num café e ela só me disse: «Sou a telefonista do hotel e queria conhecer o sinhô para dizer que o sinhô, assim, não aguenta» [risos]. Depois, o Vinícius e os Jograis meteram-me lá no meio e foi o que imagina.

Que significado tem o casamento para si?

Nenhum. Mas a minha ligação com a Belicha tem muito. É encantadora e tem a suprema qualidade de me saber aturar. Não sou fácil: fui filho único, estou mal habituado. O meu primeiro casamento durou três anos. E depois estive vinte e tal anos solteiro até casar com ela. Os vícios e defeitos ganharam raízes. É este animal que ela tem que gerir. Estamos casados há mais de 20 anos. Com grande cumplicidade e proximidade afectiva. Ela não restringe a minha liberdade. Vai dando as explicações dela: diz que não fecho bem a caixa, tudo coisas ternurentas. É uma descompressão grande. Ela percebeu que eu não era domesticável. Mas sabe domesticar-me sem eu notar.

Se uma mulher tivesse liderado o PSD talvez tivesse conseguido de si o que os homens não conseguiram.

Sim, sim! Mas depende da mulher. Estou a pensar em algumas do meu partido e não me parece [risos].

Uma das suas palavras preferidas é a Tolerância...

Sim, mas este neomoralismo incomodame muito. Há degradações de carácter. Sinto-me desconfortável neste país. Adoro-o, mas, como alguém dizia, é muito mal frequentado. Há uma cultura de laxismo, permissividade, falta de responsabilização e profi ssionalismo. O primeiro dever da cidadania é trabalhar de uma forma decente. Mas há empresários, trabalhadores e profissionais liberais que não sabem o que isso é.

Criou uma distância higiénica?

Não me excluo! Não estou num pedestal! Mas tento ser decente. Há falhas na nossa organização colectiva. Desde o salazarismo que se diz que Portugal tem de apostar na internacionalização e criatividade para evitar o insucesso e o malogro da nossa economia. Mas os empresários compraram-se uns aos outros, construíram grandes indústrias por cá e só apostaram no abastecimento. Internacionalização, criatividade? Não se fez nada! E não se diga que os trabalhadores têm menos produtividade. Lá fora, são mais produtivos porque têm quem os dirija.

Temos empresários com mentalidade de merceeiros?

Os que temos não correspondem aos empresários de que necessitaríamos. Com honrosas excepções. Veja as OPA's: que produção de riqueza é que geram? Cria futuro? Não cria nada. Estamos a enganar-nos uns aos outros. Esta mentalidade atravessa toda a sociedade. No Norte, por exemplo, ainda não aprendemos que o proprietário de uma empresa não é, se calhar, o melhor gerente. É por isso que as falências são muitas. Algum desses gajos soube abdicar de algo? Não soube puto!

O Porto ainda é um prestígio à procura de poder?

Diz-se que o dinheiro está no Norte. Pergunto: qual foi a privatização e houve centenas que o Norte ganhou? Não ganhou uma! Uma! [Bate violentamente com as mãos na mesa] Ganharam os grupos económicos de Lisboa. Tinham mais cacau! Resta-nos a memória, o orgulho, a nossa auto-estima, uma esperança que se fez carne em nós.

Que papel histórico teve a Igreja nas mentalidades?

A Igreja está em todas. Tem uma sabedoria milenar. Soube fazer o jogo do Estado Novo e, ao mesmo tempo, «criar» um Bispo do Porto resistente. A Igreja apanha sempre a última carruagem, mas nunca perde nenhum comboio! Fez o jogo dos nazis, mas logo a seguir criou resistências e arranjou um Papa para pedir desculpa. Mas o perdão tem de ser acompanhado de actos de reconhecimento. Não basta ir a Jerusalém mandar duas cabeçadas no Muro e já está.

De onde lhe vem essa resmungona alergia à Igreja?

Isso é o meu amigo Marcelo Rebelo de Sousa que diz. É um beato. Sempre que não vê um gajo a fazer beatices, diz isso. Ele ainda espera ser beatificado, eu não! [risos]. Recuso-me! Sobretudo, desde que o Escrivá foi canonizado. O padre Américo está para ser beatificado há 20 anos e este Escrivá, um nazi encoberto, foi canonizado. Que Igreja é esta?! Eu não hei-de resmungar?

Aparte a instituição, não houve nada que o tivesse aproximado mais do Além nesta fase da vida?

Houve, houve: a «Anja» que está ali no jardim. É a única que me fez subir ao céu. E chorar por mais. Por mais «anjas» [risos].