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Grupo de taxistas no Facebook apela à violência e debate táticas para enganar clientes

Portugal

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Nuno Botelho

O presidente da Uber é descrito como "monhé", o secretário de Estado adjunto e do Ambiente é um alvo a abater, os colegas que não agem contra os motoristas da Uber são chamados de "cobardes", a violência neste contexto é uma medida compreendida e entendida como necessária e as táticas para enganar clientes aceitáveis, desde que feitas com inteligência e habilidade. Caso contrário, perguntam, como poderiam sobreviver? É isto que se discute publicamente numa página de Facebook com quase 500 membros

Chama-se “Táxis de Portugal” e é um grupo público no Facebook com 468 membros. Na página há de tudo, sem segredos: há motoristas de táxi que sugerem andar com tacos de baseball para fazerem frente à luta contra a Uber, quem denuncie em tempo real onde se podem encontrar carros e motoristas ao serviço daquela plataforma de transporte de passageiros, quem compreenda e incentive atos como “apontar uma arma” a um motorista daquele serviço, quem insulte o secretário de estado adjunto e do Ambiente, José Mendes, quem chame “monhé” ao CEO da Uber e ainda quem debata sem pudores estratégias para aumentar o preço das viagens de táxi.

Carlos Murat Marques, orador num jantar que juntou associações de táxi e o secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP) para discutir o impacto da “economia partilhada” na mobilidade, é um dos principais impulsionadores da página. Na página de Facebook aberta ao público afirmou que passaria a circular com tacos de baseball no carro para lutar contra a Uber. “Estes três magníficos adereços vão passar a fazer parte da decoração do meu carro, dois são mesmo de decoração, o outro vai ser útil porque o estado de gozo já está a tomar proporções gigantescas.” Contra a Uber, o taxista também denuncia que, numa determinada noite, no Largo de Camões, em Lisboa, tinha assistido a um táxi ficar “entalado” entre três carros ao serviço daquela plataforma: “A cobardia tomou conta das praças de Lisboa. (…) Foi preciso eu chegar ali e correr com eles porque passaram muitos e ninguém quis saber, ninguém parou para correr com aquilo, eu cheguei e começou a rir-se mas fui buscar a chave de rodas e o gajo pirou-se. Mas agora virámos cobardes?” E quando um dos membros partilha um comentário no Twitter dando conta de que um motorista da Uber estava a ser ameaçado com uma arma, Carlos Murat Marques comenta: “Nada que não se esperasse que mais tarde ou mais cedo acontecesse, a paciência das pessoas tem limites, quando as autoridades nada fazem alguém tem de fazer alguma coisa, ainda vamos ver coisas piores, não recrimino quem toma este tipo de atitudes, é provocado todos os dias a fazê-lo.”

Mas os ataques não são apenas contra outras plataformas de transporte de passageiros. Noutro momento, o mesmo interveniente insurge-se contra os colegas que não tencionam participar na manifestação agendada para a próxima segunda-feira contra a intenção do governo de regulamentar as novas plataformas digitais de transporte, como a Uber e a Cabify: “O dinheiro que ganharem nesse dia que vos queime as mãos para o resto das vossas vidas.”

Rui Bento, diretor geral da Uber em Portugal, é outro dos principais visados nos posts e comentários: “Faço um post e num comentário chamo monhé ao CEO da Uber, logo saltam os puristas a pedir para elevar a conversa porque não nos fica bem, pois passo a dizer o seguinte: aquele gajo não é monhé? Aquele esterco que é a cabeça da víbora não é monhé? Monhé até é um nome simpático (…) porque afronta as leis deste país todos os dias e fica impune.” Mas o principal alvo de ódio do momento é mesmo o secretário de Estado adjunto e do ambiente. Há quem critique, quem sugira que se demita e quem insulte com palavras impróprias.

A página de Facebook “Táxis de Portugal” não é a única em que são feitas ameaças ao secretário de Estado adjunto e do ambiente. O “Público” noticia hoje que a segurança pessoal do governante foi reforçada na sequência de uma avaliação de risco feita pela PSP na sequência de ameças de que José Mendes vem sido vítima na internet por pessoas ligadas ao setor dos táxis e à esperada tensão prevista para a próxima segunda-feira, em que se estima que seis mil táxis irão paralisar Lisboa.
Antes de a luta contra a UBER e a manifestação agendada para segunda-feira se transformarem no principal tópico, o grupo entretinha-se a debater ideias práticas como aumentar o valor da viagem, enganando clientes sem que dessem por isso. A simples partilha de uma notícia sobre como a PSP teria apanhado um motorista de táxi a enganar turistas em Lisboa, fazendo-os circular pela zona da Estrela com a tarifa 3, levava a que fossem trocadas ideias sobre manobras mais inteligentes para encarecer o custo da viagem, como a cobrança de preços fora do taxímetro com o uso da tarifa “C”, a aplicação de suplementos de bagagem a malas de dimensão reduzida (nesses casos, não é legalmente necessário transportá-la no porta-bagagens) ou o uso da tarifa extraurbana 5 para viagens urbanas em que deveria ser aplicada a tarifa 1. E algo justifica enganar-se clientes? Perante algumas críticas há quem diga: “Mas esperem lá, agora virou tudo santo nos táxis, virou tudo virgens ofendidas? Não cuspam para o ar porque se não teriam de me explicar como podem sobreviver a fazer cinco ou seis serviços no aeroporto por dia, não me digam que os Cascais tocam sempre aos mesmos.” E ainda quem declare: “Nada tenho contra quem se tente orientar e ganhar mais uns trocos mas que saiba fazer as coisas.”

Em 2009, um estudo da DECO detetou irregularidades em 19% de 600 viagens de táxi feitas por todo o país. Das viagens feitas a partir do aeroporto de Lisboa, o número das irregularidades detetadas subia para 80%. Anos antes, já haviam sido descobertos táxis que recorriam a aceleradores eletrónicos de taxímetros como forma mais sofisticada de encarecer o valor das viagens.

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