Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

O (hu)moralista

Portugal

  • 333

O Jovem Conservador de Direita nasceu no Facebook para satirizar a direita e agora chegou a livro. A VISÃO desafiou-o a comentar alguns assuntos da atualidade

O livro de estreia do Jovem Conservador de Direita chega às livrarias esta sexta, 16. Há meses, no site da VISÃO, a figura satírica, obra e graça de vários talentos na sombra, antecipara o propósito do volume agora dado à estampa: A Era do Doutor – Retrato do Génio que vai salvar Portugal (Saída de Emergência) “vai ser o grande manual de referência antigeringonça”, prometeu o admirador de Luís de Camões, José Rodrigues dos Santos e Pedro Chagas Freitas (por esta ordem). A personagem tornou-se um fenómeno do humor (e do debate) político, já a caminho dos 35 mil fiéis no Facebook. Ele diz que ambiciona liderar o PSD, anexar o CDS, ser primeiro-ministro, presidir à Comissão Europeia e criar uma vacina, “economicamente rentável”, contra a sida ou a gripe. Mas do que gosta mesmo é que o levem a sério. Ciente disso, a VISÃO pediu-lhe que se debruçasse, nas suas páginas, sobre alguns assuntos da atualidade. E nem a Madre Teresa escapou. Perdão, a dra. Madre Teresa.

Rui Duarte Silva

O futuro da direita portuguesa
“O dr. Passos Coelho teve uma liderança boa, mas com alguns deslizes. Foi boa quando conduziu o País rumo à austeridade e à vaga de emigração. Quem pensava que íamos assistir à fuga de cérebros portugueses para o estrangeiro foi porque não saiu à rua em agosto. Os que, supostamente, emigraram de papillon regressaram de aileron. Se não percebeu esta alusão, tem tudo para ser emigrante. Se já não o for. O principal deslize do dr. Passos Coelho é intrínseco: falta de subtileza. Por exemplo, os portugueses não precisavam de observar a subserviência à dra. Merkel, nem a demonstração de força à extinta classe média. Ambas necessárias, diga-se, mas não pela boca do próprio dr. Passos Coelho. E assim ficou sujeito ao julgamento por ignorantes, leia-se, opinião pública. É aqui que o PSD fica a ganhar comigo, quando assumir a sua liderança: subtileza na subserviência e nas demonstrações de força. E carisma. Muito.
Uma das primeiras medidas que vou tomar, enquanto líder do PSD, é anexar o CDS. A pluralidade na direita é desnecessária. Uns vestirem-se melhor do que os outros não é uma divergência ideológica de ressalva. O próprio CDS já se está a preparar para a aglutinação com a candidatura da dra. Assunção Cristas à Câmara Municipal de Lisboa. Assim que estiver vaga, vou colocar a sede do CDS no Airbnb, de modo a financiar devidamente a Universidade de Verão do PSD. Temos de contratar professores de renome. Não podemos ter uma universidade onde o Duarte Marques é visto como um intelectual.”

A diferença entre estar com uma cor e ser uma cor
“Orange is the new black é uma série de sucesso que não vejo porque, como homem de direita, não fantasio com prisões nem, muito menos, com cenas de lesbianismo, mesmo que muito bem filmadas. O que o título sugere é que o cor de laranja é o novo preto, não no sentido de segregação racial, mas no sentido estético de que vai bem com tudo. É assim com a cor do partido que governou mais e melhor desde o 25 de abril, é assim com a cor do fundo da capa do meu livro best-seller, é assim com a cor dos acepipes preferidos dos subsidiodependentes: Cheetos.
No entanto, uma coisa é estar rodeado de cor de laranja, logo sucesso, outra coisa é ser cor de laranja, como é o caso do dr. Donald Trump. Como é do foro público, nas eleições dos EUA, apoio a dra. Hillary porque acredito que é uma candidata de direita muito bem preparada, com bons conhecimentos na Delfos moderna, Wall Street, faltando-lhe apenas um bom técnico para lhe tratar dos servidores.
O dr. Donald Trump só pode ser uma figura satírica que quer implodir a direita conservadora por dentro, daí não ter o meu apoio. Uma das características históricas de um bom conservador é a circunspeção, isto é, a arte de pensar e sentir algo, mas nunca verbalizar em conferências de imprensa. O conservadorismo é sentir, não é dizer. E depois aquela ideia ridícula do muro com o México, um país que sempre abraçou as exportações dos EUA, como a obesidade e a montagem de iPads por um décimo do valor que se cobraria nos EUA. Não faz sentido.”

Dra. Madre Teresa de Calcutá e o mercado dos pobres
“A dra. Madre Teresa é das melhores pessoas de todos os tempos e uma eterna candidata a ser referida como fonte de inspiração por pessoas que respondem a inquéritos de verão, ao lado de personalidades como o dr. Nelson Mandela, o dr. Gandhi, o dr. Steve Jobs ou, no futuro, eu. Fiquei muito feliz com a sua canonização. É a prova de que uma mulher não precisa de se casar com um grande homem e criar família para se realizar.
Não seria muito fácil para a dra. Madre Teresa já que, convenhamos, ela não era muito agradável à vista. Mas ela não desanimou, nem ficou chateada com Deus por não lhe ter dado um aspeto de supermodelo. Conformou-se com a impossibilidade de se casar e ser feliz num casamento e tornou-se uma Santa que decidiu dedicar a sua vida ao empreendedorismo da pobreza. No fundo, foi uma grande gestora que soube encontrar uma oportunidade de negócio na quantidade de pobres existentes na Índia e criou uma multinacional de fornecimento de serviços de assistência a pessoas carenciadas. Fez tantas boas ações que se tornou umas das pessoas mais bem cotadas no mercado da bondade, conquistando assim uma canonização em tempo recorde. A canonização é o prémio que Deus oferece aos campeões do mercado da bondade e esta foi inteiramente merecida. Foi um caminho cheio de sacrifícios: não só abdicou de ter uma família, a maior frustração para uma mulher, como ainda teve de lidar com um nível de mau cheiro inimaginável. Só uma santa seria capaz de ajudar tantas pessoas que não tomavam banho.”