Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

“Saraivaleaks”. José António Saraiva admite violação de privacidade

Portugal

  • 333

"Há no texto revelações duras". Quem o diz é o próprio autor no polémico livro “Eu e os Políticos”, a que a VISÃO teve acesso

“Um livro deste tipo só tem sentido se o autor se dispuser a contar tudo o que ouviu dos seus interlocutores, e relatar tudo a que assistiu, e que julgue ter interesse público. Assim, como o leitor reparou, há no texto revelações duras e outras que roçam a violação da privacidade. Mas, insisto, é o preço a pagar por uma iniciativa como esta”, afirma José António Saraiva nas linhas finais do seu livro “Eu e os Políticos”. “Só guardei para mim aqueles segre­dos cujo interesse público, em meu entender, não mereceria os danos que a sua divulgação poderia causar”, acrescenta José António Saraiva no epílogo do livro de 264 páginas em que passa a pente fino as suas memórias em relação a 42 figuras públicas portuguesas, que será apresentado por Pedro Passos Coelho, mas já está a gerar enorme polémica pelo facto de conter conversas privadas e pormenores íntimos destas e outras personalidades portuguesas. Revelações sobre orientação sexual, infertilidade, ódios de estimação, intrigas, insultos e jogos de bastidor – há um pouco de tudo no livro a que a VISÃO teve acesso.

“Poucas pessoas terão tido, como eu tive — pelos lugares que ocupei — acesso privilegiado aos principais actores políticos ao longo de 35 anos, materializado em inúmeras conversas privadas. Aqui os políticos aparecem como são (ou como eu os vi) na inti­midade, fora da pose conveniente que a presença pública implica. No momento em que me retiro de cargos executivos no jorna­lismo, senti a necessidade de partilhar com os interessados essas vivências. Seria porventura egoísmo guardá‑las só para mim e para o meu círculo próximo”, escreve o jornalista.

Antecipando as esperadas críticas, José António Saraiva garante que não quis fazer retaliações e que procurou imparcialidade na avaliação. “A empatia — ou a falta dela — estará patente no texto e às vezes é explicita­mente assumida. Mas isso não significa parcialidade. Em todos os casos tentei ser justo e rigoroso. Não prejudiquei uns e beneficiei outros de acordo com as minhas simpatias ou antipatias: procurei tratar todos com igual isenção. Nos jornais que dirigi tinha até fama de, à força de querer ser imparcial, prejudicar as pessoas que me eram mais próximas”, escreveu o autor. E acrescenta: “Também não usei este livro como forma de fazer retaliações ou vinganças, o que seria demasiado mesquinho. Disse‑o na apre­sentação e repito‑o nesta conclusão. A minha única ambição ao escrevê‑lo foi deixar um testemunho que possa ser útil a quem, no futuro, tente reconstituir a história deste período”.

Visados e não só têm vindo a público criticar o livro e a abordagem reveladora que promete fazer. Num post com o título “coscuvilhices”, escreveu ontem Francisco Seixas da Costa no Facebook: “Alguém a quem determinadas informações foram prestadas, numa conversa discreta, terá o direito, mesmo que muitos anos depois, de vir a público revelá-las, sabendo claramente que, com isso, quebrou a confiança que foi posta em si? E, em especial, se a revelação dessas conversas vier a afetar a imagem de pessoas, vivas ou já desaparecidas, será eticamente aceitável publicar - nas redes sociais, na imprensa ou em livro - tais dados? A resposta parece evidente para toda a gente, mas, aparentemente, para alguns, não o é. (…) Não conheço ainda um livro que se anuncia trazer umas dessas historietas de "diz-que-diz-se". A confirmar-se que insere algumas revelações que a imprensa indiciou, esse "tablóide encadernado" deverá ser exposto ao opróbrio público. Se não foi possível evitá-lo, ao menos que sirva de mau exemplo. Mas, quando não há vergonha, não há remédio.”

“Nunca antes, à exceção de um episódio com imagens vídeo de sexo dadas à estampa há 30 anos, se foi tão longe na deliberação da devassa gratuita da intimidade, sem outro objetivo que não o de devassar, ferir e lucrar com isso”, criticou também Fernanda Câncio (referida no livro), na sexta-feira, no site do Diário de Notícias.

Daniel Oliveira, no Facebook, vai mais longe e classifica o comportamento de Saraiva de "abjeto", referindo-se a uma alegada conversa entre Miguel Portas e José António Saraiva e que este agora revela. "Um dos assuntos que refere tem a ver com Paulo Portas e supostas dificuldades que este viria a ter, por causa da sua vida pessoal, em afirmar-se no CDS. Para além da indecência de divulgar um diálogo com esta sensibilidade quando o Miguel não está cá para o desmentir ou confirmar e quando não há qualquer outra testemunha, usa alguém que morreu para, por essa via, fazer considerações sobre a vida pessoal do seu irmão, que está bem vivo. Considerações que duvido que o Miguel tenha feito com alguém de quem não era amigo próximo e que mesmo que o fizesse nunca permitiria que fossem públicas. É feio divulgar conversas íntimas. É muito feio divulgar conversas íntimas sobre terceiros. É inacreditável fazê-lo quando se usa esses terceiros para divulgar supostos factos da vida privada de alguém. É nojento fazê-lo quando a pessoa que é usada é familiar da pessoa cuja privacidade é devassada. É abjeto quando a pessoa que é usada já morreu."

Apesar do tom revelador do livro e de nele estarem referidas dezenas de personalidades do seu próprio partido (como Durão Barroso, Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa, Cavaco Silva ou Francisco Pinto Balsemão) e de muitos outros políticos nacionais, Pedro Passos Coelho aceitou dar a cara pela obra e fazer a sua apresentação, ainda antes de conhecer ter oportunidade de o ler. Depois de conhecer o seu conteúdo, optou por manter o compromisso. A apresentação está agendada para dia 26 de setembro no El Corte Inglés. Até lá, o tema promete continuar a fazer correr muita tinta.