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Como a política tramou a Caixa

Portugal

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A gestão 
da dupla Armando Vara 
e Carlos Santos Ferreira 
é a mais visada 
na Comissão Parlamentar 
de Inquérito à CGD

Marcos Borga

Ao longo de vários anos, as administrações da CGD fizeram negócios ruinosos para o banco público, alguns deles com “orientação política”. A fatura ainda está a ser paga

Os erros de gestão na Caixa Geral de Depósitos foram-se acumulando ao longo dos anos e ainda hoje pesam nas contas. De tal forma que, há cinco anos consecutivos, entre 2011 e 2015, o banco público apresenta prejuízos avultados – todos somados, atingem quase os 2 mil milhões de euros. E a sangria não deve ficar por aqui. Nos primeiros seis meses deste ano, as perdas eram de 205 milhões de euros.
É com este cenário que a nova administração liderada por António Domingues, ex-vice-presidente do BPI, que entrou em funções no dia 31 de agosto, vai ter de lidar. A tarefa não é fácil. O objetivo é resolver os problemas do passado, arrumar a casa e retirar as contas do vermelho. Para isso, conta com uma ajuda de 2,7 mil milhões de euros que o Estado vai injetar na instituição, medida que já foi aprovada por Bruxelas. Será este montante suficiente para resolver todos os erros do passado? E que erros foram, quem os cometeu e quem os ordenou?

Vamos por partes. Ao longo dos últimos anos, a CGD fez negócios que se viriam a revelar ruinosos para o banco, alguns deles realizados por interferência política, como já acusou o sindicato dos trabalhadores do banco público. Os mais problemáticos começam essencialmente no ano de 2005, altura em que Carlos Santos Ferreira, antigo deputado do PS, assumiu a presidência e levou como seu braço direito Armando Vara, um dos homens mais próximos de José Sócrates que, poucos meses antes, tinha sido eleito primeiro-ministro de Portugal.

Um dos negócios mais polémicos que teve o aval desta dupla foi o de Vale de Lobo, onde a Caixa regista imparidades de 136 milhões de euros. O negócio foi feito em 2006 e “apadrinhado” por Armando Vara. O banco público comprou 25% do capital do projeto e financiou ainda os outros acionistas, entre eles Hélder Bataglia, presidente da Escom, o braço angolano do grupo Espírito Santo.

Ao todo, a CGD colocou 283 milhões de euros neste projeto, dos quais poderá recuperar apenas 147 milhões. Um investimento polémico e que agora está no centro da investigação da Operação Marquês, relacionada com suspeitas de corrupção.

A Caixa acumula ainda perdas de 181,4 milhões de euros nas Auto Estradas Douro Litoral, um projeto assinado em 2007, altura em que a dupla Ferreira/Vara liderava o banco. E, ainda no que respeita a imparidades, o Grupo Lena, que surgiu associado a José Sócrates na Operação Marquês, tem empréstimos de 255 milhões de euros da CGD, dos quais 76,7 milhões estão dados como irrecuperáveis.

A guerra do BCP

É também na liderança de Santos Ferreira e Armando Vara que a Caixa empresta dinheiro a vários empresários, entre os quais Joe Berardo, Manuel Fino e Pedro Teixeira Duarte, para que estes comprem ações do BCP, dando como garantia dos empréstimos essas mesmas ações. Nessa altura, o maior banco privado português enfrentava uma guerra interna pelo poder, que se gerou com a saída do líder e fundador Jardim Gonçalves. Só a Berardo, o caso que ficou mais conhecido, o empréstimo ascendeu a 360 milhões de euros.

Com a desvalorização brutal que os títulos do banco privado viriam a sofrer mais tarde, em boa parte por causa da crise financeira internacional de 2008, os empréstimos de milhões passaram a ter como colateral apenas alguns tostões. O banco público executou as garantias e vendeu as ações. Perdeu várias centenas de milhões de euros.

Mas não foi só através destes empréstimos que a Caixa perdeu dinheiro na instituição fundada por Jardim Gonçalves. O banco público também comprou ações do BCP. E, ao todo, teve quase mil milhões de euros ali investidos e entrou numa guerra de poder que não era a sua. Nas palavras de João Lopes, presidente do sindicato da CGD, “alguém disse à administração para o fazer”, numa clara alusão a uma intervenção governamental neste negócio.

A Caixa perdeu, mas os seus presidente e vice-presidente, Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, respetivamente, transitaram para os mesmos cargos... no BCP. Ficaram a liderar um banco privado, após uma guerra que foi, em parte, financiada pelo bolso dos contribuintes.

Já com Faria de Oliveira a presidir ao banco público, o grupo catalão La Seda inaugurou uma fábrica de embalagens plásticas em Sines, na qual a CGD tinha 15% do capital. Em 2013, o grupo catalão entra em falência e é neste negócio que a Caixa regista uma das suas maiores imparidades: 214,4 milhões de euros.

Investigação em curso

Por todas estas razões, a gestão da CGD irá estar na mira de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, cujas principais audições terão início em setembro. Serão chamados ao Parlamento os cinco presidentes que o banco teve desde o ano 2000, ou seja, António de Sousa, Vítor Martins, Carlos Santos Ferreira, Faria de Oliveira e José de Matos.

Mas não é só neste período que se registaram interferências políticas e negócios ruinosos. Desde os governos de Cavaco Silva que a Caixa Geral de Depósitos é alvo de “intervenções”.

Quando Cavaco Silva era primeiro-ministro, a CGD comprou um banco no Brasil, o Bandeirantes, um negócio que acabou por ser deficitário durante largos anos. Este foi um dos investimentos que o líder do sindicato dos trabalhadores da Caixa assinalou como sendo de “interferência política”, numa entrevista dada ao Jornal i. Na mesma altura, o banco público fez um empréstimo a Thierry Roussell, casado com Christina Onassis, a herdeira da fortuna do bilionário Aristóteles Onassis, para este investir numa plantação de morangos em Odemira. O negócio acabou por falir e viria a afetar a imagem do presidente do banco na altura, Rui Vilar, que agora assume funções como administrador na equipa de António Domingues.

Mais tarde, durante o governo de António Guterres, a Caixa viu-se envolvida num dos negócios mais polémicos da banca portuguesa: a venda do império financeiro de António Champalimaud, que englobava o Banco Totta e Açores, o Banco Pinto & Sotto Mayor, o Banco Chemical, o Crédito Predial Português e a seguradora Mundial Confiança.

O processo acabou por ser dirigido pelo então superministro Pina Moura, que chegou a acumular as pastas das Finanças e da Economia.

Estávamos no final de 1999 e as negociações arrastaram-se durante vários meses. O Governo português não queria este império nas mãos dos espanhóis do Santander. Então, Pina Moura cozinhou um esquema que passou pela divisão dos vários ativos que integravam este conglomerado financeiro entre o Santander, o BCP e a Caixa. Por imposição política, o banco público ficou com a Mundial Confiança, com o Banco Chemical e ainda com o Sotto Mayor, tendo vendido este último ao BCP, mas recebendo parte do pagamento com ações do próprio BCP, que, uns anos mais tarde, iriam resultar em prejuízos avultados.

A estas “calamidades” é preciso somar ainda os investimentos em Espanha, que foram concretizados por vários conselhos de administração e que, em 2011, resultaram em prejuízos de quase 500 milhões para a CGD.

Por todas estas razões, o banco público português chegou às necessidades financeiras em que se encontra. E, mesmo recuando aos anos em que ainda dava lucros, a Caixa acabou por ser dispendiosa para o Estado devido às várias injeções de dinheiro que ali foram feitas, sobretudo depois da crise financeira internacional. Em dez anos, o Estado colocou 4,35 mil milhões de euros no banco e recebeu apenas 2,21 mil milhões de euros de dividendos, o que deu um saldo negativo para os contribuintes de 2,14 mil milhões de euros.

Terá António Domingues capacidade para travar esta sangria?

As tarefas de Domingues

Apesar da recapitalização de 2,7 mil milhões estar assegurada pelo Estado e aprovada pela Comissão Europeia, o novo presidente executivo da Caixa terá vários desafios pela frente. Eis alguns deles:

Margem financeira - O aumento da receita será um dos principais focos da nova gestão. No entanto, com as taxas de juro quase a zero e a enorme volatilidade dos mercados, as margens dos bancos estão reduzidas ao mínimo. É necessário alterar os modelos de negócio de forma a incrementar as receitas da atividade bancária

Rede de balcões - A nova administração pretende encerrar cerca de 300 balcões, sendo a grande maioria no estrangeiro. Com o recurso ao netbanking, os balcões têm cada vez menos atividade e, nalguns locais do País, têm pouca rentabilidade, servindo apenas como único contacto das populações com os serviços bancários

Redução de pessoal - Poderá ser um dos dossiers mais sensíveis da nova gestão, que pretende reduzir 2 500 funcionários até 2020. O ministro das Finanças, Mário Centeno, garantiu que as saídas apenas serão feitas por reforma antecipada ou então por rescisões por mútuo acordo

Ativos não financeiros - Para tentar realizar o maior encaixe financeiro possível, a Caixa irá tentar vender as participações que tem no capital de várias empresas. No entanto, devido à crise económica este poderá não ser o melhor período para o fazer. O mesmo acontece com os inúmeros imóveis que tem entre mãos. A subida do mercado imobiliário pode, neste caso, ser benéfica

Os homens da CGD

Ao longo de 16 anos o banco público teve cinco presidentes. António Domingues assumiu funções no dia 31 de agosto

António de Sousa - Entrou no setor financeiro como administrador do Banco Totta e Açores em 1989, cargo que exerceu durante dois anos. Em 1991 integra o governo de Cavaco Silva como secretário de Estado Adjunto e do Comércio Externo. Quando deixou o executivo assumiu a governação do Banco de Portugal de onde saiu para liderar a Caixa entre 2000 e 2004

Vítor Martins - Foi secretário de Estado dos Assuntos Europeus entre 1985 e 1995. Quase sem experiência na banca, foi o presidente da Caixa que menos tempo ocupou a cadeira da liderança. Entra para o cargo em outubro de 2004 e sai em agosto de 2005, quando a tutela, então liderada por José Sócrates, decide reduzir o número de administradores do banco público

Carlos Santos Ferreira - Começou a carreira política como deputado do PS em 1976. Exerceu vários cargos de presidente de empresas públicas na década de 80. Nos anos 90 passou para o Grupo Champalimaud, onde presidiu à seguradora Mundial Confiança. Esteve nos seguros do grupo BCP entre 1999 e 2003 e depois foi para a Estoril Sol como vice-presidente. Em agosto de 2005 substitui Vítor Martins na liderança da CGD cargo que exerceu até 2008

Faria de Oliveira - Entrou para o governo em 1980 como secretário de Estado do Comércio Externo. Passou por várias secretarias de Estado, entre elas a das Finanças e terminou a sua vida política como ministro do Comércio e Turismo do último governo de Cavaco Silva. Foi presidente da CGD entre 2008 e 2010

José de Matos - Fez a sua carreira no Banco de Portugal. Começou como técnico do departamento de estudos em 1979 e em 2002 já era vice-governador da instituição. Acumulou ainda funções no Banco Central Europeu como membro do comité de relações internacionais. Em 2011 assumiu a presidência da CGD, cargo que deixou em agosto deste ano

António Domingues - A sua carreira no setor financeiro começou muito cedo como diretor adjunto da sucursal francesa do BPA. Passou ainda pelo Banco de Portugal como assessor do departamento de Estrangeiro. Mais tarde ingressou no BPI, onde permaneceu durante 27 anos, tendo chegado à vice-presidência do banco