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Celta: tragédias de um parente pobre

Portugal

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© Miguel Vidal / Reuters

Contam-se os mortos e feridos após o descarrilamento do comboio que liga o Porto a Vigo. Cinco histórias para perceber como o Celta foi sendo esquecido.

Enquanto se mantém o rescaldo do acidente ferroviário ocorrido na manhã desta sexta-feira, 9, nas proximidades de Porriño (Galiza), talvez valha a pena perceber o acidentado percurso do comboio que faz a ligação entre Porto e Vigo. O Celta é, pelo menos neste século, o “parente pobre” dos percursos ferroviários e das prioridades dos sucessivos governos da Península. Se isso não chega para explicar a tragédia, a verdade é que não deixa de ser uma história trágica.

Um comboio antigo

A presidente do município de Porriño, na Galiza, foi das primeiras a chegar ao local do acidente. Para Eva Garcia, o óbvio tem muitos anos: “É um comboio muito antigo”, resumiu, reforçando críticas que vem fazendo desde há longo tempo. Não será isso a explicar este acidente, mas ajuda. E o facto de um comboio rudimentar circular a uma velocidade elevada junto a um núcleo urbano tem merecido constantes críticas da autarca.

As carruagens foram adquiridas em 1978 pela CP.

À vetustez do comboio junta-se o facto de esta linha ferroviária não fazer parte das prioridades dos governos dos dois lados, apesar de muitas promessas, reviravoltas e cimeiras para a fotografia. A rota já esteve várias vezes em risco de extinção. Tudo ajudava: pouca procura, três horas e meia de viagem, preço elevado. Em 2013, suprimiram-se paragens, a viagem passou a ser mais direta e reduzida a duas horas. Mas um ano depois, voltou a parar em Nine, Viana do Castelo e Valença.

Modernização, mas devagar

Para um dos maiores especialistas ferroviários do País vizinho, Luis Baamonde, o “torpedo amarelo”, nome pelo qual o comboio foi batizado por aquelas bandas, há muito que é indigno de circular naquela linha. “É possível que, de todos os comboios que há em Portugal e Espanha, não se tenham encontrado outros?”, questionou, em 2013, após as autoridades portuguesas e espanholas se terem decidido pelo bilhete único, de fácil compra na Internet e a um preço mais razoável. Luis Baamonde reclamava, além dessas mudanças positivas, um comboio “digno” para os passageiros, com assentos “como os dos aviões, com restaurante e cafetaria”, fazendo jus ao “belíssimo trajeto”.

O Celta pode esperar

Do lado português, a gestão do dossiê da linha Porto-Vigo não tem sido propriamente honrosa. Vejamos: desde 2012 que estava prevista, pelo menos, a eletrificação da linha, uma melhoria do material circulante e numa renovação das condições do percurso para comboios de mercadorias. Apesar das reiteradas promessas dos dois chefes dos governos de direita da Península (Mariano Rajoy e Pedro Passos Coelho), os compromissos não saíram do papel, originando protestos dos atores políticos locais, empresariais e turísticos. Com a chegada do Governo PS foi definido um plano para modernizar a rede ferroviária, mas a chamada “Linha do Minho” continuou secundarizada. Abandonada a ideia de uma linha de alta velocidade, o maior partido da “geringonça” só considera internacionais – e prioritárias - as ligações Aveiro-Salamanca e Lisboa-Madrid, que deverão concentrar o maior investimento.

O que (não) prometeu António Costa?

No dia 31 de agosto, o primeiro-ministro almoçou em Lisboa com os correspondentes internacionais. À Imprensa galega, não deu motivos para ilusões: o projeto de alta velocidade Vigo-Porto continuará, segundo António Costa, “fora da agenda política do atual executivo, pelo menos até 2018”. Os constrangimentos impostos por Bruxelas relativamente ao défice e a necessidade de executar as infraestruturas decididas pelo anterior Governo que contam com apoio comunitário são as prioridades. Apesar de tudo, o primeiro-ministro socialista comprometeu-se a apresentar no Parlamento, durante o seu mandato, um novo plano de investimentos, “no qual se incluirá, seguramente, uma nova infraestrutura ferroviária entre Vigo e Porto”. Costa quer, contudo, que esse programa seja aprovado por dois terços dos deputados para que se mantenha para lá da alternância de governos.

O que vai acontecer, para já?

Do lado português, a garantia é apenas esta: o Governo deverá eletrificar os quase 44 quilómetros entre Nine e Viana do Castelo, o que permitirá que as ligações entre Porto e Vigo se possam fazer numa duração mais competitiva. Se o lado galego fizer o mesmo nos oito quilómetros que lhe faltam, a viagem poderá efetuar-se em 90 minutos. Mas alto lá com os entusiasmos: as obras nunca estarão concluídas antes de 2018. Se tudo correr dentro dos trilhos, claro.