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Carlos Silva: "Serei testemunha abonatória de Ricardo Salgado. Pediu-me a minha solidariedade e dei-lha"

Portugal

Bancário, socialista, católico, lidera há três anos a UGT. O homem que se propunha conseguir uma aproximação à CGTP foi inesperadamente apanhado por uma nova fase no mundo sindical

Gonçalo Rosa da Silva

"Serei testemunha abonatória de Ricardo Salgado. Pediu-me a minha solidariedade e dei-lha ".

Carlos Silva

Bancário, socialista, católico, lidera há três anos a UGT. O homem que se propunha conseguir uma aproximação à CGTP foi inesperadamente apanhado por uma nova fase no mundo sindical. Pela primeira vez, a “rival” CGTP, habitualmente uma força de oposição, está em posição de influenciar políticas governativas, já que o partido de que é próxima, o PCP, é um dos suportes de António Costa no Parlamento. Entretanto, Carlos Silva prepara a máquina da UGT para o congresso de março de 2017, onde será eleito o novo líder. Ou o mesmo.

Já decidiu se vai recandidatar-se a um segundo mandato?

Ainda não. Dependerá da forma como evoluir a situação do País e desta central. A tendência socialista irá reunir-se no início de julho e veremos se há camaradas meus com disponibilidade para se candidatarem. Se a questão não se resolver em julho, teremos novo encontro em setembro. E também terei, claro, de avaliar ar minhas condições familiares.

Quer dizer que continuará a ver“ se salta algum coelho da toca”?

Isso foi por desafios que foram colocados à liderança da UGT. Dei uma entrevista onde comentei a necessidade de uma política de alianças estável para depois das eleições, que era diferente da que foi adotada. Isso suscitou opiniões negativas e positivas, quer no PS quer na tendência socialista da UGT. Tratava-se de um mero delito de opinião ou estava em causa a liderança da UGT? Se estava, então ia-se à luta. Mas já passaram alguns meses e as coisas têm corrido com serenidade, tanto no PS como na tendência socialista.

Mas como pode a conjuntura do País influenciar a sua decisão?

A UGT tem pela frente muitos desafios internos e há alterações que se têm verificado em Portugal e no resto da Europa. A taxa de sindicalização vem diminuindo, mas a sociedade continua consciente de que os sindicatos são necessários. Por outro lado, nos transportes, na administração pública, no setor bancário, na saúde, na educação, estamos num momento de grandes incertezas quanto ao futuro. Como poderá isto influenciar a minha decisão? Os últimos três anos foram dos mais difíceis e o papel da UGT é relevante em termos de equilíbrio.

E da parte da governação sabe-se que entre os sindicatos há um parceiro que privilegia a negociação. Quero acreditar que o Governo irá cumprir o objetivo de debelar a austeridade e isso não se consegue só com os partidos, mas também com os parceiros sociais. Sou filiado no partido que está no Governo e que tem tirado coelhos da cartola no sentido de permitir um diálogo à esquerda e os sindicatos têm sido envolvidos nisso. Quero acreditar que os parceiros serão ainda mais chamados à procura de consensos.

Já recordou que a atual fórmula governativa não é a que defendia. Que balanço faz agora do Executivo?

Uma estratégia muito inteligente de António Costa e que demonstra que a democracia tem sempre soluções para tudo. Até para se encontrar convergências que, há alguns meses, eram impensáveis para muitos. E eu sou como S. Tomé, ver para crer.

Mas sendo “um homem de esquerda”, como costuma apresentar-se, porque não se revia nesta solução?

Enquanto dirigente sindical, tinha algumas dúvidas sobre a forma como PCP, BE e Verdes se iriam comportar. Mas têm dado uma prova de resiliência e de apoio ao Governo que para muitos seria impensável. Na altura, não achei possível. Hoje, devo confessar que a realidade ultrapassou o meu ceticismo.

Na área laboral, o Governo tem correspondido exatamente às suas expectativas?

Exatamente é um advérbio de modo que não está perto do que seria a nossa vontade. Mas também não está longe. E o caminho faz-se caminhando. Muitas das reivindicações dos últimos anos têm sido acolhidas, como a reposição gradual dos salários da Administração Pública, a reposição de quatro feriados, o compromisso da abolição da sobretaxa, a ida à Concertação Social da redinamização da contratação coletiva e os 25 dias de férias. Era importante repor muito em termos de justiça social, mas o ótimo é inimigo de bom.

Dentro da UGT que consequências teve este Governo? Aproximou ou afastou as duas tendências?

Nem uma coisa nem outra. Independentemente de quem está no Governo, nunca senti um afastamento das duas.

Durante o Governo de Passos Coelho, por exemplo, fez muitas críticas às políticas de austeridade.

O meu discurso foi sempre corroborado pela presidente (PSD) e pela tendência social-democrata (TSD). Muitas vezes, depois de eu falar, a Comunicação Social telefonava à presidente a ver se concordava. Nunca aconteceu uma divergência no nosso discurso. Foi assim no tempo de Passos Coelho e tem-no sido no tempo de António Costa.

Quando assumiu a liderança da UGT, disse que um dos seus propósitos era uma aproximação à CGTP. Conseguiu?

Não, não consegui.

Porquê?

Talvez o insucesso seja meu, que não me aproximasse o suficiente do que são os paradigmas da CGTP. Mas há coisas que são indispensáveis. Às vezes, ouço camaradas meus socialistas da CGTP dizerem: “Vocês privilegiam muito a negociação, mas também é preciso luta.” E eu respondo: “Bem, vocês fazem o contrário, primeiro a luta e depois a negociação.” As duas coisas são compagináveis. Mas, pela primeira vez, verifica-se que o PCP é hoje uma baliza importante das políticas de Governo, porque apoia na AR as suas decisões, nomeadamente com contributos para mitigar os sacrifícios dos trabalhadores. A CGTP nos últimos meses, não abdicando do seu modelo, que é de muita luta, muito proativo na rua, está um pouco mais, não sei se é este o termo, amarrada a um conjunto de compromissos. Tem-se visto menos do ponto de vista mediático num conjunto de lutas que lhe são tradicionais.

Mas tive dificuldades em fazer a ponte, embora tenha uma relação cordial com o secretário-geral, Arménio Carlos. Mas há modelos distintos. Desde que sou secretário-geral já assinei três acordos e a CGTP nenhum. Então para que serve a Concertação Social? Para debitarmos apenas as nossas opiniões? Para estarmos contra tudo e contra todos? Não há o sentido de compromisso.

Portanto, onde houver possibilidades de convergência, nós estamos lá.

O movimento sindical não é inimigo nem adversário. Viu-se nos transportes, na Administração Pública, na greve geral de 2013, e ver-se-á certamente noutros momentos.

Portanto, este Governo não mudou nada nas relações entre as duas centrais?

Ainda não houve oportunidade de agilizarmos maior convergência nestes cinco meses. Este Governo, que tem uma maior sensibilidade social e quer reverter a austeridade, de forma indireta acaba por aproximar as posições das duas centrais. As duas têm um discurso parecido em relação aos dias de férias, aos feriados, à contratação coletiva. Numa das últimas reuniões da Concertação Social subscrevi a intervenção do secretário-geral da CGTP. Utilizando um chavão, é mais aquilo que nos une do que nos separa.

Dada a nova conjuntura, espera que a CGTP assine o próximo acordo de Concertação Social?

A CGTP é uma organização com responsabilidade. Nós seguimos o nosso caminho e a CGTP segue o dela. Considero incontornável que a CGTP na Concertação Social é um parceiro proativo, apresenta propostas, faz críticas, faz construção. Mas quando chega ao momento da verdade, há sempre qualquer coisa que a impede.

O que leva a CGTP a ser um contribuinte líquido de propostas e depois a não assinar?

Seria uma pergunta a fazer-lhes.

A CGTP fez prova de vida com a greve pela reposição das 35 horas de trabalho na Administração Pública, mal o Governo tomou posse.

Não receia que a UGT seja a central só para a assinatura na Concertação Social?

Em relação às 35 horas, como a outras matérias, as duas centrais têm estado lado a lado. Foram sindicatos da UGT que, em dezenas de câmaras municipais, procuraram assinar acordos que repunham o anterior horário. Isso criou alguns constrangimentos na outra central. Mas as coisas têm sido geridas de forma pacífica. A luta e a exigência são as mesmas quanto à reposição de direitos. Mas a CGTP tem talvez uma reserva mental em assinar o que quer que seja. A UGT não, mas também não assina em troca de uma mão-cheia de nada.

Mesmo no malfadado acordo de 2012, o que teria acontecido se a UGT não tivesse assinado?

Era aplicado o memorando tal e qual. A UGT continua a receber ingratidão por ter mitigado e até retirado muitas medidas que a troika queria. Valia a pena perguntar hoje, perante tantas críticas, se não teria sido mais fácil a UGT ter fechado os olhos e deixar aplicar o memorando.

Era o que as pessoas queriam?

O futuro julgará o bom senso ou a boa-fé de quem assinou.

Que medidas a UGT pretende ver proximamente aprovadas na Concertação Social?

Gostaríamos que o Governo descongelasse a contratação coletiva e publicasse as portarias de extensão. Achamos também que deve empenhar--se no combate à precariedade. Nos últimos anos, o Instituto do Emprego e Formação Profissional recebeu 800 milhões de euros para formação, mas 80% dos formandos só conseguiram empregos precários. Investimento deste tipo é um erro. Apoiamos penalizações para as empresas que façam excessiva rotação dos trabalhadores contratados por esta via. Defendemos também a reposição total dos salários da Administração Pública e ainda uma política de aumento salarial, já que temos atualmente um salário mediano próximo do salário mínimo. Onde é que isto já se viu? E há que resolver o problema da banca. O anterior Governo lavou as mãos em relação ao Novo Banco, deixando 6 mil trabalhadores em situação de incerteza. E fala-se agora na espanholização da banca e nos problemas com Angola. O Governo tem de meter as mãos nesta massa.

É preciso os bancos aplicarem taxas de juro compatíveis com as PMEs, pôr em prática o plano Juncker, ajudar a inovação tecnológica.

Falou na banca. Era funcionário do BES.

E sou funcionário do Novo Banco.

Quando se tornou líder da UGT, houve alguns comentários por ir continuar a receber o salário pelo BES.

E continuo. Como qualquer sindicalista em Portugal, sou pago pela entidade a que fui requisitado.

Está arrolado como testemunha abonatória de Ricardo Salgado.Tendo em conta essa sua ligação, não receia ser mal interpretado, dentro e fora da UGT?

A solidariedade continua a ser um valor intrínseco para o movimento sindical. O dr. Ricardo Salgado pediu-me para ser testemunha e eu fui solidário com quem me pediu solidariedade. Não tem a ver com o processo, mas com a pessoa, o carácter, com o que conheci na Comissão de Trabalhadores e no sindicato. É com isso que vou testemunhar. Sinto-me perfeitamente à vontade nessa matéria. A UGT tem conhecimento disso e nunca me questionou. Todos estamos sujeitos a ser convidados por alguém para sermos testemunhas abonatórias. Se essa pessoa é mediática, paciência. Independentemente da culpabilidade ou não - que não está provada - que venha a ser descoberta nas investigações em curso.

Já agora, que balanço faz do novo ator na cena política, o Presidente da República?

Faço um balanço muito positivo.

Os afetos marcam muito os portugueses. Marcelo Rebelo de Sousa trouxe ao de cima essa qualidade, que é o melhor que temos. Conseguiu enaltecer o nosso amor próprio, a nossa forma de estar. É um grande comunicador. Ainda está há pouco tempo em funções, mas as minhas expectativas quanto ao seu relacionamento com os portugueses são francas.

E quanto à relação com o Governo?

Do ponto de vista institucional, também acredito que será um garante de lealdade com o Governo.

As relações com o primeiro-ministro são um bom augúrio. E pode ser que essa relação ensine outros que estão ainda feridos no seu orgulho próprio e na sua forma de pensar a política, trazendo-os de novo ao convívio democrático. O País precisa é de estabilidade, de serenidade.