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Caso Sócrates: A história de um esconderijo num atrelado de uma Harley-Davidson

Portugal

Nuno Botelho

Investigadores desconfiam que administrador do grupo Lena terá sonegado provas relevantes para a Operação Marquês durante o dia das buscas

As buscas judiciais à sede do grupo Lena e à residência de Joaquim Barroca, patrão do grupo com sede em Leiria, não foram propriamente uma surpresa. Desde que José Sócrates foi detido, em Novembro de 2014, que todos ouviam as notícias que apontavam o grupo Lena como um dos prováveis corruptores do ex-primeiro-ministro. Só em Abril os investigadores decidiriam transformar o grupo ligado à construção num alvo. E neste caso os administradores do Lena conseguiram até saber o dia e a hora em que iriam ter a visita mais que anunciada. Francisco Santos, ligado à área dos media no grupo, fez uma chamada logo pela manhã a anunciar que o procurador Rosário Teixeira e o juiz Carlos Alexandre estavam em Fátima. Bastou somarem dois mais dois. Quando os investigadores entraram nas instalações do grupo Lena para varrer os escritórios dos administradores, pelas 10h da manhã, Joaquim Barroca já tinha saído.

E este não foi o único incidente a perturbar a operação de buscas. Mais tarde, perto do momento da entrada da equipa de investigação na casa do patrão do grupo Lena, Geraldo Rodrigues, que era responsável por tratar das viaturas de Joaquim Barroca, enviou um sms com a seguinte mensagem: “Tudo entregue.” Durante a tarde, é o patrão do grupo Lena quem envia a Geraldo outro sms, mas mais bizarro: “Está no frigorífico na arca congeladora do reboque da Harley que levei a ltália; a Dra. Ana do céu vai pedir-te que me lá vás buscar isso. E depois dás-lhe ainda hoje, ok?” Só tempos depois, quando as comunicações intercetadas foram passadas a pente fino pelo juiz Carlos Alexandre é que os investigadores descobriram a mensagem enigmática e se questionaram: “Quem é que guarda o que quer que seja dentro de uma arca congeladora de um frigorífico guardado num reboque de uma mota?”

O local bizarro e a data de envio daquele sms levaram os investigadores a deduzir de imediato que existiam “fortes indícios de sonegação de prova”. O que foi guardado no reboque ainda não foi até hoje totalmente esclarecido. Num despacho assinado por Carlos Alexandre, o juiz resume assim: “No que se reporta aos indícios da verificação dos perigos, entendemos que a explicação dada pelo arguido para deter documentos guardados, de uma forma permanente, num atrelado de uma mota de colecção, colocada num pavilhão da sua propriedade, se afigura de todo inverosímil e é mesmo contraditória com outros indícios recolhidos nos autos, que apontam para a deslocação dos documentos no próprio dia da busca.”

Joaquim Barroca é um dos 12 arguidos da Operação Marquês e está indiciado por fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção ativa. Durante os interrogatórios a que foi sujeito insistiu na versão de que serviu apenas como barriga de aluguer para a passagem de 12 milhões de euros das contas de Helder Bataglia (um dos administradores da ESCOM, empresa do grupo GES) para as contas suíças de Santos Silva (onde foram acumulados 23 milhões de euros que a investigação suspeita serem de Sócrates). Disse ainda ter assinado declarações em branco para posterior realização de transferências a partir da sua conta devido a uma confiança extrema que depositava no empresário amigo do ex-primeiro-ministro.

A versão não convence os investigadores. No despacho que conduziu Joaquim Barroca a prisão domiciliária, em Abril deste ano, o juiz de instrução disse-se “perplexo ante as explicações muitos vezes incongruentes com a realidade espelhada nos documentos bancários” e afirmou que o seu espírito, assumidamente “humilde”, não compreendia como alguém se dispunha a dar uma conta sua como barriga de aluguer e a partir dela fossem movimentados milhões de euros. “Há aqui muita coisa por explicar”, concluiu Carlos Alexandre. “Como é que é possível aceitar-se, acriticamente, no juízo indiciário "probatio levior" aqui cabido que um respeitável empresário que movimenta num grupo económico com mais de 50 anos de existência centenas de milhões de euros, abre uma conta na Suíça e se desligue da sua movimentação concreta respaldado numa confiança cega em Carlos Santos Silva que, agora, diz estar fortemente abalada?!”

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