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Quando o ministro da Educação foi capa da VISÃO

Portugal

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José Farinha

Tiago Brandão Rodrigues era pouco conhecido quando a VISÃO escolheu fazer capa com ele, em 2013. Obstinado, metódico, sensível, multifacetado, o jovem cientista chegou nessa altura às páginas dos jornais e aos ecrãs de televisão por ter desenvolvido uma ressonância magnética muito mais potente e eficaz na deteção do cancro que as até agora existentes. Mas a sua vida é muito mais do que o trabalho de bancada. Retrato de um homem singular

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

O dia 8 de agosto de 2012 terá ficado na memória de muitos portugueses. Nuns Jogos Olímpicos especialmente dececionantes para o País, a dupla Fernando Pimenta e Emanuel Silva cumpria uns 1 000 metros exemplares, na canoagem, e conquistava a única medalha para Portugal em Londres, a apenas 53 milésimos do ouro. «Na bancada da pista de Eton Dorney, chorei desde os 200 metros até ao final da prova. Não tenho vergonha de o dizer», conta Tiago Rodrigues, logo nos primeiros minutos da sua conversa com a VISÃO, a partir de Cambridge, em Inglaterra. «Hei de lembrar-me desse dia para sempre», continua. O dia 8 de dezembro deste ano também lhe ficará na memória e no currículo. Aos 36 anos, o cientista português publicou um artigo científico na revista de alto impacto Nature Medicine e a notícia espalhou-se à velocidade da luz. No trabalho, o investigador da Universidade de Cambridge descreve uma técnica de ressonância magnética que aumenta a sensibilidade do equipamento tradicional mais de dez mil vezes, o que permitirá monitorizar de perto a eficácia dos tratamentos de cancro e, eventualmente, diagnosticar novas situações. Jornais, televisões e rádios portugueses, mas também espanhóis e ingleses, noticiaram a descoberta. Durante todo o dia, o telefone de Tiago Rodrigues não parou de tocar.

As 1001 faces de Tiago

Uma das chamadas que mais o emocionou foi a de Rosa Mota. Tiago conheceu a campeã durante a sua «comissão de serviço» como adido olímpico da missão portuguesa, nos Jogos de 2012. «Ficámos muito amigos », conta. Selecionado pelos chefes da Missão Olímpica Portuguesa, Mário Santos e Nuno Delgado, para acompanhar os atletas nacionais durante a prova, sacrificou o mês de férias, mas não se arrepende. «Era um sonho de vida entrar no estádio, na cerimónia de abertura dos Jogos. E aprendi muito com os atletas. São pessoas com capacidades únicas, que têm de ultrapassar muitas vicissitudes e nem sempre recebem o devido reconhecimento.»

A mãe, Maria José Brandão, 59 anos, professora reformada, já se habituou às 1001 facetas do filho. «Só arranja hobbies que lhe dão trabalho», suspira. E sempre foi assim. Música, desporto, literatura. Às artes, vai buscar o alimento que sustenta a sua paixão maior, a ciência. Praticou karaté, durante muitos anos, modalidade que lhe ditou um lema para a vida: caráter, sinceridade, esforço, etiqueta e controlo. Do andebol recebeu o espírito de equipa, «fundamental» na investigação.

«Neste trabalho, tenho sido a cara mais visível, mas isto é o resultado do esforço de uma equipa multinacional. No grupo, temos um inglês, um galês, um finlandês e dois portugueses », apressa-se a esclarecer. Eva Serrão, 31 anos, a outra portuguesa do grupo, sente-se afortunada por lá ter ido parar. Médica radiologista, resolveu interromper a carreira clínica para se dedicar ao doutoramento para médicos das fundações Gulbenkian e Champalimaud. Segunda autora do artigo publicado na Nature Medicine, Eva Serrão pretende, durante o doutoramento, aplicar esta nova técnica de ressonância magnética à deteção do cancro do pâncreas, um dos mais assustadores. «Tem um prognóstico medonho: 94% das pessoas diagnosticadas vêm a falecer. Só com diagnóstico precoce é que se conseguirá fazer alguma coisa para mudar este cenário», sublinha.

Ver o tumor respirar

Não há muitos locais no mundo onde se possa fazer este tipo de investigação. Kevin Brindle, da Universidade de Cambridge, é considerado um dos líderes mundiais, nesta técnica. Quando terminou o doutoramento, no Instituto de Investigação Biomédicas, do Conselho Superior de Investigações Científicas espanhol, em Madrid, tornou-se claro para Tiago Rodrigues que era naquele grupo que queria trabalhar.

No estudo agora divulgado, os investigadores injetaram uma glicose polarizada (um açúcar modificado, sujeito a temperaturas próximas do zero absoluto) em ratinhos com linfoma e cancro do pulmão. E conseguiram ver o que acontece ao açúcar quando este entra no tumor. Há muito que se conhece a apetência das células cancerígenas pelas moléculas de açúcar é o princípio em que se baseia o funcionamento dos exames PET (tomografia por emissão de positrões). Só que, neste caso, consegue-se ver muito mais além, analisando o metabolismo inteiro.

«Consegue-se aumentar a sensibilidade da ressonância de 10 mil a 100 mil vezes», esclarece Carlos Caldas, 53 anos, médico e referência mundial na investigação do cancro da mama. «É como se estivéssemos a ver o tumor respirar», exemplifica o professor de oncologia da Universidade de Cambridge.

Para já, a grande vantagem está ao nível do seguimento dos doentes oncológicos. Ao fim de 24 a 48 horas, será possível perceber se o tratamento está a fazer efeito, se o tumor está a diminuir ou se será melhor mudar para outra opção terapêutica. «Há uma grande quantidade de doentes que fazem quimio e radioterapia e nos quais seria muito importante identificar, numa fase precoce, se a técnica está a resultar. Poderíamos poupar-lhes o sofrimento de uma quimioterapia que não faz efeito e também dinheiro», sublinha a médica Eva Serrão. «É um privilégio poder estar no desenvolvimento de uma técnica imagiológica verdadeiramente nova. Não acontece muitas vezes.» Além da análise funcional e metabólica, a técnica tem a vantagem de poder ser utilizada em grávidas, por estar isenta de radioatividade.

Carlos Caldas partilha o entusiasmo geral «é uma técnica muito promissora e excitante» mas deixa uma ressalva: «Ainda há muito a provar.» Até agora, efetuou-se um único teste em doentes com cancro da próstata. O oncologista participará noutro importante ensaio clínico, que deverá começar já no próximo ano. «Vamos usar a técnica para detetar a resposta do tratamento em cancro da mama, linfoma e glioblastoma.» No primeiro semestre de 2014, a técnica será testada em voluntários saudáveis e o trabalho com os doentes deverá começar na segunda metade do ano. A expectativa é que se consigam ver células a morrer.

O dispositivo também não poderá estar disponível em todas unidades de saúde, nota Carlos Caldas. «Exige uma unidade multidisciplinar, com um bom departamento de física e de imagiologia. Em Portugal, só consigo imaginar um equipamento destes a funcionar num ambiente universitário, como o de Lisboa ou do Porto», adverte. Além disso, a curta vida útil da glicose hiperpolarizada exige que aparelho e doente estejam no mesmo edifício, já que a janela de aproveitamento da molécula dura apenas alguns minutos.

Por mais promissora que seja - e uma boa medida do seu potencial é o interesse do gigante General Electric, que detém a propriedade intelectual da técnica -, Tiago Rodrigues sabe que ainda tem muito trabalho a desenvolver.

Um homem da sua terra

Nada que o assuste. É um otimista por natureza e está habituado a desafios. Com apenas 14 anos, decidiu deixar a sua terra, Paredes de Coura, para ir viver em Braga, onde a escola secundária tinha um corpo docente mais estável e bem preparado. «Sempre foi muito determinado. Só teve dificuldade de decidir a área», lembra a sua mãe. Os testes psicotécnicos também não ajudaram muito. «Dá para tudo, menos para trabalhos forçados», brincou quando veio da consulta com a psicóloga vocacional. Acabou por optar por Bioquímica, em Coimbra, para viver em pleno a vida académica. Passou por duas repúblicas e ainda hoje regressa à cidade, para os encontros anuais da República Bota Abaixo.

O médico Rui Macedo, de 36 anos, conhece-o desde a adolescência, das férias de verão passadas em Moledo. Reencontraram-se em Braga e foram juntos para Coimbra.

Conhece-o como a si próprio, mas, mesmo assim, não consegue entender o seu aparente dom da ubiquidade. «Não sei o que ele faz com o tempo. Apesar da distância, consegue alimentar as amizades.» A prática desportiva ficou para trás, mas o bichinho do associativismo uma herança dos pais, que participaram nos primórdios do Festival Paredes de Coura, na década de 70 mantém-se. Em Coimbra, dirigiu a associação cultural e desportiva Os Cravos Vermelhos. Hoje, faz parte da Parsuk Associação Portuguesa de Estudantes e Investigadores, no Reino Unido.

Outra paixão que o acompanha desde sempre é a rádio. Em criança, o professor de música avisou logo a mãe de que para aquilo ele não dava. Mas o prazer das ondas hertzianas ninguém lho tira. «Tenho o rádio ligado 24 horas por dia.» Um verdadeiro melómano, dizem os amigos. Atento ao mundo e a todas as formas de arte, parece manter intacta a capacidade de se espantar. Tudo isso alimentado por uma energia inesgotável, do género que chega a irritar os que o rodeiam.

Esta sede de viver levou-o a correr meio mundo. Com boas aventuras para contar.

Foi apanhado por um tufão, em Cuba; nos atentados do 11 de setembro, estava nos Estados Unidos; e quando explodiram as bombas da Al Qaeda em Madrid, vivia a 150 metros da estação de Atocha. «Os meus amigos já gozam e dizem que são de evitar os locais em que estou», brinca. Mas é em Paredes de Coura, aonde regressa para falar com o padeiro, o presidente da Câmara ou a antiga colega de escola, que se sente verdadeiramente em casa. «Quando volto a Coura, percebo porque sou como sou.»