Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Viagem ao fim da democracia

Mundo

  • 333

O país que "fechou" a democracia. O que acontece quando se corta as liberdades para responder à crise. LEIA A REPORTAGEM DOS ENVIADOS ESPECIAIS DA VISÃO, VEJA AS FOTOS E CONSULTE AS INFOGRAFIAS

'KIÁBRÁNDULÁS' - A palavra húngara para desilusão explica por que metade dos cidadãos declaram que não pretendem voltar a votar
1 / 10

'KIÁBRÁNDULÁS' - A palavra húngara para desilusão explica por que metade dos cidadãos declaram que não pretendem voltar a votar

JOVENS - Bálint contrariou a tendência: saiu da Hungria mas regressou para fundar uma ONG
2 / 10

JOVENS - Bálint contrariou a tendência: saiu da Hungria mas regressou para fundar uma ONG

JOVENS - Quem fica não quer falar de política
3 / 10

JOVENS - Quem fica não quer falar de política

BAIRRO CIGANO - Em Gyöngyöspata, uma pequena vila do Nordeste, a extrema-direita aterrorizou a vida dos habitantes
4 / 10

BAIRRO CIGANO - Em Gyöngyöspata, uma pequena vila do Nordeste, a extrema-direita aterrorizou a vida dos habitantes

BAIRRO CIGANO - János Farkas é um exemplo
5 / 10

BAIRRO CIGANO - János Farkas é um exemplo

O JORNALISTA - Balász Nagy Navarro era editor da TV pública. Foi despedido. Está em protesto desde dezembro, num acampamento improvisado à porta da MTV
6 / 10

O JORNALISTA - Balász Nagy Navarro era editor da TV pública. Foi despedido. Está em protesto desde dezembro, num acampamento improvisado à porta da MTV

O NACIONALISTA - Óscar Juhasz é um dos cinco autarcas do partido da extrema-direita, Jobbik
7 / 10

O NACIONALISTA - Óscar Juhasz é um dos cinco autarcas do partido da extrema-direita, Jobbik

CONTRASTES - Margit foi presa por recolher lixo e terá trabalhos forçados se a polícia a apanhar a dormir na rua
8 / 10

CONTRASTES - Margit foi presa por recolher lixo e terá trabalhos forçados se a polícia a apanhar a dormir na rua

CONTRASTES - Mas na galeria da brasileira Cláudia ainda sobrevive uma Budapeste cosmopolita
9 / 10

CONTRASTES - Mas na galeria da brasileira Cláudia ainda sobrevive uma Budapeste cosmopolita

KOZMUNKA - O Governo quer que os desempregados limpem as ruas e construam obras públicas
10 / 10

KOZMUNKA - O Governo quer que os desempregados limpem as ruas e construam obras públicas

Imagine um país da União Europeia com 10 milhões de habitantes, cansados da austeridade, do qual os jovens emigram. Um país onde János tem de limpar as ruas porque está desempregado; Aaron foi espancado na rua por ser filho de judeus; János M. foi despedido ilegalmente do tribunal de que era juiz-presidente; Balász não pode fazer jornalismo em liberdade; e todos os cidadãos recebem cartas do primeiro-ministro com um estranho código QR... esse país é a Hungria

János Farkas chega à porta do n.º 23, uma casa de dois andares, num outeiro mesmo no limite da vila de Gyöngyöspata, no coração vinhateiro da Hungria rural.

Estaciona o seu velho Seat Allambra azul-turquesa, sai por uma porta verde alface e convida-nos para sua casa. Metade do edifício está inacabado, com tijolos sem reboco, e a lenha amontoa-se num anexo cercado por lixo. Usa umas calças de fato de treino pretas, gastas e largas, que lhe caem sobre os sapatos pretos bicudos, sem graxa. Vem do trabalho.

Forçado.

Gyöngyöspata significa, em húngaro, "casco de pérola". Os Farkas, garante János, 58 anos, estão aqui "há 600 anos".

O patriarca atual limpa o lixo das ruas, cava valas e limpa as matas. Desempregado há quase duas décadas -como muitos milhares de húngaros, num país que, desde 1989, passou do pleno emprego para a segunda taxa mais baixa de emprego da Europa -, desde que a fábrica de roupas em que trabalhava, em Budapeste, foi privatizada, János foi dos primeiros a experimentar o kozmunka, "trabalho público", decretado pelo Governo de Viktor Orbán, no ano passado. Ele é um dos 400 mil desempregados, arregimentados para um gigantesco programa de obras públicas. Ao fim de 180 dias de subsídio, os desempregados são chamados. Se János rejeitasse, perderia o direito aos 80 euros que o Estado lhe paga. Se o seu trabalho, ou comportamento, não agradar pode perder o direito a qualquer apoio do Estado, durante três anos. O modelo é a China, assegurou Orbán, no final de junho de 2011: "Um país que não foi dominado pelas ideias ocidentais de esquerda, de que perder tempo com livros é a melhor maneira de melhorar os indicadores económicos. Ali, o trabalho é o pilar."

Sem futuro, língua traiçoeira

Ao mesmo tempo que decretava o kozmunka, o Governo baixava a idade da escolaridade obrigatória (de 18 para 16 anos). E estes são apenas dois exemplos das 350 leis, incluindo uma nova constituição (em janeiro) e 40 novas "leis cardinais", aprovadas por dois terços do Parlamento de Budapeste. Tudo isto desde que, em 2010, a Aliança dos Jovens Democratas (Fidesz) chegou ao poder.

A Hungria está em mudança.

"Entrámos numa espécie de máquina do tempo", resume, com pesar, Gáspár Miklós Tamás, 64 anos, filósofo, um dos mais reconhecidos intelectuais húngaros.

"Foi assim que Salazar começou." Numa língua, como o magiar, em que quase não existe a conjugação do futuro (o presente e o passado são as duas formas verbais por excelência), continua a haver uma palavra para desilusão: kiábrándulás.

Nos anos 90, saída de mais de 40 anos de "guerra fria" e regime de partido único, a Hungria olhava para a frente e via prosperidade. A entrada na União Europeia, em 2004, foi o culminar de uma ilusão que durou pouco. Em 2006, o primeiro-ministro socialista (do MSzP), Ferenc Gyurcsány, desabafou, numa reunião à porta fechada (mas cuja gravação chegou aos media), que ele e o seu partido tinham um segredo: "Obviamente, temos andado a mentir a toda a gente, no último ano e meio, dois anos." A austeridade que se seguiu, supostamente para acabar com as mentiras, levou grande parte da economia ao tapete.

A crise mundial, em 2008, fez o resto. Entrou a troika e, com ela, mais cortes, nesta sociedade proverbialmente melancólica (com uma das taxas de suicídio mais altas do mundo). O desemprego cresceu. Os fantasmas regressaram. Orbán percebeu o novo sentimento de fadiga do país.

Em abril de 2010, os socialistas, com 19,3% dos votos, foram varridos do mapa eleitoral. O Fidesz ganhou, com 52,7%, mas obteve, graças a um sistema eleitoral pouco proporcional, 263 deputados: dois terços do Parlamento. A extrema-direita, do Jobbik, teve quase 17% dos votos.

"Desde as eleições, o Fidesz tem cumprido, de facto, o programa da extrema-direita, ao mesmo tempo que garante que se opõe ao Jobbik", diz à VISÃO, Kim Lane Schepelle, uma das maiores especialistas na sociedade húngara. Kim é a diretora do programa de Leis e Políticas Públicas da Universidade de Princeton, nos EUA.

A Hungria tornou-se, em plena União Europeia, um caso de estudo. O primeiro Estado da UE a ser avaliado pelo Parlamento Europeu quanto ao cumprimento das regras básicas do funcionamento de um Estado de Direito (ver caixa).

A sondagem mais recente mostra que apenas um em cada três cidadãos húngaros voltaria a votar se houvesse eleições.

Ainda voltaremos a Gyöngyöspata, e à razão por que esta pequena vila de 2 600 habitantes, que nem sequer tem uma máquina multibanco, instalou uma câmara de videovigilância num poste virado para a casa de János Farkas. Por agora, sigamos Aaron, em Budapeste.

'Tens um nariz esquisito. És judeu?'

Aaron está a passear, na tarde quente de quarta-feira, 19 de setembro de 2012, nas ruas calmas de Buda (na margem esquerda de Danúbio, que, com Óbuda, a norte, e Pest, na margem direita, são, desde meados do século XIX, a capital da Hungria).

Tem os fones ligados e caminha "despreocupado ". São cinco da tarde. Um grupo de outros jovens (quatro ou cinco) aproxima-se: "Que nariz esquisito... Tu és judeu? " Aaron responde que sim, é filho de judeus, "e então?". Depois de quatro ou cinco minutos de insultos e encontrões, Aaron cai. "Estiveram algum tempo a dar-me pontapés, quando estava no chão. Um deles pisou-me a cara e partiu-me o nariz.

Algumas pessoas que assistiram ajudaram-me a chegar a casa. Desde essa tarde, acho que odeio toda a gente que se sinta orgulhosa, um bocadinho que seja, de ser húngara", revela o jovem, de 17 anos.

Aaron foi para a escola, no dia seguinte, com uma tala no nariz. Não tem medo de nos contar o que se passou. Mas não fez queixa na polícia. Oficialmente, quase não há registos, no país de condenados por "crimes de ódio".

Do mesmo se queixam os ativistas da associação Hátter, que apoia vítimas de violência e discriminação sexual. "A polícia desencoraja as queixas ao abrigo do 'crime de ódio'", diz-nos uma das dirigentes desta associação, socióloga, professora universitária, que prefere não ser identificada, com medo de represálias.

Encontramo-nos no Callas, ao lado da Ópera de Budapeste, um restaurante elegante, onde uma orquestra toca as animadas polcas e quadrilhas de Offenbach.

A mensagem destoa: "Temos uma linha SOS para receber denúncias de agressões a gays e lésbicas. Recebemos uma de 15 em 15 dias, em média." A maioria das agressões nem sequer é comunicada. O Parlamento húngaro discutiu se a homossexualidade era um "desvio". As marchas gays dos dois últimos anos foram proibidas pela Câmara de Budapeste (embora os tribunais tenham, em cima da hora, abolido a proibição).

Ninguém diria, passeando por Budapeste, que esta não é uma cidade cosmopolita e moderna.

'Pior que no comunismo'

Os 2 milhões de habitantes enchem os cafés , as esplanadas, os parques, as ruas pedonais.

A vida corre, como em setembro o Danúbio por baixo das pontes, serena.

Os carros avançam. Não há buzinadelas.

Se um condutor quer mudar de faixa pode sempre contar com a colaboração do carro que vem ao lado. Os húngaros, ao volante sabem bem como funciona uma comunidade: é preciso pensar nos outros.

Cláudia Martins veio do Brasil para a Hungria, há oito anos. Com uma amiga sérvia, inaugurou uma galeria de arte, que é também um café, uma tipografia e uma loja de roupas e acessórios feitos com borracha reciclada. A Printa fica a dois passos da sinagoga de Pest. É possível passar ao lado de toda a tensão, e violência, que cresce na Hungria? É, garante Cláudia. "Cada um na sua." Quando falamos com jovens de Budapeste sobre os sinais de intolerância, a primeira reação é defensiva. "Não me interesso por política ", repetem-nos.

Mas isso não é "nem cinismo nem apatia ", argumenta Kim Lane Schepelle, que viveu muitos anos em Budapeste. Perguntamos-lhe o que pensa deste estranho alheamento. "É uma adaptação à repressão.

" E acrescenta: "Aqueles que têm memória do período comunista contam que ser-se apolítico -evitar a política -era uma maneira de viver num regime impossível.

Muitos dos meus amigos que se lembram desse período dizem que, agora, se vive um momento ainda pior que nos anos oitenta.

Quanto aos jovens, manterem-se afastados dessa discussão é uma estratégia compreensível..." Enquanto a empregada do restaurante Borbíróság serve um pinot noir, de boa cepa húngara, no copo apropriado, Gáspár Miklós Tamás recosta-se na cadeira, cofia a barba branca, mexe nos suspensórios, sobre a t-shirt preta, e diz mais uma daquelas suas frases que ficam no ouvido: "Se eu tivesse 20 anos, estaria muito frustrado..." O filósofo, que foi um dos principais rostos do movimento pró-democracia nos anos 80, adianta que a única coisa que lhe tira a calma é a passividade.

"Mas eu posso falar. Escrevo nos jornais." A propósito, conta: "O meu filho mais velho, de 25 anos, é, ao contrário de mim, um tipo muito sociável. Tem um grupo de 50 amigos. Foram-se todos embora daqui.

Saíram para o estrangeiro. Não aguentam esta atmosfera." Não é essa a história de Bálint Misetics.

É um jovem, também tem 25 anos, e pôs uma mochila às costas quando acabou o curso superior. Foi para Berkeley, Califórnia, estudar sociologia. Doutorou-se em Oxford, em políticas sociais. E voltou a casa. Ou perto disso. Trocou o conforto da casa dos pais, classe média e bem-educada, pelo 8.º distrito, o único bairro de Pest que nos desaconselharam de visitar a pé. Basta atravessar a ponte Erszbét, sobre o Danúbio, desde o 1.º distrito, em Buda, para a esperança média de vida cair 12 anos. São dez minutos a pé. Este é o sítio escolhido por Bálint para instalar a associação A Cidade é de Todos, uma ONG para a auto-organização dos sem-abrigo. A praça onde Bálint mora chamava-se, até há poucos dias, da República.

Agora chama-se Papa João Paulo II. No jardim, passeiam-se pitbulls sem açaime.

Aqui funciona, desde 1888, o primeiro dos 17 asilos para os sem-teto da cidade. Fica na Rua Alfoldi, e Margit, 60 anos que aparentam ser bem mais, demora uma hora e meia a lá chegar, a pé, desde a sua barraca, nos arredores da capital.

A editora porno

Vem ganhar o dia, Margit, como tantos outros, trocando latas de bebidas vazias por florins, numa máquina de reciclagem que está no átrio do asilo. Duas latas, seis florins. Vinte cêntimos de euro. Traz um saco com umas vinte. E é cada vez mais difícil recolher as sobras dos outros, e das suas noitadas regadas a cerveja Soproni.

O Governo aprovou uma lei que criminaliza a recolha de lixo. Margit já foi presa por isso. "Nem me importei de ir para a esquadra. Estava quente (risos). Até perguntei aos polícias se podia lá passar a noite." Não pôde, nem sequer a multaram.

Levou "um aviso". Se tornar a apanhar lixo, terá de pagar 150 mil florins de multa. São mais de 500 euros. Trinta mil latas, na máquina de reciclagem. "É preciso ter cuidado .", diz-nos, com os seus olhos inocentes, digna, com um crucifixo ao peito, por cima de uma camisola de lã azul que lhe cai sobre uma gola alta bege, apesar dos 28 graus que estão na rua.

Quem consegue ser admitido numa das 220 camas do asilo da Rua Alfoldi fica a salvo de outra das novas leis: a que criminaliza a pernoita ao relento. São 480 euros de multa, ou dois meses de kozmunka, para quem for apanhado, por duas vezes, a dormir na rua, no espaço de seis meses.

Éva Preszl dirige, há 12 anos, o asilo da Rua Alfoldi. E sabe que as coisas "estão diferentes" ela resiste a dizer "piores".

Por isso abre as portas, e aumenta a lotação até ao limite humanamente suportável.

"Isto não foi construído para a crise atual.", deixa escapar, enquanto nos mostra, com orgulho, a arrumação em que Sándor, 60 anos, mantém o quarto 111. Numa prateleira, ao longo da cama, este ex-eletricista, surdo, alinha os seus produtos de higiene. Acima, há um quadro com árvores e um sol alaranjado.

Num cabide, uma impecável camisa azul, que Sándor engomou.

A complacência de Éva com a rigidez das regras é outro sinal de humanidade, neste edifício de paredes grossas como uma prisão. O cheiro, nos corredores, resiste ao detergente das esfregonas com que as residentes cuidam do asseio do chão. A lei, mais uma vez, diz que os sem--teto só podem usufruir de um serviço por dia, no asilo: ou comem, ou lavam a roupa ou tomam duche. Não é difícil perceber qual será a prioridade.

As leis aprovadas do Fidesz desafiam a ciência política: na Hungria há, agora, um "imposto de crise" sobre a banca, as telecomunicações e as empresas de distribuição, quase todas elas na mão de multinacionais; Orbán nacionalizou parte das empresas do setor energético, também estrangeiras; obrigou a banca a assegurar taxas de juro fixas (anteriores à crise) para as hipotecas de casas. É um duro com o FMI e com o BCE, que saíram recentemente de Budapeste sem qualquer acordo para um novo (e necessário) plano de resgate. O recado de Orbán à troika, no Facebook : "A esse preço (...) e dessa forma, não. Não precisamos de uma garantia financeira." Para substituir os euros do resgate, Orbán faz charme com as ditaduras do Cáucaso, com um olho nos empréstimos que não chegam..., em petrodolares do Azerbaijão e do Cazaquistão. E alimenta os poderosos da economia local. Acabou com o IRS progressivo, criando um imposto único (flat-tax) de 16%, que beneficia os rendimentos altos. Corteja os bispos católicos, a quem doou centenas de escolas públicas. Mudou os manuais escolares, incluindo autores antissemitas e pró-nazis.

"É um populista", resume Tamás.

No xadrez da política interna, são os socialistas que estão em xeque (ver entrevista a A. Mesterházy). Porque eram os socialistas que partilhavam o "aparelho de Estado". E, agora, Orbán não precisa de partilhar. Além da maioria no Parlamento, controla 93% das autarquias.

Pode, simplesmente, pegar em Annamaria Szalai, 51 anos, e levá-la da bancada do Fidesz, no Parlamento, para presidir à Autoridade dos Media, que é o novo organismo com poder para aplicar multas de 750 mil euros aos órgãos de comunicação social que pisem a linha da nova lei de imprensa, TV e internet (blogues incluídos).

Foi nomeada por nove anos, renováveis por outros nove, e só uma maioria de dois terços a pode destituir. Szalai era, nos anos 90, editora da Miami Press, uma revista de pornografia soft.

Não há registo de que Szalai tenha aplicado sanções, até agora. Não precisou.

A "autocensura", que o ex-editor de Internacional da TV pública (MTV), Balász Nagy Navarro, 45 anos, encontra nas redações, instalou-se. "Evitar falar de política é a forma mais eficaz de os media se defenderem", garante.

Até ao dia 27 de dezembro último, Balázs foi um dos mais reconhecidos jornalistas do país. A sua oposição às normas editoriais internas (nomeadamente a que proibia a divulgação de imagens da cara do ex-Presidente do Supremo Tribunal, Andras Baka, demitido pelo Governo) levou-o a iniciar uma greve de fome, como forma de protesto. Esteve 22 dias sem comer.

A meio do protesto, foi despedido por "comentários difamatórios contra a empresa". Desde então, calcula, foram dispensados 25% dos trabalhadores.

A porta principal da MTV está fechada.

Estamos nos arredores de Óbuda, o primeiro povoado romano na zona da capital, por ser ali que se encontram as águas geotermais que, desde então, fizeram a fama das piscinas de Budapeste. Os vestígios romanos veem-se à lupa, entre os maiores exemplos da arquitectura-dormitório soviética. Num só edifício, 3 mil apartamentos. A TV pública mudou-se para aqui. E à porta acampa o protesto, com duas rulotes, uma tenda, uma casa de banho portátil, uma mesa, duas cadeiras e vários aquecedores de esplanada. Balasz é o principal organizador desta vigília interminável, que só acabará quando a "liberdade de imprensa" regressar. Luta nos tribunais para ser reintegrado, mas dos tribunais falaremos de seguida... Os seus antigos colegas passam por ele e temem ser expansivos nos cumprimentos.

A autocensura é sempre mais eficaz que a repressão.

O juiz que votou em Orbán

Apesar de tudo, não há repressão visível, na Hungria. Mas a lei já a prevê. Chama-se TEK, e é uma nova polícia antiterrorista, chefiada pelo responsável da guarda pessoal de Orbán. "Poucos a têm levado a sério. Mas isso é um grande erro", garante Kim Schepelle, que conseguiu juntar as peças de várias leis para chegar à conclusão de que esta nova polícia pode fazer interceções telefónicas e buscas domiciliárias sem mandado.

"A separação de poderes já não funciona.

A Hungria é agora algo de muito parecido com uma ditadura." A frase é medida, palavra por palavra, pelo juiz János Mezódi, de 63 anos, sentado a uma mesa em Veszprém, a norte do lago Balaton.

János era o presidente da comarca, uma das 19 do país, e teve sob a sua alçada 350 juízes e casos tão complicados como o da responsabilidade na inundação de lamas tóxicas, há dois anos. Uma lei do Governo reformou-o compulsivamente, a ele e a outros 269 juízes, com mais de 62 anos, no passado dia 2 de março. Ao todo, metade dos juízes-presidentes e 10% do total de magistrados saíram por causa desta lei, que alterou o antigo limite de idade (70 anos) para a reforma. A justificação de Orbán: é preciso substitui-los porque estavam habituados à justiça comunista.

János confessa: "Votei no Fidesz, em 2010. Sou uma mistura de conservador e liberal. Estou surpreendido e chocado.

" János já ganhou um recurso (ele e outros 250), no Tribunal Constitucional, que considerou a lei "discriminatória".

Porém, tudo ficou na mesma. O Governo mudou a lei (a idade da reforma passou para 65 anos), mas os demitidos não foram reintegrados e já foram, quase todos, substituídos. "Passei a viver com menos 1 500 euros por mês. Ganhava 2 500, agora ganho mil, de pensão. Fui humilhado", lamenta, franzindo a testa em cinco rugas perfeitas, simétricas, arqueadas, por cima de cada um dos olhos. Mantém a pose formal, a gravata de riscas com o nó centrado.

"O mais trágico desta história é que não tenho esperança na Hungria." Espera ganhar no Tribunal Europeu de Justiça.

A presidente da Autoridade Judiciária, Tunde Handó, é a nova "chefe" da justiça húngara. Ela pode escolher o tribunal onde são julgados, por exemplo, os responsáveis socialistas, acusados de corrupção.

Também ela só pode ser demitida por uma maioria de dois terços. É amiga de Orbán, casada com Joszef Szájer, o dirigente do Fidesz que se gabou de ter escrito a nova Constituição num iPad.

As reformas da Justiça foram condenadas pelo Conselho da Europa e por todas as ONG independentes da Hungria.

Algumas destas novidades não são específicas da Hungria. Orbán vai buscar pedaços de leis dos 27 países europeus. Mas a mistura é "uma espécie de Frankenstein ", adverte um eurodeputado.

Terror em Gyöngyöspta

As "consultas" que o Governo faz aos cidadãos, por carta, perguntando o que acham desta ou daquela medida, essas parecem saídas de um romance de Orwell.

Qual é o mal de saber o que o povo pensa?, questionam os partidários de Orbán. Nenhum, exceto se aquilo que o povo pensa servir para alterar as leis eleitorais e dar ao Governo um mapa preciso dos seus apoiantes e dos seus adversários.

Cada uma destas cartas, com uma fotografia de Orbán, tem, no canto inferior direito, um código QR (para aceder a informação online). Com um telemóvel, "lemos" o código. E lá está a identificação de quem recebe a carta: com nome e morada.

É suposto que a carta seja respondida, e devolvida ao Governo. E assim se constrói uma base de dados com as opiniões, nada anónimas, dos cidadãos.

Por estes dias, só a extrema-direita parece ganhar terreno. Os táxis Nemzeti (Nacionais), fazem descontos a quem entrar e disser "szebb jövöt!" (por um futuro melhor), que é o slogan do Jobbik.

Muitos carros, incluindo o de Orbán, trazem, junto da matrícula, o símbolo da "Grande Hungria", o mapa do país antes de Trianon (que incluia parte da Eslováquia, um terço da Roménia e a Croácia), o tratado que penalizou a derrota do país na Primeira Guerra. Hoje, Trianon ainda é o símbolo das frustrações húngaras.

É a caminho da Eslováquia, que fica Gyöngyöspata. De carro, vindo de Budapeste, demora uma hora e pouco, numa autoestrada sem portagens, atravessando planícies sem fim.

Na rua principal de Gyöngyöspata, Oszkar Juhász abre a porta da Câmara Municipal, desce as escadas, e é na rua que agradece a presença dos jornalistas.

A conferência de imprensa, convocada pelo autarca, começa pouco depois das 13 horas de 27 de setembro, entre o estreito passeio e o alcatrão da estrada. Estão ali os principais mediado país, e a VISÃO, que pedira uma entrevista a Juhász e ouvira da sua boca uma evasiva: "Batam à porta, se me apetecer abro." Não foi preciso bater: Juhász começou por descrever uma tentativa de assassínio de que fora alvo, na noite anterior. "Vi um homem escuro quando ia a entrar no meu gabinete. Disparou dois tiros contra mim." O polegar enfiado no bolso das calças, quatro dedos espetados de fora; o cinto com o escudo de armas da Hungria; os olhos azuis desmaiados; tudo na pose do autarca é hirto, marcial. Os tiros falharam o alvo, explica, mas os buracos das balas estão numa parede, ali, a alguns metros, garante. Nenhum jornalista quer ir confirmar. Juhasz é um dos cinco autarcas do Jobbik.

O seu gabinete tem muitos caixotes de papel e quatro bandeiras da Hungria.

Uma quinta bandeira parece a da Hungria mas é, na realidade, a do Irão. Ao lado, encostado ao busto do ultranacionalista Miklós Horthy, o regente entre-guerras, está um pequeno cartaz de uma peregrinação a Qom, cidade santa do xiismo iraniano.

Juhasz é extravagante. E é por isso que János Farkas tem uma câmara de videovigilância apontada à janela da sua cozinha.

János é o patriarca da comunidade cigana da vila, que conta com 460 pessoas.

"Setenta e cinco saíram, pediram asilo ao Canadá." Desde que a autarquia passou para as mãos do Jobbik, em julho do ano passado, há mais uma turma de crianças ciganas segregadas na escola. Os "húngaros " têm aulas no primeiro andar, os "ciganos" no rés-do-chão. No "trabalho público", na vila, estão 30 ciganos e apenas cinco não-ciganos.

Em fevereiro último, deitaram fogo à casa onde János vive com 17 familiares, de três gerações. Daí os tijolos sem reboco, e o lixo que se amontoa no quintal. À entrada, num armário aberto, estão os sapatos da família: János, pai, János, filho, Beatrix, Zsolt, Klaudia, Krisztiaán, Klára e Klára Jánosné, a mulher do patriarca, mais os sete netos. São muitos pares de ténis.

Na cozinha bebemos um café. János fala alto e esbraceja. Parece o protagonista de Underground, de Emir Kusturica, em mais baixo, velho e corpulento. As duas gerações adultas da família fumam cigarro atrás de cigarro. A mãe Klára fuma, enquanto mexe um guisado na panela do fogão. A filha Klára fuma, enquanto passa a esfregona junto aos nossos pés. O pai János fuma, enquanto relembra abril do ano passado. "Fomos humilhados.

Tremíamos. Tínhamos medo." A extrema-direita acampou na vila de menos de 3 mil almas. Eram 8 mil skinheads.

Marchavam. Cantavam hinos. Tudo começou quando a Cruz Vermelha tentou realojar algumas famílias ciganas, que perderam as suas casas numa enxurrada, em duas habitações, numa rua vizinha, fora dos "limites" do bairro cigano. Oszkár Juhász liderou uma revolta contra a ideia de ter ciganos no centro da vila. O Jobbik conseguiu derrubar o autarca em funções, do Fidesz.

Nas eleições extraordinárias de julho seguinte, no ano passado, os partidos tradicionais não foram a jogo. Desistiram.

Juhasz conquistou 433 votos, menos do que a população cigana, e isso bastou-lhe para ganhar a Câmara (Farkas chegou a concorrer, mas desistiu).

No seu santuário de bandeiras, com braços pesados e olhos semicerrados, Juhasz diz que "os elementos criminosos" que pediram asilo ao Canadá não fazem falta em Gyongyospata. Fala de "inimigos nacionais e internacionais", rejeita qualquer conflito "étnico": "Há é tensão entre criminosos e cidadãos." E imagina a sua terra como "uma vila famosa pelo seu folclore, as suas igrejas bonitas, com várias lindas aldeias à volta, bom vinho e gente com trabalho".

É o seu sonho.

János Farkas, o cigano, também tem um sonho. "Estamos cansados, física e psicologicamente.

Mas não vamos sair daqui. Queremos lutar pela democracia."

Alarme: A missão de Rui Tavares

Uma delegação do Parlamento Europeu aterrou, segunda-feira, 24 de setembro, em Budapeste, para três dias de audições. Pela primeira vez desde que entrou em vigor o Tratado de Lisboa, os eurodeputados fazem um "exame" a um Estado da União, para concluir "se a Hungria satisfaz as leis e valores da UE". O Parlamento de Estrasburgo mostrou estar disponível para aplicar "as medidas necessárias, incluindo Artigo 7.º parágrafo 1.º do Tratado, que é usado em casos de risco evidente de violação grave dos valores comuns europeus." Rui Tavares é o relator escolhido pelos seus pares, para definir a estratégia face à "preocupante" situação na Hungria. Mas qualquer decisão precisa de uma maioria de dois terços . À porta fechada, os eurodeputados da Comissão LIBE (Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos), ouviram queixas sobre o regime de Orbán.

Mas um funcionário do Governo húngaro "infiltrou-se" em todos os momentos do programa oficial, mesmo aqueles que eram supostamente reservados. . À VISÃO, Rui Tavares esclarece que "não pode haver dois pesos e duas medidas, nem entre Estados, nem entre a importância dada às questões económicas e aos direitos fundamentais.

Se a UE falha as suas promessas, de democracia e liberdades cívicas, os fantasmas que estiveram escondidos podem regressar."

Duas perguntas a...

Attila Mesterházy, 38 anos, líder do MSzP (socialista), maior partido da oposição

'Na Hungria não há um Estado de Direito'

A nova Constituição considera o seu partido "herdeiro legal" do ex-partido comunista. Teme que seja uma tentativa de ilegalizar o MSzP?

Sim, tem razão. Olhe para mim: sou um autêntico comunista (risos). Tenho 38 anos.Em toda a direção do MSzP temos menos ex-ministros comunistas que o Governo de Orbán. O primeiro-ministro foi membro da organização de juventude do partido comunista, eu não fui. O pai dele era dirigente local do partido, o meu pai nem sequer estava inscrito no partido. Eles não conseguem melhorar a economia, não sabem lidar com a tensão social no país, e é por isso que tentam encontrar formas simbólicas de reagrupar os eleitores de direita. Especialmente os eleitores de extrema-direita. Na Hungria, não há, hoje, uma democracia real, um Estado de Direito. Há dois anos, nunca me passaria pela cabeça chamar ao primeiro-ministro, Viktor Orbán, "antidemocrático". Hoje, devo considerá-lo um populista sem limites, sem valores nem princípios.

O seu partido esteve no poder, nos oito anos anteriores a Orbán (2002-2010). Sente-se responsável pelo atual estado da Hungria?

Nós aprendemos a lição. Sabemos o que fizemos de errado. Em 2006, o primeiro-ministro do meu partido disse uma coisa na campanha e fez outra, oposta, quando estava no poder.

É claro que isso deixou as pessoas revoltadas.

Em 2010, Orbán fez o mesmo. O meu avô ensinou-me que, se mentimos, temos de ter sempre na cabeça a quem dissemos o quê. Não mentir torna tudo mais fácil...