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Sócrates vaiado no Parlamento Europeu

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José Sócrates viveu esta quarta-feira, em Estrasburgo, o momento mais agitado enquanto presidente do Conselho da UE, ao enfrentar uma manifestação de eurodeputados que exigiam referendos ao Tratado de Lisboa

No dia que classificou como o mais importante da sua vida política, o primeiro-ministro português foi forçado a adiar o início da sua intervenção no Parlamento Europeu e a interrompê-la, devido aos apupos e gritos de ordem de alguns deputados. O incidente ocorreu no Parlamento Europeu, durante a proclamação da Carta dos Direitos Fundamentais, que foi esta quarta-feira assinada no plenário de Estrasburgo pelos presidentes das instituições europeias, José Sócrates, Durão Barroso e Hans-Gert Poettering. Os eurodeputados da Esquerda Unitária - aos quais juntaram alguns de outras bancadas - vaiaram o presidente em exercício do Conselho, mostrando faixas a exigir a realização de consultas populares, enquanto gritavam "referendo, referendo". Em resposta ao protesto, os eurodeputados das restantes famílias políticas aplaudiram de pé José Sócrates, que durante a intervenção declarou que "por mais que muitos gritem, impedindo os outros de falar, esta é uma data fundamental da história europeia". A manifestação, promovida pelo Grupo da Esquerda Unitária, que integra as delegações portuguesas do PCP e Bloco de Esquerda, serviu para "tornar claro" ao presidente da Comissão Europeia e a José Sócrates "que não podem ignorar as opiniões dos cidadãos europeus na questão do futuro da Europa". No final, Sócrates mostrou-se pouco incomodado com os incidentes, alegando gostar "destes momentos parlamentares" e saber "bem o que os motiva: verdadeiramente aqueles deputados todos são contra a Europa", acrescentou. Satisfeito com o "grande apoio no Parlamento Europeu", o primeiro-ministro negou que a cerimónia tenha ficado manchada pela acção de protesto, justificando que "a Europa é uma Europa tolerante mesmo para aqueles que não têm boas maneiras ou que não as usam". O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, atribuiu os incidentes a "forças extremistas" que, "sempre que se fala de direitos fundamentais na Europa" ficam "nervosas". "Penso que de uma forma geral foi um contributo que acabou por ser positivo, visto que toda aquela agitação vai chamar ainda mais a atenção para a importância da Carta dos Direitos Fundamentais", declarou Durão Barroso. Já a delegação do PS ao Parlamento Europeu lamentou o que classificou como uma "estranha coligação entre a extrema-direita e o grupo comunista" e "uma acção de má-criação e falta de dignidade".  O deputado socialista e vice-presidente da assembleia Manuel dos Santos considerou ainda que "o primeiro-ministro reagiu muito bem às provocações e fez discurso muito interessante e consistente". Miguel Portas, eurodeputado do Bloco de esquerda admitiu ter participado no protesto, envergando uma "t-shirt" a reclamar consultas populares, por esse ter sido, no caso português, "um compromisso de todos os partidos que se candidataram à última legislatura". Por seu turno, Ilda Figueiredo, do PCP, afirmou apenas que em todas as suas intervenções sobre o Tratado Reformador faz "a exigência de um referendo", sem especificar se participou activamente na acção de protesto do Grupo de Esquerda Unitária. O presidente do Grupo da Esquerda Unitária, Francis Wurtz, condenou os incidentes ocorridos no Parlamento Europeu, considerando "anti-Europeias, chauvinistas e indignas" as vaias e algumas palavras de ordem escutadas durante o protesto. Na origem deste protesto está o processo de ratificação do Tratado de Lisboa, que será assinado quinta-feira na capital portuguesa, e que deverá ser referendado de seguida pelos 27 para entrar em vigor em 2009. A maioria dos Estados-membros prepara-se para um processo de ratificação parlamentar, por recear os riscos imprevisíveis da via referendária, que, em França e na Holanda, em 2005, ditou "a morte" da Constituição Europeia e levou à substituição desta pelo Tratado Reformador da UE, aprovado na Cimeira de Lisboa de líderes dos 27, a 19 de Outubro. A Irlanda é até agora o único Estado-membro que anunciou a intenção de organizar um referendo sobre o novo tratado. O governo português só anunciará a sua decisão após concluída a presidência semestral da União Europeia, a 31 de Dezembro.