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Nelson Mandela: Um homem magnânimo

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O adeus ao homem que transformou o apartheid em união racial, na África do Sul, num texto de Victor Ângelo, ex-secretário-geral adjunto da ONU (onde trabalhou mais de três décadas), consultor de assuntos internacionais e colunista da VISÃO

Victor Ângelo

Mandela significa o fim do apartheid. O regime de segregação racial foi oficialmente instaurado, como apartheid, na África do Sul, em 1948. A lei passou a classificar as populações em quatro alegados grupos raciais: os brancos, os indianos, os mestiços e os negros. Apenas os brancos tinham direitos políticos e cívicos plenos. Controlavam as estruturas do Estado, a produção de leis, a economia, incluindo 85% das terras, e a propaganda. A população negra foi, com o tempo, relegada para uma situação que a privava de cidadania no seu próprio país. Era obrigada a identificar-se com uma área geográfica que fora estabelecida com base em critérios tribais e a que o Governo racista chamava bantustões, uma espécie de Estados artificiais, que ninguém reconhecia, a nível da comunidade internacional. Para o poder minoritário, os negros tornavam-se, assim, emigrantes temporários nas zonas brancas, com um estatuto precário, que permitia a expulsão para as zonas étnicas, sempre que fosse conveniente. Era uma situação que entrava em choque com todos os princípios universais relativos aos direitos humanos, à igualdade entre as pessoas, assim como com todas as liberdades fundamentais que se haviam tornado apanágio dos Estados democráticos modernos. Além de procurar desumanizar a maioria dos cidadãos, o apartheid era igualmente um sistema ridículo. Lembro-me da primeira vez que fui à África do Sul. Estávamos em 1981. Numa altura em que existiam enormes problemas de aprovisionamento em Maputo, onde então vivia, peguei no carro e fui às compras na primeira cidade a sério do outro lado da fronteira: Nelspruit. Uma localidade que muitos conhecem por ser a porta de entrada na via para o Kruger Park. O meu primeiro destino foi um talho local. Ao chegar ao balcão, o dono pediu-me que saísse do estabelecimento e que voltasse a entrar, mas pela porta ao lado. Explicou-me que havia utilizado, certamente por erro, a entrada reservada aos negros. Assim fiz, e, instantes depois, estava de novo em frente do mesmo balcão, que só havia um, mas legalmente apto para ser servido.

Uma referência para Obama

Sem Mandela, em vez da transição pacífica que, de 1990 a 1994, desmantelou o apartheid e conduziu às primeiras eleições gerais na África do Sul, ter-se-ia assistido a um esfrangalhar do país. Ao que poderia ter sido um cenário de extrema violência entre as comunidades, de êxodo maciço da população branca e de descalabro da economia, Mandela propôs um processo que combinava democratização com reconciliação e justiça com paz. Com o prestígio e a força de carácter ganhos ao longo de 27 anos de prisão, conseguiu unir um país que tinha sido profundamente dividido durante décadas de apartheid e séculos de violência colonial. Outros teriam optado por posições extremistas e jogado as cartas mais fáceis da vingança e do ódio racial. Mandela recusou o populismo. Soube encontrar um equilíbrio, sempre difícil de atingir, entre o respeito pelos princípios e o pragmatismo. Mostrou, assim, estar noutro patamar, onde só chega quem tem confiança em si e acredita que o diálogo e a persuasão são os pilares essenciais da luta política dos tempos modernos. O Prémio Nobel da Paz, que lhe foi atribuído em 1993, e que Mandela recebeu de mãos dadas com o outro laureado, F. W. de Klerk, o último Presidente do período minoritário e também ele um homem corajoso, reconheceu exatamente o cunho excecional da maneira de fazer política de Nelson Mandela.

Os muitos anos passados na prisão, incluindo os 18 sofridos no isolamento da penitenciária de Robben Island, ao largo da Cidade do Cabo, foram utilizados por Mandela para refletir sobre os valores morais que iriam definir a sua maneira de estar na política, quer durante o período das negociações com o regime minoritário (1985-1990), quer durante a transição que levaria ao fim do apartheid (1990-1994), quer ainda durante os cinco anos em que esteve na chefia do Estado (1994-1999) e depois. Esses valores deram-lhe, igualmente, uma projeção mundial. Mandela passou a ser a referência e a fonte de inspiração para outros políticos de grande craveira internacional, incluindo Barack Obama. Creio poder resumir esses valores com meia dúzia de palavras: profundo respeito pelos outros, amigos e adversários, e magnanimidade. Quem teve o privilégio de se encontrar com ele, na cadeia ou no palácio presidencial, e, mais tarde, no recolhimento dos últimos anos da sua vida, ficou para sempre com a imagem de um homem sincero, simples, terra a terra, generoso, digno, corajoso e circunspecto. Era possuidor de um enorme carisma, que o impunha de modo natural. A sua presença exercia um ascendente que engrandecia quem com ele interagisse. Possuía aquilo que ele mais admirava num homem público: "a combinação de talento e humildade, de ser capaz de estar à vontade quer com os pobres quer com os ricos, com os fracos e com os poderosos, com a gente da rua ou com a realeza, com os jovens e os velhos, com os homens e as mulheres de bom senso, independentemente da sua raça ou cultura" (do livro Conversas Que Tive Comigo, de Nelson Mandela).

Mestre na arte do compromisso

Enquanto líder político exemplar, Mandela ensinou-nos que a arte do compromisso, no sentido de acordo político, é a característica essencial de uma boa liderança. A questão da liderança constituiu um tema central no pensamento de Mandela. Acreditava que o sucesso ou o fracasso de qualquer processo político complexo, que ponha em causa a unidade nacional, depende da qualidade dos líderes políticos. Para ele, uma boa liderança é a que consegue chegar a entendimentos estratégicos com os adversários e salvaguardar a paz e a estabilidade, sem esquecer a justiça social. "O verdadeiro líder tira vantagem de qualquer questão, mesmo das mais graves e delicadas, para se assegurar que, no fim da discussão, todos saem mais fortes e mais unidos que antes", disse um dia Mandela. O ponto de partida do seu pensamento assentava na premissa de que ninguém, à partida, tem inteiramente razão ou está totalmente errado. O verdadeiro líder procura atenuar as tensões. Os extremistas, de qualquer bordo ou convicção, têm a habilidade de se aproveitar das tensões, das crises, das emoções primárias, das paixões nacionalistas ou de grupo, são os inimigos jurados do pensamento racional. Fazendo o paralelo com a situação portuguesa de hoje, esta maneira de ver as coisas deveria fazer-nos reflectir.

Ainda sobre a liderança, tive a oportunidade de várias vezes lembrar a amigos meus e a outros em posições de autoridade, em várias partes do mundo, que Mandela dizia que um erro frequente dos dirigentes que não são verdadeiros líderes é o de serem alérgicos a qualquer tipo de criticismo. Sempre ouvi dizer que Mandela estimulava as trocas de opiniões, sem medo nem barreiras. Dizia mesmo que é "um erro grave para qualquer líder ser demasiado sensível perante o criticismo". Estou de acordo com esta maneira de ver. E muitas vezes repeti, parafraseando Mandela, que a prova dos nove de um bom líder consiste em ser capaz de se rodear de colaboradores que tenham a coragem de o criticar, quando for caso disso. Infelizmente, se olharmos à nossa volta, em Lisboa, ou fora de portas, a começar pelas instituições europeias e a continuar nas internacionais, os conselhos de Mandela parecem ter caído em orelhas moucas. Os pequenos líderes que nos governam preferem estar rodeados de yes-men, a expressão estrangeirada que define a atitude bem nacional do lambe-botas.

Para Mandela, o verdadeiro líder deve ser visto pelos cidadãos como alguém que fala de um modo responsável, sem demagogias nem tiradas inflamadas ou irritações desbocadas. Costumava repetir, talvez para que gente como Jacob Zuma e outros o ouvissem, que a liderança exige constância, um profundo sentido de probidade e uma visão generosa do futuro. 

Presidente contra a vontade

Mandela aceitou ser Presidente em 1994 contra a sua vontade, uma vez que achava que, aos 76 anos, era demasiado velho e pouco conhecedor do mundo para além da África do Sul. Acabou por acatar a decisão do ANC, o African National Congress, partido que simbolizava, mais do qualquer outro, a luta contra o apartheid. Acedeu, em grande parte por razões de interesse estratégico, pois não via um outro líder que conseguisse obter o consenso nacional que ele reunia, mas também por motivos de disciplina partidária. Mandela acreditava que a disciplina é essencial, quer na vida privada quer na ação pública. Uma vez eleito, uma das primeiras declarações que fez foi para confirmar que seria Presidente apenas por um mandato.

Mandela nunca se esqueceu das suas raízes, no Transkei, na Província do Cabo Oriental. Provinha de um ramo lateral da família real da região e manteve, durante toda a sua vida, uma enorme deferência pelas autoridades tradicionais. Era um homem moderno, virado para o futuro, mas que nunca perdeu a ancoragem ancestral nem rejeitou a sua cultura africana de origem. Patriarca de uma extensa família, pai de seis filhos, Mandela ficou, em diferente fases da sua vida, muito marcado pelas três mulheres com quem casou. A primeira esposa, Evelyn Ntoko Mase, era uma ativista de uma igreja cristã, oposta ao militantismo político do marido. O casamento estava condenado, por isso, à rutura. Divorciado, Mandela voltou a casar-se, desta vez com  Winnie Zanyiwe Madikizela. Durante anos, o amor e a proximidade política entre ambos permitiram ultrapassar muitos obstáculos de vária natureza. Porém, ao sair da prisão, Mandela havia evoluído num sentido que não correspondia ao radicalismo militante e inconsequente de Winnie, nem às suas ambições pessoais. Foi um grande choque sentimental para Madiba, o nome que fora inicialmente utilizado pelo seu clã e que passou, de modo carinhoso, a ser a outra maneira de designar Mandela. Acabaram por se separar, dois anos depois, em 1992. Em 1998, no ano do seu 80.º aniversário, Mandela voltou a casar-se, desta vez com Graça Machel, a viúva do primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel. A nova esposa era uma mulher com uma visão global da vida e da política, culta e viajada. Quando Madiba a encontrou, pela primeira vez, em Maputo, ficou muito impressionado pela personalidade de Graça Machel. Os últimos anos da sua vida, na companhia da sua terceira mulher, foram anos felizes e tranquilos. E isso apesar de algumas preocupações, umas expressas em público, como as relativas ao flagelo do sida na África Austral, outras, em privado, sobre as fraquezas e a corrupção de certos dirigentes de hoje da África do Sul. Foi um período final de quietação do velho guerreiro, um senhor fora de série que aprendera, atrás das grades, que o sucesso na política exige, aos grandes líderes, desprendimento e nobreza de sentimentos.