Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Mudanças automáticas

Mundo

  • 333

Associated Press

A VISÃO esteve num dos maiores comícios de Barack Obama nesta campanha

Quando, nas longas filas de espera para entrar no Jiffy Lube Live (em Bristow, Virginia) vimos várias pessoas literalmente enroladas em cobertores começámos a questionar se estaríamos mesmo preparados para uma espera de várias horas. Eram quase 19h. do último sábado, 3, e havia gente por ali desde as 14h., à espera de conseguir um bom lugar para ver o presidente Barack Obama, o ex-presidente Bill Clinton e o músico Dave Matthews. Mas a chegada do candidato democrata só estava prevista para as 22h30, no fim de um dia cheio - antes de chegar à Virginia, Obama já tinha estado em campanha no Ohio, Wisconsin (com o apoio da cantora Katy Perry) e Iowa. Para esta noite estava prometido um dos maiores comícios do ano. Afinal, a Virginia continua a ser, a poucos dias das eleições, um dos mais indefinidos estados norte-americanos, com republicanos a democratas a lutarem até ao fim pelos 13 votos no colégio eleitoral - em 2008, a onda Obama pintou de azul este estado que votava maioritariamente nos republicanos desde 1964 ("Let's keep Virginia blue!" seria um dos slogans da noite).

O auditório - ao ar livre, mas parcialmente coberto, e aparentemente no meio de lugar nenhum - foi enchendo ordeiramente até albergar 24 mil pessoas, invariavelmente bem agasalhadas para enfrentarem uma noite de frio seco e cortante. Sabíamos que o ambiente ia aquecer, mas os minutos demoravam a passar. No público, que só se manifestaria ruidosamente nos momentos dos discursos, uma mistura de famílias com gente de todas as idades (diríamos que é a "classe média" que tanto ocupa os discursos de Obama) e, por todo o lado, muitos voluntários da campanha democrata.

A primeira voz a fazer-se ouvir na tribuna - à frente de uma gigantesca bandeira dos EUA - foi a do congressista Gerry Connolly, que rapidamente pôs a multidão a rezar em coro, num surpreendente momento de fervor religioso que simbolicamente abriu o evento. Ouviríamos, ainda, a virginiana Miss América 2010 (Caressa Cameron, para que conste) a cantar com estridência o hino norte-americano The Star-Spangled Banner, o ex-governador da Virginia e candidato ao senado Tim Kaine, e algumas canções de Dave Matthews (aqui sem a Band, apenas acompanhado pela sua guitarra). Uma organização precisa ia aquecendo a noite. Mas foi preciso as colunas de som anunciarem a chegada do President Bill Clinton para sentirmos que estávamos num comício e na reta final de uma campanha muito disputada. Em contraste com a gritaria generalizada, a voz do antigo presidente democrata (entre 1993 e 2001) surgiu débil, rouca, a momentos quase afónica (gasta "ao serviço do presidente", brincaria). Nada que o impedisse de ser ouvido pela multidão e de assegurar que está "ainda mais entusiasmado agora do que há quatro anos". Não poupou nos elogios ao presidente Obama, um "bom decisor" que põe "a cooperação" à frente das "lutas ideológicas"; e disparou algumas setas contra Romney, ironizando sobre a sua (falta de) capacidade de decisão e denunciando a manobra eleitoral em que o candidato republicano sugeriu que a Chrysler deixaria de fabricar os seus Jeeps no Ohio, preferindo a China ("I took it personally", diria, lembrando que foi na sua presidência que essa fábrica começou a funcionar). Os gritos de apoio e as palmas para Bill Clinton foram tantos que não se diferenciariam muito, em volume, dos que se ouviriam pouco depois, com a chegada, sem grande atraso, de um Barack Obama sorridente. Entre discursos, um dos slogans mais gritados é "Four more years!" ["Mais quatro anos!"] que combina com a palavra "Forward" ["Em frente"] escrita a branco em centenas de cartões azuis.

É claro que Obama repete o que tem dito nos comícios anteriores, muitas vezes com as mesmas frases - não há muita margem para improvisos nesta gigantesca máquina interestadual. Mas consegue fazê-lo, e isso é um dos seus grandes talentos enquanto orador para multidões, como se dissesse tuo pela primeira vez (ou a segunda, vá lá, o que já é muito bom). Não se esqueceu de começar com uma palavra para as vítimas da tempestade Sandy (cujas consequências ainda estão longe de serem passado), apelando à união: "We are in this together!".  E ao longo de quase meia hora, sublinhou que, nestas eleições, estão em causa "duas visões da América". Tentou desmontar o apelo de Romney para a "mudança", recuperando esse conceito para a sua candidatura ("we know what's change!"), e acusando o seu concorrente de, como bom homem de negócios, estar apenas a "reempacotar ideias velhas". Obama sabe gerir os altos e baixos do discurso em piloto automático, sem esforço - "You know me!", diz, e a multidão grita; "Who do you trust?", pergunta, e a multidão responde; "You've got the power!", dispara, e a multidão exulta. Na última frase do discurso diz aquilo que qualquer norte-americano, seja democrata ou republicano, gosta de ouvir: os EUA são "the great nation on Earth". Os melhores do mundo. Ninguém ali parece duvidar, nem por um segundo.

Quando, entre abraços e sorrisos, Obama desaparece atrás da gigante bandeira das riscas e estrelas, a noite gelada regressa. E nós, back to route 66 (essa mesmo, que rasga o país duma costa à outra) deixamos aquele lugar nenhum tão americano e, também quase em piloto automático, regressamos a Arlington, também na Virginia, com vista sobre Washington DC, lugar de todas as ambições. Falta um dia para as eleições, e nenhuma sondagem é conclusiva quanto ao novo ocupante da Casa Branca.

* O jornalista Pedro Dias de Almeida está em Washington DC ao abrigo do programa José Rodrigues Miguéis da FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento)