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'Manter a Catalunha nesta Espanha seria a decadência absoluta'

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Lucília Monteiro

Governou a Catalunha durante 23 anos e foi condecorado duas vezes pelo Estado português. Jordi Pujol acusa o Governo espanhol de querer reduzir os catalães a um papel "residual"

Conviveu com Spínola e Sá Carneiro. É amigo de Mário Soares, conhece "muito bem" Balsemão, privou com Cavaco e Durão Barroso. Jordi Pujol, o homem que governou a Catalunha durante 23 anos, recebe-nos no seu gabinete, situado na luxuosa avenida Passeig de Grácia, em Barcelona. Diariamente, não prescinde da leitura do Corriere dela Sera, do Le Monde e do Frankfurter Allgemeine. "O mundo ainda sabe pouco sobre o nosso país, mas está a olhar com espanto e curiosidade para o que se está a passar. Nos últimos dias, dei entrevistas ao Financial Times, à BBC e ao jornal austríaco Die Presse", diz-nos Pujol, durante uma conversa que interromperá várias vezes para pedir aos seus assessores alguns dos discursos e livros editados pelo Centro de Estudos que leva o seu nome. Quer saber novidades de Portugal, pergunta por Soares. Dizemos-lhe que anda muito ativo contra as políticas do Governo e a troika. "Ele tem a política nas veias e isso vai ser assim até morrer. Gosto muito dele." Fala-se da fundação do ex-Presidente da República, que também sofreu cortes por parte do Estado. "A mim também me cortaram verbas para o Centro de Estudos, mas que vou fazer? Quando estão a cortar subsídios de Natal e a fazer despedimentos, vou queixar-me de quê?", desabafa, resignado. No final, sempre amável, leva-nos à porta, sem antes deixar uma última mensagem.

Qual foi o legado da sua presidência?

Depois de perseguidos por uma ditadura muito anticatalã, quisemos refazer a Catalunha. A dúvida era saber se podíamos fazê-lo dentro da Espanha. O nacionalismo catalão, em que sempre militei, nunca foi independentista. Pretendíamos que a Espanha progredisse democraticamente e que a Catalunha tivesse nela a sua plenitude institucional como Estado-nação. Durante uma série de anos, pareceu-nos possível, mas as coisas mudaram.

Negociou e fez acordos com chefes de Governo como Suárez, González e Aznar. O que se alterou, entretanto?

Durante muitos anos, a Catalunha deu um contributo positivo e decisivo para o progresso da democracia espanhola. Contribuiu para a mudança social e económica e a integração europeia. Mas a Espanha regressou ao centralismo político. Quis uniformizar questões culturais e linguísticas e impôs à Catalunha um regime político e financeiro de asfixia, tentando que o catalão desaparecesse.

O que mudou para que a independência seja hoje uma ideia tão forte na Catalunha?

Diante da agressão espanhola, a Catalunha também refletiu e evoluiu. Há um distanciamento em relação à Espanha e uma maior confrontação. A manifestação do último 11 de setembro foi clamorosa. Foi a mais importante da nossa história.

Disse, recentemente, que a independência é improvável...

É muito difícil. Mas mais difícil, ou mesmo impossível, é manter um país como a Catalunha dentro da Espanha atual. Se isso acontecesse, entraríamos na decadência absoluta.

A Espanha 'rouba' a Catalunha?

Eu nunca disse isso, utilizei termos mais suaves. A verdade é que cerca de 8,5% a 9 % do nosso PIB fica fora da Catalunha. E isto, em momentos de crise como este, é insuportável.

A relação entre a Catalunha e o Governo de Madrid está muito extremada. Ainda acredita num acordo?

Até há pouco tempo, tentámos encontrar um caminho intermédio, que nos permitisse continuar a ser catalães e sê-lo de uma forma positiva, dentro de Espanha. Também se colocou a hipótese de uma autonomia muito ampla como a do Quebec, mas tudo isto já não é possível, rompeu-se. O que se passará depende das eleições de dia 25. Ou as posições se distanciam mais ou as partes tentam revitalizar o diálogo, que, por agora, não existe.

Aznar receia uma rutura social na Catalunha...

O PP de Aznar sempre fomentou o sentimento anticatalão. A Espanha está a fazer tudo para que haja uma rutura social. Por agora, não existe, mas atenção: estes processos são complicados, as pessoas interrogam-se. A Convergencia i Unió (CiU) sempre defendeu o nosso encaixe dentro de Espanha. Mas sentiu-se rejeitada. A sentença do Tribunal Constitucional, em 2010, que, a propósito do Estatuto da Catalunha, negou a possibilidade de darmos preferência à língua catalã, de termos um poder judicial autónomo e ampliarmos as nossas competências fiscais, foi uma decisão num sentido centralista e da homogeneização da Espanha. Querem que sejamos residuais.

A CiU não foi ultrapassada pelos acontecimentos?

Temos dado um grande empurrão ao objetivo soberanista. Queremos que a Catalunha seja um país soberano. Mas isso pode ser conseguido com ou sem independência. Tentámos um novo acordo fiscal, mas a situação financeira a que a Espanha nos submeteu torna impossível o funcionamento da Catalunha. Por isso, os catalães irão decidir em referendo o que querem. E sobre isso, não há volta atrás. Teria de haver uma vontade autêntica da Espanha para negociar. E, até agora, não houve.

Que tipo de pessoa é Artur Mas, o presidente da Catalunha?

É uma sorte para a Catalunha ter, neste momento, um presidente como Artur Mas. A crise tornou tudo muito mais difícil, é uma época em que os políticos fazem o que podem ou o que lhes mandam. Rajoy ou Passos Coelho que o digam. O importante não é saber o que podem fazer, mas como fazem. Pede-se que um político atue com seriedade, sem demagogia, sem enganar. Que seja valente, não se esconda. Artur Mas é esse político.

Será fácil, num cenário de independência, integrar a Catalunha na União Europeia?

Pode demorar três meses ou três anos, mas entrará. A Croácia, o Montenegro e a Eslováquia também estão à espera, mas entrarão. Temos uma economia mais ou menos semelhante à portuguesa. Seria um rude golpe para a Espanha.

B.I.

Jordi Pujol, nascido há 82 anos em Barcelona, governou a Catalunha durante 23 anos (1980-2003) e foi líder da coligação CiU (Convergencia i Unió). Esteve preso durante o franquismo e foi médico de profissão. Como político, é uma espécie de Mário Soares da Catalunha. Fala seis línguas, tem vários livros publicados e dedica-se, atualmente, ao seu Centro de Estudos