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Jogos de poder divinos

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Bento XVI é o Papa mais velho desde 1903 e a sucessão parece estar a desenrolar-se à frente dos seus olhos 

O Papa deixou a Roma dos "espiões", dos "corvos" e das intrigas e foi ao encontro dos fiéis. Depois dos escândalos que marcaram as últimas semanas, Bento XVI desmultiplicou-se em declarações surpreendentes. Durante o VII Encontro Mundial das Famílias, reafirmou a importância do celibato dos homens de Deus e da "virgindade das freiras", e reiterou a oposição ao aborto e à eutanásia. Disparou contra as teorias económicas modernas, e o neoliberalismo, que não deixam espaço para "a família tradicional" e surpreendeu ao afirmar que "os divorciados são parte da Igreja".

Mas, no Vaticano, enquanto Bento XVI dá sinais da idade - aos 85 anos é o mais velho Papa desde 1903 -, muitos preparam-se já para a sucessão. Sobretudo por o próprio ter admitido, em 2010, que renunciaria ao lugar se não se sentisse com capacidade para desempenhar as funções. E o caso Vatileaks parece esconder uma guerra interna pela influência na escolha do próximo líder da Igreja Católica.

A conspiração

O mordomo do Papa, Paolo Gabriele, detido na quarta-feira, 23 de maio, por presumivelmente ser um dos responsáveis pela fuga de documentos confidenciais do Vaticano, será apenas um peão numa campanha maior que envolve importantes cardeais e bispos.

A imprensa italiana refere-se a "uma revolta dos monsenhores" contra o atual n.º 2 de Bento XVI, Tarcisio Bertone. O homem que foi escolhido para liderar a Curia (o Governo da Santa Sé), é criticado pelos seus opositores por se aproveitar de um Papa - que, segundo relata um bispo ao diário La Stampa, "está isolado, recebe informações filtradas e não se preocupa com a governação" - para aumentar a influência que terá no processo da sucessão.

Acusam-no de ter direcionado o Sumo Pontífice na escolha dos cardeais votantes no próximo conclave, uma vez que seis dos 18 novos nomeados trabalham diretamente para o cardeal Bertone, na Curia. Os vatileaks que têm chegado aos jornais transalpinos -  sobre o autoritarismo, corrupção, falta de transparência e má gestão do secretário de Estado do Vaticano e alguns dos seus aliados - serão uma forma de desacreditar e enfraquecer a autoridade de Bertone e fazem parte daquilo a que o diário La Repubblica chama já "um golpe de Estado". Mas este ataque tão bem coordenado e planeado contra "o primeiro-ministro" da Santa Sé não pode, para muitos, partir apenas de simples mordomos ou funcionários. Quem a imprensa italiana parece apontar como o cérebro por trás desta luta pelo poder é o antigo homem-forte do papado de João Paulo II, o cardeal Angelo Sodano.

Os 'vatileaks'

O primeiro documento secreto a ser publicado, em janeiro de 2012, foi uma carta dirigida ao Papa por monsenhor Carlo Maria Vigano, que era um administrador para os assuntos internos do Vaticano. Nessa missiva, Vigano queixava-se de ter sido afastado do seu cargo e colocado como embaixador nos EUA, contra a sua vontade, por ter revelado que viu vários casos de corrupção nos negócios entre a Curia e empresas italianas.

O escritor Gianluigi Nuzzi, que publicou o livro Sua Santidade, baseado nas informações secretas que recebe de dentro do Vaticano, explica que monsenhor Vigano era próximo do cardeal Angelo Sodano e que o seu afastamento terá sido uma das várias jogadas de Tarcisio Bertone para proteger o seu poder.

Mas, agora, a estratégia de desacreditação pública do atual "Governo" parece estar a produzir efeitos. Soube-se, sexta-feira, 25, que o chefe do Instituto para as Obras da Religião (banco central do Vaticano), Ettore Gotti Tedeschi, foi despedido. O banqueiro, que tinha sido escolhido pessoalmente por Bertone, era outro dos alvos das fugas de informação - que mostravam pouco esforço da sua equipa no sentido de garantir maior transparência financeira do banco.

Entre os documentos tornados públicos, estava também uma carta onde um bispo, sob anonimato, confessava saber de um plano para assassinar o Papa. Mas a veracidade desta carta privada não foi confirmada.

Esperam-se novos desenvolvimentos desta batalha pelo poder. Mais de 20 "corvos" continuarão a soprar à imprensa. E o mordomo, Paolo Gabriele, já prometeu cooperar com as autoridades e contar tudo o que sabe, incluindo nomes.

Uma carta que chegou aos jornais ameaça que, enquanto Tarcisio Bertone e o secretário pessoal do Papa, Georg Gänswein, se mantiverem nos seus cargos, a revelação de documentos privados continuará. O jornal La Stampa prevê que o atual secretário de Estado seja afastado até ao final do ano, por essa ser a única forma de estancar as fugas de informação sensível que têm enfurecido os fiéis. Mas Bento XVI, apesar de se confessar triste devido aos acontecimentos, já renovou publicamente a confiança nos seus colaboradores mais próximos.

Protagonistas: Luta de cardiais

Cardeal Tarcisio Bertone: Italiano, 77 anos. Secretário de Estado do Vaticano desde 15 de Setembro de 2006. Carreira como académico na Santa Sé. Criticado por dizer que a pedofilia está ligada à homossexualidade. Escreveu que admite o aborto em circunstâncias excecionais. Propôs a excomunhão dos traficantes de droga e a criação de uma equipa de futebol do Vaticano.

Cardeal Angelo Sodano: Italiano, 84 anos. Ex-secretário de Estado do Vaticano entre 1991 e 2006. Carreira como diplomata na Santa Sé. Embaixador no Chile, durante dez anos, onde se tornou amigo do ditador Pinochet. Criticado pelo seu papel ativo no encobrimento dos escândalos de pedofilia na Igreja Católica. Tradicionalista quanto aos meios contracetivos e aborto.