Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Gurus da revolução solidária

Mundo

  • 333

Influenciam governos, organizações internacionais e vedetas como Angelina Jolie, George Clooney e Bono. Retrato e obra de algumas individualidades que nos ajudam a perceber o atual estado do mundo e que andam, há anos, a denunciar a injustiça e as desigualdades globais

Amartya Sen 'A Madre Teresa da Economia'
1 / 8

Amartya Sen 'A Madre Teresa da Economia'

Paul Collier O professor guerreiro
2 / 8

Paul Collier O professor guerreiro

Esther Duflo Contra 300 pobrezas
3 / 8

Esther Duflo Contra 300 pobrezas

David Graeber O antropólogo anarquista
4 / 8

David Graeber O antropólogo anarquista

Muhammad Yunus O 'pai do microcrédito'
5 / 8

Muhammad Yunus O 'pai do microcrédito'

Bill Drayton O ‘empreendedor social’
6 / 8

Bill Drayton O ‘empreendedor social’

Jeffrey Sachs A estrela rock da ajuda
7 / 8

Jeffrey Sachs A estrela rock da ajuda

Joseh Stiglizt O Nobel do protesto
8 / 8

Joseh Stiglizt O Nobel do protesto

(leia os perfis em baixo) 

À visão de que o mundo é cada vez mais injusto, eles respondem com propostas de mudança, desenvolvimento e solidariedade. São os líderes intelectuais da "cidadania global" - por vezes identificada como o "terceiro setor", na medida em que não visa o lucro, nem é público - que, nos últimos 30 anos, e particularmente nos últimos dez, tem crescido exponencialmente.

Há duas décadas, por exemplo, havia apenas uma organização ambiental na Indonésia, hoje há mais de 2 mil. No Bangladesh, mais ou menos no mesmo período, foram criadas mais de 20 mil organizações de combate à pobreza, ajuda ao desenvolvimento, controlo de doenças, etc., incluindo o microcrédito, que se tem revelado uma arma eficaz para ajudar os mais pobres dos pobres do globo. Nos Estados Unidos, surgiu a Ashoka, responsável pela criação da noção de "empreendedorismo social" e pela descoberta dos seus principais atores, em todo o globo. A VISÃO escolheu oito dos responsáveis por esta revolução solidária. São eles:

Amartya Sen

'A Madre Teresa da Economia'

Chamam-lhe "Madre Teresa de Calcutá da Economia", disciplina que lhe valeu um prémio Nobel, tardio, em 1978. Amartya Sen é um dos mais importantes pensadores da atualidade. Tendo sido um dos criadores do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU (por oposição à mera medição do crescimento do PIB das nações), o seu ideário influencia fortemente a ação de instituições como as Nações Unidas ou o Banco Mundial. Nascido em Dhaka, no atual Bangladesh, há 79 anos, numa família de universitários, assistiu à grande fome de Bengali de 1943, que viria a inspirar o seu trabalho sobre as causas da situação não só na Índia, como no Sahel, na Etiópia e na China. "A fome é algumas pessoas não terem comida suficiente. Não é não haver comida suficiente", escreve, no início da sua obra mais conhecida, Fome e Pobrezas, de 1981, onde argumenta que são fatores como os salários, o açambarcamento e a inflação - e não necessariamente a baixa da produção agrícola - os causadores do fenómeno. Tem estado também ligado à "economia da felicidade".

Paul Collier

O professor guerreiro

O autor de The Bottom Billion (Os mil milhões de baixo), Paul Collier, é um economista que se debruça sobre os problemas das sociedades mais pobres do mundo - cerca de 50 países, muitos da África subsariana, cujo crescimento económico continua sem beneficiar a generalidade dos seus habitantes. Collier foi diretor do grupo de investigação do Banco Mundial e dirige o Centro de Estudos das Economias Africanas da Universidade de Oxford. No seu livro, publicado em 2007, este académico identifica as quatro "armadilhas" a que estes países estão sujeitos: a do "conflito", a dos "recursos naturais", a da "má vizinhança" e a da "má governança". Collier afirma que não bastam eleições para uma democracia se tornar em motor do desenvolvimento, sendo mais importantes os controlos e contrapesos (checks and balances), ou seja, a separação de poderes e as instituições que a concretizam. Polémico, defende a intervenção militar nos países do Bottom Billion, seguida da imposição de leis, estatutos, e cartas de boa governança e da abertura total dos mercados das nações ricas às suas exportações.

Esther Duflo

Contra 300 pobrezas

Esta economista francesa, professora no Massachusetts Institute of Technology, é pioneira no método das avaliações aleatórias, no terreno, das políticas contra a pobreza. Duflo é cofundadora e diretora do Poverty Action Lab (PAL), uma instituição global e interdisciplinar de combate à pobreza e diz ter encontrado inspiração nos trabalhos de Amartya Sen (ver acima), que entende a educação e a saúde como fatores essenciais do desenvolvimento humano. As suas múltiplas pesquisas de campo, sobre o acesso ao crédito, a corrupção, a ligação entre pobreza e fome, e outros temas, valeram-lhe a medalha John Bates Clark, o galardão mais prestigiado, depois do Nobel, reservado a economistas com menos de 40 anos. Duflo pretende construir a macroeconomia a partir de estudos microeconómicos empíricos, como se fossem peças de lego. Mas talvez a melhor definição do seu trabalho seja a do seu colega e amigo, Abhijit Banerjee, também fundador do PAL: "Nós não pensamos que a pobreza seja um problema, pensamos que a pobreza são 300 problemas separados."

David Graeber

O antropólogo anarquista

Este professor e ensaísta americano é tido como um dos inspiradores do movimento Occupy, e autor do slogan "Nós somos os 99%." Escreveu a obra Dívida: Os Primeiros 5000 Anos, onde desenvolve a tese de que o crédito antecedeu a criação da moeda física e de que a vida económica original se estruturava, antes, com base numa "moeda social" virtual e num "comunismo de todos os dias". Afirma, também, a ligação entre a dívida e escravatura: a primeira palavra para Liberdade, Amargi, do sumério, significa "devolver à mãe" (os filhos tomados por conta de dívidas não pagas). A dívida é, para Graeber, a base do sistema capitalista e das revoluções. Anarquista desde os 16 anos (tem 52), Graber viu ser-lhe recusada a renovação do seu contrato, pela Universidade Yale, alegadamente por razões políticas, o que levou Maurice Bloch, professor da London School of Economics, a tomar a sua defesa e a afirmá-lo como "o melhor teórico da antropologia da sua geração".

Muhammad Yunus

O 'pai do microcrédito'

Em 1976, este professor universitário emprestou do seu bolso 27 dólares a 42 mulheres que fabricavam mobiliário em bambu e pagavam juros usurários para adquirir a matéria-prima, durante uma visita à aldeia de Jobra, perto da Universidade de Chittatagog, no Bangladesh, onde dava aulas. E foi então que teve a ideia de fundar o Grameen, literalmente, "Banco da Aldeia", uma organização que se revelaria essencial para tirar milhões de pessoas - sobretudo mulheres - da pobreza e que inspiraria instituições semelhantes em todo o mundo. Na altura, os bancos recusavam-se a emprestar aos mais carenciados, por os terem como devedores de alto risco. Desde então, a microfinança desenvolver-se-ia, até no âmbito da iniciativa privada, a ponto de surpreender o próprio Muhammad Yunus. O que ele nunca pensou foi que o setor pudesse dar azo "ao nascimento dos seus próprios tubarões" e se tornasse objeto de crítica. Mas, para seu orgulho, o microcrédito continua a ser a mais eficaz das armas contra a pobreza.

Bill Drayton

O 'empreendedor social'

No verão de 1963, Bill Drayton, professor em Harvad, então com apenas 20 anos, aproveitou as férias para dirigir um velho Volkswagen de Munique até à Índia. Vinoba Bhave, um discípulo de Ghandi, atravessava o país a pé, para convencer aldeias inteiras a doarem-lhe terra que ele depois distribuía pelos "intocáveis". Drayton juntou-se-lhe e viu, pela primeira vez, o poder das ideias como motores da mudança social. No final, 7 milhões de hectares tinham sido redistribuídos por aquela casta maldita. Anos mais tarde, quando trabalhava na Agência Ambiental norte-americana, Drayton decidiu fundar uma organização que se dedicasse a procurar "empreendedores sociais" - um termo que ele próprio cunhou - pois essa seria a forma mais eficaz de mudar a face do planeta. Lançada em 1980, a Ashoka - batizada em nome de um Imperador Indiano do século III a.C. que se dedicou a conquistar e a construir um reino socialmente justo - cobre hoje uma área de mais de 60 países e já identificou 2 145 empreendedores, que, na sua maioria, conseguem alterar e melhorar a política social dos seus países, no espaço de cinco anos. Bill Clinton pede, há anos, que o Nobel seja atribuído a Drayton.

Jeffrey Sachs

A estrela rock da ajuda

Bono, Madonna e Angelina Jolie, entre outros, trabalham estreitamente com ele na promoção de causas solidárias. Tem um currículo impressionante. Jeffrey Sachs foi conselheiro do movimento Solidariedade, na Polónia, e ajudou na transição das economias da Eslovénia, Estónia e Rússia do socialismo para o capitalismo. Trabalhou como diretor dos Projetos das Nações Unidas para os Objetivos do Milénio e foi conselheiro especial tanto de Ban Ki-Moon como de Koffi Anan. É líder da Comissão para o Desenvolvimento da Banda Larga e do Digital, uma iniciativa apoiada pela UNESCO, que entende serem as novas tecnologias essenciais para a mobilidade social e o desenvolvimento económico. Além disso, tem dedicado os seus últimos anos a temas como as alterações climáticas, o controlo de doenças, a globalização, África e o desenvolvimento sustentável.  É autor de O Fim da Pobreza (2005), uma obra marcante, na qual defende que o continente africano pode erradicar a pobreza extrema em 20 anos, com o aumento da ajuda dos países ricos, melhorias na agricultura, expansão do microcrédito e distribuição gratuita de inseticidas para acabar com a malária. Os seus críticos acusam-no, no entanto, de ter uma prática neoliberal, nos países que se propõe ajudar.

Joseh Stiglizt

O Nobel do protesto

Nobel da Economia em 2001, antigo economista chefe e vice-presidente do Banco Mundial, de onde foi afastado por discordar do modo como a globalização estava a ser conduzida, em 1999, é, de certa forma, o grande ideólogo de uma economia mais solidária e um dos poucos que podem argumentar que o neokeynesianismo funciona, na prática: Stiglitz foi conselheiro de Bill Clinton, durante o último período em que a América apresentava excedente orçamental e uma economia pujante. No seu último livro, O Preço da Desigualdade, afirma que, a prazo, uma sociedade desigual afasta os seus elementos mais produtivos - tornando-se, portanto, menos lucrativa. É uma voz que denuncia a crescente discrepância entre a América dos ricos, que vivem em condomínios privados superseguros, com acesso à melhor medicina e às melhores escolas do planeta - enquanto a condição da esmagadora maioria da sociedade piora. Stiglitz, um nome muito respeitado, passou dos corredores do poder a verdadeiro outsider: em 2011, acedeu até a juntar-se aos manifestantes do movimento de protesto Occupy, de Espanha.