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Cuidado com as prebendas da casa de Saud

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Reuters

Al-Sisi pode bem com as ameaças dos EUA de cortar a verba anual de 1500 milhões de dólares ao exército egípcio. Afinal, os sauditas prometeram cobrir e multiplicar por seis esse montante

Depois de uma extenuante marcha de quatro a cinco horas ao sol, quando o lusco-fusco se instala, eu e Saiyd sentamo-nos numa esplanada em Helwan, nos subúrbios do Cairo, para fumarmos tabaco turco, em cachimbo de água, acompanhado de refrigerante de sabor a maçã (asseguro-vos que é uma combinação excelente). "É muito normal ouvires alguém aqui dizer: 'a única coisa que eu odeio mais que um judeu é um xiita'. O xiismo está ao serviço dos americanos e de Israel - fantoches que são pagos pela CIA para manterem a máquina de guerra americana a rolar.", diz-me, impassível. O raciocínio, continua, é o de que assim os EUA podem vender aos sunitas, por biliões de dólares, armamento de guerra desatualizado, que nunca poderá ser usado contra Israel. "Está tudo muito extremado", conclui.

Lembrei-me de um artigo que tinha lido uns dias na revista Der Spiegel, quando me preparava para esta reportagem, que afirmava que o bom senso e o sentido do equilíbrio tinham fugido a sete pés do Egito.  De facto, aqui, é muito difícil encontrar gente neutral.  O país está sujeito a uma massiva campanha de propaganda, que visa diabolizar a Irmandade Muçulmana como uma organização terrorista - que não é nem nunca foi como tal considerada pelos Estados Unidos (ao contrário do Hamas, uma sua derivação mais radical). 

Qualquer pessoa que esteja deste lado da barricada, afirmará, sem pudor, que os membros da Irmandade Muçulmana - os irmãos -  cortam os dedos aos ladrões e obrigam as mulheres a praticar a jihad sex - guerra santa sexual. Diz-se que atraíram muitas adolescentes e mulheres aos acampamentos de protesto e que depois aí as mantiveram à força. Que esses acampamentos eram autênticos califados. Que os irmãos destruíram igrejas e mataram polícias, mutilando-os e torturando-os. Os canais de televisão e jornais egípcios seguem todos, sem hesitação, esta linha. Quem estiver minimamente habituado à pluralidade mediática, começará por estranhar que a maioria dos blocos noticiosos dos diferentes canais tenham o mesmo título: "O Egito está a lutar contra os terroristas." Ouve-se os debates nessas televisões, e fica-se com a sensação de que o golpe de estado praticado pelos generais a 3 de julho o não foi (a questão é importante, porque se o golpe fosse oficialmente um golpe, os EUA seriam forçados, pelas suas próprias leis, a retirar ao Egito toda a ajuda militar). Leio um dos poucos jornais egipcios em inglês que consegui encontrar: "A primavera árabe nunca existiu", congratulam-se, num editorial a criticar Obama.

Mas um golpe de estado é um golpe de estado - mesmo que quem o perpetra tenha a seu lado o mais reverenciado imã do Egito, o Papa Copta e o líder do partido salafita Al Nour.

A cobertura dos media ocidentais sobre o massacre de Rabaa - 700 mortos - teve o condão de por muita gente no Egito a ver os EUA e a Europa - numa palavra, o Ocidente - como inimigos do povo. "Esqueceram-se de dizer tudo o que os irmãos tinham feito antes", diz-me Teresa Castilho, uma portuguesa de 32 anos, ex-oficial da ONU no Congo.

Certo, havia civis desarmados por entre os manifestantes,  respondia-me Mohamed Ibrahim, , um dia antes, numa zona classe média do Cairo. "Mas esses abriam em harmónio para deixar os detrás disparar", garante-me.  "Eles são loucos raivosos armados". Não deixa de ser  uma afirmação curiosa. Mohamed faz parte das milícias populares que se estabeleceram no Cairo para "proteger os nossos bairros dos 'terroristas'". Está sentado comigo no jardim de uma casa a que chamou "esquadra" - mas que não tem qualquer símbolo identificativo, sequer, de uma sede de junta de freguesia. Estamos rodeados de homens armados de metralhadora, dois civis, ou dois "policias vestidos à civil". E estamos a cinquenta metros da Mesquita, onde dizem, os membros da Irmandade Muçulmana se encontram a rezar. "Mad, gun, savages"!, reforça, no seu inglês macarrónico, um outro miliciano que escuta a conversa.

É verdade que havia civis armados na mesquita de al-Fatah. Robert Fisk, do Independent, um dos decanos da cobertura mediática do Médio Oriente, esteve lá e viu-os. Mas eram meia dúzia, armados a título individual - não porque a Irmandade o ordenara. É verdade que alguns apoiantes pró-Morsi queimaram igrejas, conforme Fisk admite e a própria Human Rights Watch (HRW) também documentou.

Mas é impossível que aqui, em Helwan, onde acabei de ver um desfile de protesto que, no final, juntou dez mil pessoas, sejam todos terroristas. Não vi uma única arma. Não vi um único gesto de agressividade (vi muita raiva na cara dos jovens que lideravam os cânticos da multidão). Pelo contrário - o que vi foi uma imensa demonstração de  força pacífica, da Irmandade, sobretudo em Arabelwalda - um dos subúrbios mais pobres do Cairo, onde nem sequer há dinheiro para cobrir as janelas, vazias de vidro, com panos ou cobertores.

E, como também está documentado pela HRW, mas tende a ser esquecido, a polícia assistiu impávida, aos assassinatos de coptas e esteve, algumas vezes, diretamente envolvida nas pilhagens aos cristãos. Recordo-vos agora que o atual homem forte do país, o general Abdel Fattah al-Sisi, foi líder da secreta militar na fase final da presidência de Hosni Mubarak. O "'terrorismo' é mais uma contribuição ocidental para a cultura árabe" - diz Robert Fisk.

Nós estamos aqui a dar o peito às balas, a morrer!", disse-me um membro da Irmandade que, a muito custo, pois estão todos a passar-se para a clandestinidade, consegui entrevistar (conto publicar esse relato aqui, no site da VISÃO para a semana).  "Onde estão esses democratas para nos defender? Eles que venham e falem conosco, como tu o fizeste [o outro único órgão de comunicação social presente era a Al Jazeera - uma televisão "amiga".

Voltemos à conversa com Saiyd. Percebo agora que, quando falamos do Egito, e do mundo islâmico, temos de nos despir de algumas certezas. "És maluco??? Se chamas 'fundamentalistas' aos membros da Irmandade Muçulmana, o que dirás do Nour?", diz-me o rapaz, cuja mãe anda sempre de cara tapada e cuja irmã, de 28 anos, tem uma liberdade condicionada. "Os irmãos são relativamente liberais e a maior parte dos egípcios dir-te-á o mesmo. Os salafitas são muitas vezes vistos, tão só, como crentes - o verdadeiro fanatismo começa no Nour e vai para a Direita". 

Lembro-me agora de uma conversa com Cristina, uma mulher que estudou paz e reconciliação e cuja tese de mestrado se debruça sobre a possibilidade de encontrar um terreno comum entre Secularistas e Fundamentalistas. Lembro-me da sua hesitação, quando usou a palavra "laicos". "Bem, quase laicos", corrigiu. É que quase  toda a gente no mundo islâmico é crente - o que não significa que queira um estado islâmico, como o Nour.

E o partido "da Luz" está á espera para ver. Parte dos seus líderes alinhou com o general al-Sisi. Mas a esmagadora maioria das suas bases acharia al-Sisi um liberal - um homem de quem me recordo por ter defendido como mais ou menos "normal" a verificação da virgindade das mulheres da Praça Tahrir.

Al-Sisi pode bem com as ameaças dos Estados Unidos de cortar a verba anual de 1500 milhões ao exército egípcio. Afinal, os sauditas prometeram cobrir e multiplicar por seis esse montante. Mas quem são os Sauditas? São os mesmo sauditas que financiam, por todo o mundo árabe, o wahabismo, a interpretação radical do Islão que deu origem à Al-Qaeda? Que não deixam, sequer, as mulheres conduzir um automóvel ou viajar sem um parente masculino? Para quem uma face a descoberto é sinónimo de devassidão? Parafraseio Fisk, um esplêndido jornalista - e um velhote resmungão - que não conheço, mas respeito: o Ocidente, que apoia hipocritamente Al Sisi, devia ter cuidado com as prebendas da casa de Saud. Elas vêm muitas vezes com cicuta.