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Catalunha: O 'país petit' no seu labirinto

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Na Catalunha, diz-se que o maior fabricante de separatistas foi Aznar. Por cansaço ou convicção, os catalães preparam o divórcio de Espanha e ensaiam, em plena crise, o sonho da independência. As eleições de dia 25 serão a primeira parte do conflito. E onde é que o FC Barcelona entra nisto?

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Se um ET aterrasse na Catalunha, não precisaria de aprender catalão. Para traçar o perfil do indígena, uma exibição de Castellers bastava. Tradição de dois séculos protegida pela UNESCO, os Castellers são castelos humanos formados por grupos de todas as idades, sem distinção de sexo, raça, credo ou classe.

Há mais de 600, neste "país" de 7,5 milhões de habitantes, fiéis a uma pauta de integração, equilíbrio e seny, a sensatez que marca o caráter catalão.

Mãos e braços entrelaçados, estas collas erguem torres de carne e osso, de vários andares, a cujo topo trepa sempre uma criança. Atuam nas festas populares e têm o seu campeonato nacional. Ninguém perde, todos ganham. O esforço é que conta. "Aqui, a profissão ou status não vale. Tanto dá que sejas arquiteto como varredor. É um ponto de reunião de gente da mesma terra ou cidade, construído com identidade, coesão e orgulho", explica Joan Egea, homem forte, de barba grisalha e cabelo curto, que lidera os Castellers de Sabadell.

A cidade dos Sabadulls fica a meia hora de comboio de Barcelona. A tarde de sábado tornou-se fria e ventosa, mas Joan traja a rigor: camisa verde, calças brancas, lenços vermelhos nos pulsos, um pano preto bem atado à cintura. Daqui a pouco, estará descalço, tal como os outros, antes do aquecimento para o ensaio com os Castellers de Berga. "Estamos a viver uma época estupenda. Há grupos novos e a tradição voltou a estar na moda", conta Joan, enquanto o centro histórico de Sabadell, com varandas enfeitadas de estelladas, as bandeiras independentistas, se enche de curiosos, familiares, amigos e miudagem. A crise económica e o momento político efervescente desbravaram euforias. "Não é um desejo de mudança, é algo que nasceu da frustração", explica Joan. "Há um cansaço e um desgaste na relação com Espanha. Ora, os Castellers têm um sentido de pertença à Catalunha muito forte. E agora isso cala fundo nas pessoas."

'ESPAÑA, ME VOY'

Saturação. Cansaço. Frustração. Os desabafos estão por todo o lado. Nos jornais, nas ruas, nos cafés, na televisão. Atolada numa crise económica profunda, com uma dívida acumulada de quase 44 mil milhões de euros, sem dinheiro para pagar salários e medicamentos e mendigando financiamento estatal, a Generalitat (governo catalão) apostou num novo acordo fiscal com Madrid mais favorável à Catalunha, mas voltou de mãos vazias.

Mariano Rajoy, chefe do Executivo espanhol de direita, do PP, fechou a porta às aspirações de Artur Mas, o até então discreto presidente da comunidade autónoma com maior PIB do reino.

Nas contas da Generalitat, a Catalunha entrega ao Estado, em impostos, mais do que recebe de volta. Qualquer coisa como 16,5 mil milhões de euros anuais a menos.

Daí o défice fiscal. "A Espanha rouba-nos!" tornou-se um slogan. O Governo de Rajoy não desmente os números. Mas enquadraos no esquema de solidariedade com as restantes autonomias, método e geografia desenhados nos anos da transição democrática, após a morte do ditador Franco.

Desencantada, a CiU, coligação de centro-direita que gere a região, acordou com os partidos independentistas do Parlamento a realização de uma consulta popular, na próxima legislatura. Objetivo: perguntar aos catalães se querem uma nação com Estado próprio. Artur Mas demitiu-se logo depois, provocando as eleições do próximo dia 25.

Na Diada, a festa nacional que ocorre a 11 de setembro e celebra a defesa catalã das suas liberdades e instituições durante o cerco de Filipe V de Bourbon a Barcelona, em 1714, viu-se a maior manifestação de sempre. Nas contas mais otimistas, milhão e meio de pessoas exigiram nas ruas o fim da união de facto com a Espanha.

Pedem o divórcio através de referendo, mas o desejo está vedado pela Constituição.

Por isso, o itinerário do separatismo já não passa por Madrid, mas sim pela "internacionalização do conflito".

A esta altura, a Catalunha assemelha-se a uma start-up nation, sobre a qual falta avaliar o potencial de mercado fora do reino. Mas o cabaz semântico já rende. De um lado, unionistas, espanholistas, federalistas, federalistas centralistas, neocentralistas, defensores do federalismo assimétrico e da "Espanha plural". Do outro, soberanistas, independentistas, secessionistas e separatistas. Enric Juliana, da direção do La Vanguardia, o mais influente diário da Catalunha, coligiu outro reportório, saído do jornalismo de caserna e dos opinadores de caverna. Para esses, os catalães são "nazis, fascistas, totalitários, loucos, alienados, paranoicos, esquizoides, traidores e islamitas". Para outros, a Espanha atua como aqueles maridos que não querem enfrentar a realidade e preferem continuar a dizer "eu mando, não vou mudar e tu és minha".

Antonio Baños poderia juntar números a isto. Mas seria uma contradição. Ele escreveu A Economia não existe quando estava desempregado e no seu mais recente livro ataca os novos senhores feudais: "Os economistas são os delinquentes da democracia. Em Inglaterra chamam-lhes banksters, uma mistura de banqueiros e gangsters", diz o escritor e membro do grupo rock catalão Los Carradine.

Baños é um quarentão de óculos, barba negra e mala pela mão, que caminha de um lado para outro, impaciente, diante do Café Zurique. Veio dos arredores, de Nou Barris, algo contrariado. "Esta cidade põe-me nervoso." Estamos na Plaça de Catalunya, no coração de Barcelona, para ele a metáfora perfeita da miscigenação capitalista catalã. Ali, a FNAC; acolá, o Hard Rock Café; do outro lado, o El Corte Inglés; mais acima, o Banco Espanhol de Crédito; na outra ponta, o Banco de Espanha, "sem nada dentro, nem para trocar pesetas serve"; e, ao centro, "o horrível monumento a Francesc Macià que, em 1931, subiu à varanda, proclamou a República catalã, mas não havia gente para aplaudir". Adiante, em direção ao mar, a Grande Rambla, "onde Barcelona trocou a alma pelas Olimpíadas, pela esquerda gourmet, amiga dos milionários e dos hoteleiros, e se transformou numa puta para 8 milhões de turistas anuais, vendendo ímanes da Andaluzia e sombreros mexicanos".

Baños escolhe uma esplanada discreta, longe do cenário. Pede uma cerveja e batatas fritas de pacote. "Escrevi uma versão catalã da canção Parva que eu sou, dos Deolinda", revela. "Quero fazer um EP com canções de Portugal, Espanha, Catalunha, Itália e Grécia. Música para porcos, a fazer lembrar os PIGS, os países endividados." Ele anda desconfortável com estes tempos. "Pedem-nos para fazer os deveres, obedecer e calar." Mas, na Catalunha, "a meio da crise, sem dinheiro, vamos fazer a coisa mais ridícula que se imagina: inventar um país. Provavelmente, rumo ao desastre, mas, para já, está a ser muito divertido!", graceja, indiferente a quem o escuta em volta, de rosto fechado. "Já proclamámos quatro repúblicas. A primeira durou uma semana, a segunda cinco dias, a terceira três e a quarta dez horas. A próxima deve durar cinco minutos, nem vai dar para pagar o estacionamento." Mais a sério, Baños reclama uma República nova e uma Constituição "construída com alegria", ao contrário da espanhola, de 1978, "sombria: foi feita com medo do franquismo e vigiada pelos militares". Este jornalista de ofício, fiel ao "mileurismo e firme adepto da precariedade ", diz ter-se tornado independentista "a ler o El Mundo. Há uma hemeroteca imensa sobre o que esses tipos dizem de nós. Até já insinuaram que os catalães mataram Cristo".

Não é anedota. O artigo, entre o provocador e o brincalhão, foi escrito por Juancho Marcelo, colunista do diário madrileno próximo do PP. No twitter, os catalães de plantão nas redes sociais aproveitaram para assumir também a "culpa" do naufrágio do Titanic, das hormonas de Messi e das mortes de Kennedy e da mãe do Bambi. "Ser catalão não é fácil", recomeça Baños. "Não traz vantagens, só complica a vida. Podíamos ser espanhóis, toureiros ou dançar flamenco, ser algo de folclórico que caísse bem a todos." Mas não. "Agora, até as lojas de chineses vendem as bandeiras estelladas. São um povo superior. Quem lhes disse que a independência vai ser um bom negócio?" Quando a família chinesa de Yong Bo chegou a L'Hospitalet de LLobregat, nos arredores de Barcelona, para montar o bar Picatapas, a soberania não estava ainda na ementa. A exemplo de outros, procuraram o melhor de dois mundos: integração e prosperidade. O município já rebentara pelas costuras, décadas atrás, com a chegada maciça de imigrantes de outras regiões espanholas, mas hoje disfarça o aspeto "dormitório", apesar de ser a segunda cidade mais populosa da Catalunha e a mais densamente povoada de Espanha.

Yong Bo, de 14 anos, serve, com simpatia, a especialidade da casa: batatas bravas com molho picante de salsa e tomate. Um prato explosivo que rapidamente transforma a mesa numa pista de aterragem de cerveja fresca. Bo já nasceu na Catalunha.

Nunca foi à China, nem a tal parece inclinado.

"Só se for para agradar à família." Fala e escreve "perfeitamente" em catalão.

Chinês? "Nada. É uma língua complicada e aqui não preciso dela." Nos jornais acumulados no balcão, relatam-se as últimas do Barça e. da independência. "Por vezes, chega um cliente e diz que os meus pais vão ter de fugir, que não haverá lugar para imigrantes, na Catalunha. Outros dizem o contrário. Na verdade, os meus pais nunca pensaram nisso. Por eles, ficam."

AGORA OU NUNCA?

A Espanha atual, diz o Rei Juan Carlos, "vê-se melhor de fora. Por dentro, dá vontade de chorar", assumiu. Mesmo assim, duvida-se da viabilidade da Catalunha em versão solitária. Uma maioria de catalães, segundo as sondagens (ver caixa), discorda e recusa o "café para todos", filosofia que, até hoje, presidiu à gestão das 17 autonomias.

A Catalunha é do tamanho de uma Bélgica, Suíça, Holanda ou Dinamarca e tem um PIB acima da média europeia.

Os catalães pagam, segundo a Generalitat, uma das mais altas taxas de IRS do mundo. Jaume Ventura, economista de Barcelona, estima que, de cada cem euros pagos em impostos ao Estado, só 57 euros são gastos na Catalunha. Rodríguez Mora, outro especialista em finanças públicas, contraria milagres prometidos: a independência, escreveu, levaria a uma "portugalização da Catalunha", ou seja, seriam reduzidos os fluxos comerciais com Espanha em 80 por cento.

Joga-se com números, dados, estatísticas, mas é difícil encontrar cifras fiáveis.

Os empresários roem as unhas, na maioria dos casos sem alarde, se excetuarmos José Manuel Lara, do grupo editorial Planeta, que ameaçou fazer as malas se a independência vingasse. O medo, porém, ainda não apanhou o comboio para Terrassa, a 30 quilómetros de Barcelona, cidade do modernismo industrial e farta imigração. "Não estamos na estação zero deste processo. Há dez estações e vamos na seis ou sete", resume David Garrofé, secretário-geral da CECOT, uma das maiores associações patronais da Catalunha, com 7 mil empresas filiadas.

Estamos num edifício do século XIX, antigo armazém têxtil onde se impõe um salão com cúpula de cristal cuja luz direta permitia aos operários, em tempos idos, distinguir as cores reais dos tecidos. Garrofé compara a nação espanhola a uma grande empresa. "Espanha SA tem um diretor-geral chamado Rajoy. Existem problemas numa fábrica, os trabalhadores estão insatisfeitos e decidem criar uma cooperativa para gerir uma nova empresa.

A culpa é dos operários ou da cadeia de comando da Espanha SA?", interroga-se.

A "patronal" não ignora o calamitoso estado das finanças públicas catalãs. Mas reparte as culpas. "Gastamos mais do que devíamos, mas quando vês que os recursos entregues à Espanha não revertem em investimento na Catalunha, perguntas: e se fôssemos soberanos?" Por isso, a CECOT foi a primeira a promover uma sondagem interna sobre a independência.

A favor estão mais de 50% dos empresários. "Mas quanto maior é a empresa, mais medo têm", assinala.

"A grande maioria, 85%, quer uma mudança substancial: soberania, Estado federal ou um novo pacto fiscal." Em resumo, "o eixo desta terra moveu-se e não vai voltar ao ponto inicial. O problema é saber quanto se moveu".

Garrofé tem responsabilidades em fundações, instituições religiosas de beneficência, grupos de jovens. "Chega-me muita informação. Um empresário conservador disse-me: 'Não sei se fazemos bem ou mal em lutar pela independência, mas fá-lo-ei pelos meus filhos e pelos meus netos'." Em casa, Garrofé já vê os filhos mais velhos, de 17 e 12 anos, pegar em jornais, discutir política. "Menos mal." O matrimónio com Espanha, esse, terá chegado ao fim. "Num divórcio, a primeira fase é de negação. Depois, vem a raiva. Por fim, assumes e segues em frente. Pode haver reconciliação? Pode, mas é a outro nível.

Não faz falta paixão, basta que se encontrem espaços de comodidade", ilustra, de mãos entrelaçadas, recostado na cadeira do seu amplo gabinete. "Ao contrário de Rajoy, David Cameron autorizou o referendo na Escócia e quer convencer os escoceses a continuar no Reino Unido.

Aqui, fazem-te ameaças. E se ficarmos, o que nos acontece? O medo não é argumento."

VOANDO SOBRE A CATALUNHA

No mercado de segunda-mão de San Antoni, nas manhãs de domingo, não é fácil encontrar uma famosa antologia do medo e do preconceito. Mas procurando bem, por entre biografias de Franco, Santiago Carrillo e jornais antigos, lá aparece O Livro Negro da Catalunha, do historiador e antigo deputado da CiU, Ainaud de Lasarte. A obra, de 1995, reúne uma boa fornada de frases "que documentam os constantes ataques de que foi objeto a Catalunha desde 1714 até aos nossos dias". Militares, políticos, escritores, catedráticos, jornalistas, governantes, todos aparecem na fotografia, onde já em 1715 se retratava o povo da Catalunha como obstinado, bárbaro e criminoso.

"Os catalães só são importantes quando escrevem em castelhano", comentavase em 1984. "Para deixar de ser catalão são suficientes só duas horas de autossugestão. E o mesmo para deixar de ser do Barça", publicou-se, em 1984.

Estas páginas vieram à memória quando militares no ativo e na reserva recomendaram, em público, o envio de tanques de prevenção para a Catalunha.

Na província de Girona, no Norte varrido pelos ventos dos Pirenéus, estranharam os voos constantes de caças espanhóis.

O Ministério da Defesa disse que nada mudara, exceto "os ouvidos de quem ouve".

Em Verges, uma das primeiras aldeias a proclamar, de forma, simbólica, a independência, falou-se disso. "Por causa da memória da guerra civil e do franquismo, as pessoas tinham tendência a esconder-se e a não dizer nada. Mas agora já se riem", conta Marta Payeró, autarca da terra de infância do cantautor Lluis Lach, na qual segue imortalizado o seu País Petit. "O meu País é tão pequeno que quando o sol vai dormir nunca se está suficientemente seguro de havê-lo visto", diz a canção.

Verges é um povo de 1 200 habitantes com 1 054 anos, onde as pedras, por si só, já contam histórias. Famosa pela procissão carnavalesca da Dança da Morte, a aldeia sempre viveu o quotidiano em catalão. "Perdoa a minha atrapalhação.

Não estou habituada a falar castelhano ", desculpa-se Marta, cabelo loiro aos caracóis, jeans, camisa, blusão e ténis.

O município é um exemplo de integração de imigrantes africanos, sobretudo da geração mais nova. Dani Jawo, o negrito de 11 anos que, ao longe, finta os amigos com a bola do Barça, já faz pulseiras independentistas.

Fora dali, os insultos sucedem-se. "Polacos de merda!", diz ter ouvido Maite Planesas a um polícia.

"Chamam-nos polacos por causa da língua, não percebem nada." Por isso, o historiador Toni Soler, inventou Polónia, a série humorística da TV3 que, caricaturando os políticos locais e de Madrid, segue líder de audiências.

Mesmo assim, "as pessoas continuam crispadas", reconhece Marta, cujos receios em relação às eleições são indisfarçáveis: "Tenho medo que a CiU volte a jogar a la puta y la ramoneta, que é um dito popular para te referires a alguém que diz uma coisa e faz outra. Mas confio que os espanhóis continuem a ser espanhóis e, portanto, tontos e que não saberão fazer acordos", despede-se a autarca de Verges, onde as estelladas dominam a paisagem, na versão com estrela amarela (mais radical), e na versão azul, inspirada na bandeira cubana, dos independentistas mais conservadores.

As ameaças não são levadas a sério.

Nem em Verges nem em Barcelona. "Não vai acontecer nada. Mas quando a delegada do Governo na Catalunha diz, numa reunião com altos comandos da polícia espanhola, que têm de estar preparados e firmes para cumprir a Constituição, quando o vice-presidente do Parlamento Europeu, Vidal Quadras, diz que é preciso enviar a Guarda Civil contra o Governo catalão, quando se diz tudo isto e ninguém desmente, é claro que ficamos preocupados", assume Alfred Bosch, deputado da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) no congresso espanhol.

Bosch vive num velho apartamento da Barcelona antiga, que pertenceu a traficantes de escravos, casa improvável para um africanista com os seus pergaminhos.

"É uma coincidência divertida", ri-se o parlamentar, residente na Rua Ample, onde a lenda sugere ter-se hospedado Don Quixote.

À sua maneira, Bosch também já se tornou lendário e algo quixotesco. Ajudou a promover vários referendos em municípios da Catalunha a favor da independência, embora sem caráter vinculativo. Exibiu a bandeira catalã no Congresso, perante uma pateada monumental do PP, e no primeiro contacto com o Rei Juan Carlos, no âmbito da auscultação do monarca aos grupos parlamentares, a reunião prevista de dez minutos prolongou-se por uma hora: "Temos que deixá-lo, mas podemos continuar amigos", disse ao Rei. Houve risota.

Mas o assunto é sério. "Em muitos sentidos, a relação entre a Espanha e a Catalunha é de amo e servo. Nós nunca podemos negociar, só podemos pedir. E, depois, Madrid decide se dá muito, se dá pouco ou não dá nada", denuncia. Felizmente, a mentalidade catalã evoluiu. "O primeiro clique foi a gentileza de José Maria Aznar [ex-presidente do Governo espanhol]. Vamos fazer--lhe um monumento. Aznar era uma fábrica de independentistas catalães. Mal abria a boca, já havia mais um." Da janela do seu escritório, na Rua Junqueres, mais central, Francesc de Carreras bem via passar as manifestações do 11 de setembro. Por vezes, eram "quatro gatos", depois a marcha engrossou. "Bom, mas as próximas eleições não vão servir para contar independentistas", crê este catedrático de Direito Constitucional, uma das respeitadas figuras antissoberania.

Ex-comunista, atual militante de base do partido Cidadãos, o seu espaço de trabalho é quase uma biografia pessoal. Há retratos de Marx, Gramsci e Georges Brassens, uma definição de comunismo emoldurada, uma recordação cubana da Bodeguita del Medio e uma gravura com a frase "Viva a Constituição ". Na secretária e na mesa, leituras urgentes: relatórios sobre as autonomias, volumes sobre a reforma constitucional e o federalismo. "Fui catalão toda a vida e dei aulas em catalão, quando estava proibido por Franco. Concordo com a defesa da cultura e da língua, mas as independências não têm sentido hoje, muito menos com a crise económica." Francesc é taxativo: "As leis nacionais e internacionais não permitem referendos de autodeterminação. Ou a Catalunha negoceia com a Espanha ou entrará por um caminho que pode originar uma rutura social, algo parecido com que se passava no País Basco", teme. De Camp Nou chegam-lhe sinais: uma amiga, professora de Filosofia, ficou sentada, com vontade de chorar, quando viu o marido levantar-se com a multidão de adeptos do Barcelona e erguer uma das bandeiras da Catalunha distribuídas pelas bancadas.

"É uma atitude típica de regimes totalitários", reage Francesc.

DE CAMP NOU A SARRIÁ

No dia 23 de outubro, o Barcelona recebeu o Celtic, de Glasgow, para a Liga dos Campeões.

As leituras políticas logo tiveram rédea solta: afinal, tratava-se de uma cimeira desportiva entre dois clubes que têm dificuldade em reconhecer o atual bilhete de identidade e que aparecem associados a tendências separatistas. O ex-treinador Pep Guardiola e o atleta Xavi já tomaram posição. E Cruyff, adotado por Barcelona, é o selecionador nacional da. Catalunha, uma equipa em busca da legitimidade. Naqueles dias, cerca de 15 mil adeptos do clube católico escocês, fundado por irlandeses, tomaram conta da capital catalã, erguendo bandeiras da Irlanda e reclamando tributo a heróis como o socialista James Connoly, assassinado, após a Revolta da Páscoa, numa prisão de Dublin, às mãos das forças britânicas.

"Talvez o nosso processo venha a ser mais pacífico, mas espero que a Catalunha também consiga a sua independência", dizia Eddie Mark, um adepto do Celtic, numa roda de amigos, à volta de bandeiras catalãs e paletes de cerveja em lata.

O anfitrião dessa noite também era "mais que um clube", frase que o Barcelona ostenta, cunhada por Nicolau Casaus, republicano perseguido e preso pelo franquismo, antigo embaixador dos blaugrana.

"Há uma identidade entre o Barça e a Catalunha e o clube sempre esteve metido nestas guerras políticas", recorda Josep Iglesias, de 83 anos, um dos sócios mais antigos, no intervalo do Barça-Celtic, que os da casa venceriam por 2-1. O pai levouo, logo aos 9 anos, ao antigo Camp de las Corts, que o ditador Primo de Rivera mandou encerrar por três meses. "Tudo por causa de uma assobiadela de 30 mil pessoas ao hino espanhol, contava o meu pai." A partida, um amigável entre o Barça e uma equipa inglesa da Royal Navy, acabou com os catalães a cantarem, em uníssono, o God Save the Queen.

Histórias destas provocam arrepios, na parte alta da cidade, em Sarriá-Sant Gervasi, zona rica, anexada por Barcelona em 1921. Aqui, estamos no berço do Español, o outro clube da cidade, que, para o bem e para o mal, andou de braço dado com o franquismo. No Passeio da Bonanova, avenida de vivendas luxuosas e condomínios privados, um escudo gigante do clube enfeita o interior da cervejaria Victor, ladeado por um poster da Legião Estrangeira e um cartaz do primeiro congresso da Divisão Azul, os voluntários espanhóis de Hitler, na frente russa. O local, imortalizado na sua arqueologia e nostalgia franquista pelo escritor Manuel Vázquez Montalbán num dos policiais do inspetor Pepe Carvalho, mantém o tempo suspenso: autocolantes de Franco, canecas da Divisão Azul, adereços da Espanha falangista, decoram as estantes por detrás do balcão onde se movimenta, ágil, Pedro, filho do antigo proprietário.

Quatro gerações de antepassados de Fernando Coromina por ali passaram.

Educado e requintado, vestido de azul, com a barba branca bem aparada e bigode retorcido nas pontas, ele é o advogado de Pedro Varela, dono da Livraria Europa e antigo presidente do grupo neonazi CEDADE, que reunia entre estantes. Varela foi preso por delito de ideias genocidas, viu serem-lhe confiscados mais de 20 mil obras, um busto de Hitler e bandeiras com suásticas. Um ex-líder do Klu Klux Klan e um antigo dirigente das Juventudes Hitlerianas já foram seus convidados em Barcelona, mas ele é, na versão de Fernando, "um homem de fino trato, civilizado, com crenças e princípios inamovíveis".

O advogado lembra que o seu pai, também "voluntário" do nazismo na luta contra o comunismo, participava em reuniões na cervejaria Victor. "Não me considero fascista, mas não me importo que me chamem fascista, parte da minha herança vem daí", atalha ele. "Sou um nacional-revolucionário. Para mim, a pátria é um valor, mas sem exclusões. Como retórica, a Espanha imperial é muito bonita, mas não tem pés nem cabeça", diz, bebericando uma cerveja.

Fernando vive "um momento de muitíssima pena e dor" por causa da sua "Catalunha querida". Não a concebe fora de Espanha e lamenta "a falácia histórica e a intoxicação" que movem os independentistas.

"Os governos de Madrid toleraram tudo e isto só serve para fazer esquecer os erros de gestão da Generalitat." Vistas dali, as excitações políticas de Barcelona recordam-lhe as palavras do pai: "Ele dizia que vivia em Sarriá-sur-merde." Outros pensarão assim. Nos últimos meses, distribuíram-se pela zona panfletos a reclamar a independência de Sarriá--Saint Gervasi de Barcelona. Os habitantes queixam-se de pagar taxas e impostos ao município da capital e querem negociar um novo pacto fiscal. Caso contrário, dizem, "exerceremos a nossa autodeterminação ".