Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A incrível história dos americanos 49 dias raptados em Luanda

Mundo

Alexandre Soares

Dois produtores americanos foram raptados e detidos em Luanda, depois de um rapper faltar a dois concertos de passagem de ano. Num depoimento exclusivo, revelam os segredos e a sua versão do caso que se tornaria um incidente internacional e vai dar origem a um livro

Patrick Alloco sabe que algo está errado. No dia 30 de dezembro desembarca no aeroporto de Luanda e pergunta de imediato ao filho: "Estão todos a caminho?" A resposta de Patrick Júnior é negativa: "Ninguém embarcou." Olham um para o outro e comentam: "Estamos metidos em problemas!"

O empresário agarra-se ao telemóvel. O iPhone não trabalha. "Temos de falar com o agente, rápido", diz. Patrick refere-se ao representante do rapper Nas e da cantora Jemiah Jai. Os dois músicos deviam chegar a Luanda naquele mesmo dia para atuarem em dois concertos de Ano Novo. É o que está acordado com o empresário Henrique Miguel Riquinho. Mas nunca irá acontecer.

Através da sua promotora, a All Good Entertainment, Patrick já organizou concertos de Michael Jackson, Julio Iglesias, Sting, Stevie Wonder ou Bon Jovi, que o levaram em viagens à volta do mundo - mas nunca até África. Aos 51 anos, o americano usa umas calças caqui dois números acima do seu, com pinças, que alargam desde os tornozelos até terminarem no umbigo. Parece um ovo. Quando fez as malas para Angola, lembrou-se de que "não sabia que tipo de comida teriam" e enfiou refeições de emergência na bagagem, antes de se despedir da mulher.

Os Allocos conheceram o seu parceiro de negócio através de um produtor que já trabalhara com Riquinho. Sobre o angolano, de 48 anos, um artigo no portal angolano "Platina Line" apresenta-o como um "primeiro-oficial da marinha mercante", que viajou pelos cinco cantos do mundo. E que, "apesar desse percurso brilhante como cidadão e herói nacional", voltou ao seu país "onde percebeu que o seu talento estava em entreter multidões". Conclusão: "Daí em diante nunca mais parou, foi só grandes realizações" e "o único [empresário] que teve o Presidente da República em mais de 20 eventos".

Uma versão alternativa da sua vida, contada nos corredores da indústria musical angolana, apresenta a sua empresa, a Casa Blanca, como "a promotora de espetáculos que mais falha em Luanda". É aceite que, "durante muito tempo", "organizou os encontros, convívios e festivais do MPLA [partido do Governo], mas, por causa das gafes e estórias mal contadas, essas tarefas mudaram de mãos". No final de 2011, Riquinho parece querer desfazer-se da má imagem e os espetáculos de passagem de ano são a oportunidade perfeita.

NA CASA DOS FRESCOS E SEM PASSAPORTES

Assim que recebem as más notícias no aeroporto, Patrick e o filho, de 23 anos, deslocam-se até ao estádio dos Coqueiros, onde Riquinho assiste a um concerto. "Como está tudo?", pergunta. "Ainda não sei. Tenho de fazer umas chamadas, o meu telefone não funciona", responde o mais velho dos Alloco. Riquinho empresta-lhe um telemóvel. Patrick liga para a sócia, que confirma: ninguém embarcou. Os americanos pedem para ir para o hotel. Passados alguns minutos, o condutor recebe um telefonema. É novamente Riquinho. Quer falar com eles. "Musicians coming or not coming?", insiste. E ouve o que não queria. Os músicos vão faltar. "No come?! Big problem", ameaça o angolano, e desata num berreiro em português.

No hotel, o iPhone de Patrick já funciona. O agente do rapper diz-lhe que "houve problemas com as passagens e que Nas já não está disponível". Os Alloco receberam 400 mil dólares de Riquinho - 315 mil foram para os músicos -, mas o agente diz que não devolve o dinheiro. Nunca saberão se o agente fala verdade sobre as passagens; mas há algo que ninguém desmente: na noite de passagem de ano, Nas atua na festa de noivado do basquetebolista LeBron James. Os americanos decidem, então, informar a sua embaixada de que os serviços de imigração angolanos lhes ficaram com os passaportes. A representação diplomática garante que, no dia seguinte, tratará do assunto para que os documentos sejam reemitidos.

Às oito da manhã, após tomarem o pequeno-almoço, os Alloco pedem um carro na receção do hotel. "Foi o nosso primeiro erro", admite Patrick. "O hotel estava ligado ao Riquinho", acusa. O condutor leva-os a tirar fotografias para os passaportes. No caminho para a embaixada, diz: "Tenho de me encontrar com uma pessoa." Sai do carro e entra numa loja de telemóveis. Júnior olha à sua volta - um parque de estacionamento entre duas estradas, o supermercado Casa dos Frescos, um recinto onde Riquinho organiza concertos - e reconhece o local. Dias antes, tinha ali estado com o empresário angolano. E recorda-se bem do que vira: "Entregar maços de dólares, provavelmente dezenas de milhares de dólares" a várias pessoas. Percebe o que está em causa. Vira-se para o pai e diz: "Estamos em perigo!" Saem da viatura e tentam abrir o porta-bagagem para tirarem as malas. O mecanismo encravou. O tempo alonga-se. Já está. Conseguiram. Precipitam-se para o interior da bagageira, mas já uma voz os avisa: "Wait!"

GRANDE GOLPE, EM CONTRAMÃO

Júnior diz ao pai: "Temos que fugir!" Olham à volta. Há táxis, são a única hipótese de fuga. Quando dão por isso, já estão rodeados de homens. "Talvez uns vinte. Grandes. Alguns com camisas da Casa Blanca. Uns cinco armados com AK-47. Apontadas a nós!" A mão de Patrick desliza para o bolso, agarra o iPhone e liga para a embaixada. "Estamos a ser raptados!" Pedem uma descrição do local. Riquinho chega, arranca-lhe o telefone e grita: "Vamos!" São empurrados para dentro de um SUV preto. Patrick olha para o seu único filho. Não repara nas tatuagens, na roupa escura, no cabelo rapado ou nos dentes amarelados pelo tabaco - vê apenas um miúdo assustado que lhe diz: "Vamos morrer!" No banco da frente, Riquinho repete: "Vamos!"

Patrick recorda o que lhe tinham dito, minutos antes, quando ligara para a embaixada: "Estamos a enviar o DSS [Diplomatic Security Service]. Agora mesmo!" Respira fundo. "Vamos fazer tudo o que mandarem", diz ao filho. "O que eles querem é o dinheiro e sem nós não o conseguem. É isso que nos vai salvar." A coluna de viaturas em que seguem não para num descampado, como os Alloco receavam. Para, antes, em frente de uma minúscula esquadra da polícia onde os agentes só falam português, que eles não percebem. Numa segunda esquadra, passa-se o mesmo. Entre ambas, descreve Júnior, os angolanos "conduzem em contramão, a alta velocidade. Com as luzes e as sirenes ligadas."

Chegam, finalmente, à Direção Provincial de Investigação Criminal (DPIC), um grande edifício de betão com arame farpado a volta. "É aí que sinto mais medo. Fazem questão de mostrar-nos uma cela", diz Patrick. "Cheira mal, a suor. Pensei que podia ficar ali o resto da vida", acrescenta. São chamados para um gabinete refrigerado, onde um homem lhes é apresentado como "o comandante". O mais velho dos Alloco mostra no computador os movimentos da sua conta e repete a história uma e outra vez. Passam-se sete horas desde que foram sequestrados, quando alguém bate à porta. Entra o vice-cônsul dos EUA, David Josar, acompanhado de um ex-marine e de um intérprete.

"Estes homens estão a ser acusados de algum crime?" Por enquanto, não, respondem-lhe. "Então somos livres de os levar."

Passam a noite de passagem de ano numa casa protegida pela embaixada. Júnior adormece, Patrick fala com a mulher. A meia-noite chega. O mundo pede desejos, troca beijos, faz promessas - os Alloco não. Abandonam 2011, mas não entram em 2012. Estão num lugar estranho, um purgatório, onde o tempo parece ter parado.

AMEAÇAS E MERCENÁRIOS AO BARULHO

Chega o dia de embarcar. Quando entregam os novos passaportes, no aeroporto de Luanda, o segurança afirma: "Estão proibidos de sair do país. Há uma investigação a decorrer." Os Alloco tinham sido acusados de fraude. "A embaixada explica que nada mais pode fazer", conta Patrick. "Que o problema terá de ser resolvido na Justiça. Entregam-nos uma lista de advogados e aconselham-nos a não sair do quarto de hotel."

De volta ao hotel, no centro de Luanda, Alloco contacta o "TMZ", o site californiano que anunciou a morte de Michael Jackson e Whitney Houston. No dia seguinte, um artigo anuncia: "Promotor de concertos diz que foi raptado porque Nas falhou concerto em Angola". Riquinho reage, através do "Platina Line": "Esta é a verdade, eu é que fui roubado e, mais uma vez, eu seria o prejudicado, tal como no caso do R Kelly, Miss Elliott e tantos outros. Só que desta vez, chegou o momento da justiça." Garante que os Alloco não tinham sido raptados, mas "diplomaticamente abordados pela nossa polícia".

Os dias multiplicam-se. Nas, o rapper, permanece inabalável - o dinheiro não será devolvido. Os Alloco voltam a viver o mesmo filme: "Sentimos que alguém pode entrar no quarto a meio da noite e levar-nos. Colocar-nos numa prisão para o resto da vida." É então que decidem contratar uma companhia de ex-marines, a The Trident Group, para os resgatar. A empresa trabalha com a Blackwater, a companhia de serviços militares conhecida como "o mais poderoso exército de mercenários do mundo" e que mudou o seu nome para "Xe". A operação de resgate custa 200 mil dólares (150 mil euros).

Em menos de 24 horas, agentes especiais infiltram-se no hotel para descobrir se os americanos estão a ser seguidos. "Dizem que, quer o Riquinho, quer a Justiça angolana, tinham pessoas a vigiar-nos. Por vezes, quinze a vinte." Um plano de resgate é desenhado. No dia 8 de janeiro, os Alloco devem caminhar do seu hotel para outro, de duas em duas horas. Nesse vaivém, serão retirados e levados até ao aeroporto, onde, "através do pagamento a autoridades locais", embarcarão num jato privado para Joanesburgo. Na África do Sul, um homem com o nome de código The Coronel garantirá que, em menos de 24 horas, embarquem num voo comercial com destino aos EUA. Na noite anterior, o telemóvel toca, às 5 da manhã. O contacto do The Trident Group explica que o caso foi considerado "assunto de Estado" e que o resgate pode comprometer a posição da empresa. A missão é cancelada. "Percebemos que estávamos encurralados", diz Patrick.

Entretanto, Riquinho envia emails a um parceiro dos Alloco, nos EUA. "Teu amigo vai ficar aqui até apodrecer se não pagar os meus 400 000 00", escreve. Numa outra mensagem garante: "Este filhos da puta vem ou devolvem meu dinheiro terei que fazer a mesma coisa com eles ou com um teu familiar que você ama muito." (sic) Num terceiro: "ALLOCCO VAI APOFRCER NA CADEIA DE ANGOLA MESMO QUE PAGUE OS 400 MIL DOLARES AINDFA BEM QUE ESTAO EM ELEIÇOES NOS ESTADOS UNIDOS OBAMA TEM QUE SABER DE TUDO (...) VOCE AGUARADE FILHO DA PUTA." (sic)

O ARRASTÃO DE JUNIOR

Na segunda semana de janeiro, Nas aceita pagar metade do dinheiro. Patrick reúne-se com Riquinho no movimentado lobby do hotel. Propõe entregar o resto do dinheiro quando chegar aos EUA. "Podemos fazer um acordo?" O angolano terá respondido: "Não! Tens de pagar tudo agora. Ou então não sais daqui." Depois desta conversa, os americanos trabalham num acordo com a Procuradoria-Geral. Ao mesmo tempo, criam uma página no Facebook chamada Free The Allocos e realizam vídeos para o YouTube. A história enche os ecrãs das televisões e as paginas dos jornais, chegando ainda às conferências de imprensa da Casa Branca.

Quando Nas transfere quase todo o dinheiro, a Procuradoria-Geral angolana marca uma audição para 19 de janeiro. Na véspera, os americanos visitam uma igreja. À saída, um pequeno pássaro pousa na cabeça de Júnior e, depois, nos seus ombros. Os dois, católicos, acreditam que "é um sinal do céu."

Horas depois, na audição, Patrick argumenta: "Iriam um pai e um filho atravessar meio mundo para enganar um cidadão angolano e arriscar serem presos?" O representante da Procuradoria diz que levanta a restrição de viajar de Júnior assim que 300 mil dólares sejam pagos a Riquinho. O resto do dinheiro pode ser pago depois. Quando o acordo for aprovado pelo procurador-geral, o mesmo acontecerá com o pai. O fim do pesadelo parece próximo.

Júnior decide festejar. Aceita o convite de dois angolanos e vai até ao W Club, uma das discotecas da moda. Por volta das 4 da manhã, sente "o ambiente a mudar". "Começam a insultar-me. Um deles parte para cima de mim e eu fujo." Esconde-se num beco. Sente-os aproximar-se e sobe para um telhado. O chão desaparece debaixo dos seus pés. Cai no escuro.

Os angolanos descobrem-no, amarram-no com um cinto e arrastam-no pela rua. Perguntam: "Quanto vales para o teu pai? Dez mil?" No quarteirão da embaixada americana, dizem: "Nunca mais vais ver a tua casa!"

Patrick cai de costas e berra: "Ajuudaaaa!" Dez guardas armados levam-no para a embaixada. Algum tempo depois, todos - o pai, o vice-cônsul, seguranças, administrativos - estão a olhar para ele e a pensar: "O que foste fazer?"

Apesar de Nas enviar os restantes 51 mil dólares passados uns dias, o acordo não avança. Nos Estados Unidos, o presidente da Câmara de Morristowon, onde os Alloco vivem, escreve uma carta a Barack Obama; congressistas pressionam a secretária de Estado, Hillary Clinton; o senador Bob Menendez escreve ao Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, e promete "levar o assunto pessoalmente até ao Presidente Obama". Mas do outro lado do Atlântico nada muda. "O procurador-geral foi de férias" é a última desculpa. 

FATURAS E INTERVENÇÕES PRESIDENCIAIS 

A partir da sexta semana, os americanos sentem-se perdidos numa floresta de burocracia. O medo envolve-os. Patrick sonha que está preso. Acorda no quarto de hotel. Sonha que é libertado. Acorda no quarto de hotel. Na cidade mais cara do planeta, já gastaram cerca de 100 mil dólares. Júnior tem o telemóvel cortado desde que a conta atingiu os 5 mil dólares; a fatura do pai vai em 9 800. Têm um plano para escapar através da fronteira da Namíbia, mas não acreditam que resulte. Os dois arranjam uma infeção gástrica.

A 13 de fevereiro, Patrick publica uma última mensagem no Facebook: "O meu filho e eu pensamos sair do hotel amanhã e acamparmos [em frente à embaixada americana]. O nosso estatuto legal mantém-se, mas os nossos recursos esgotaram-se. Alimentar-nos amanhã será um desafio." Fez tudo o que podia, agora entrega-se. Fecha os olhos e adormece.

Durante a noite, alguém lê a mensagem. Pela manhã, os americanos são levados para uma localização secreta. Entregam todos os dispositivos eletrónicos. Patrick só pode garantir: "Todo o peso e recursos da nossa poderosa nação são usados para garantir o nosso regresso." O embaixador dos EUA terá contactado a Presidência de Angola. Os detalhes são secretos, mas o conteúdo terá sido óbvio: "Isto tem de acabar." Exatamente 49 dias depois de terem sido sequestrados, os americanos embarcam num voo da TAP e adormecem. Acordam quando o sol está a nascer sobre Lisboa. Começa, finalmente, um novo ano para os Allocos. Quanto ao balanço final desta epopeia que deverá em breve originar um livro, a posição da embaixada de Angola nos EUA é a mesma: "Trata-se de uma questão privada entre dois empresários. O Estado angolano não comenta."

 

Cronologia - Cativeiro de 49 dias

 

30 dezembro: Patrick Alloco chega a Luanda, onde o filho já está há quatro dias

31 dezembro: Os Alloco são alegadamente raptados por Riquinho e inquiridos pela polícia

2 janeiro: Os seguranças do aeroporto impedem-nos de embarcar, dizendo que estão sob investigação e acusados de fraude

3 janeiro: A história é publicada pelo TMZ e consegue atenção nacional, nos EUA

8 janeiro: Contactam um grupo de ex-militares americanos para os resgatar, mas a missão é cancelada

18 janeiro: Procuradoria-Geral angolana diz que levanta restrição de viajar a Júnior assim que 300 mil euros sejam transferidos para Riquinho

19 fevereiro: Depois de muitos atrasos e da intervenção dos EUA, os americanos aterram no aeroporto de Newark