Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

“Se Trump não ganhar, pode acabar na prisão”

Mundo

Alex Wong/ Getty Images

Cargos por ocupar, falta de competências e conflitos de interesse. Uma mistura de negligência com sabotagem deliberada. É assim que Donald Trump tem gerido o governo federal. O Quinto Risco, o novo livro de Michael Lewis, um dos mais conceituados escritores de não-ficção norte- americanos, deixa-nos um retrato aterrador. A VISÃO entrevistou-o

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

O medo de Donald Trump tem quase sempre que ver com aquilo que propõe (“construam o muro!”), com aquilo que diz (“há boas pessoas de ambos os lados”, referindo-se a neonazis) ou com os escândalos em que se envolve (“grab them by the pussy”). Mas talvez a sua principal marca esteja a passar-nos despercebida: a forma displicente como gere o dia a dia do Governo norte-americano. O jornalista Michael Lewis, autor de Moneyball e de A Queda de Wall Street, mergulhou nalguns dos departamentos mais importantes do governo federal e o que encontrou deixou-o aterrorizado. Após a vitória eleitoral, Trump não tinha equipas preparadas para ocupar posições cruciais na energia, no comércio e na agricultura. As pessoas acabariam por chegar a conta-gotas, mas algumas não conheciam as áreas pelas quais seriam responsáveis, outras estavam mais preocupadas em impedir referências a alterações climáticas e havia ainda aquelas que tinham interesses financeiros diretos na área que deviam gerir. Em causa estão questões tão essenciais como a segurança nuclear do país, a proteção face a desastres naturais e o combate à pobreza. “Algumas das coisas com que o novo Presidente deve preocupar-se são rápidas: pandemias, furacões, ataques terroristas. No entanto, a maioria dos riscos não pertence a este tipo de ameaças. A maioria é como bombas com rastilhos compridos”, escreve Lewis em O Quinto Risco (editado pela Presença). A VISÃO entrevistou-o por telefone, sobre o legado de Trump no Governo dos EUA.

Handout

Ao ler o livro, fiquei um pouco assustado com aquilo que descreve. Enquanto ia descobrindo o que estava a acontecer, também ficou com medo?
Sim. Mas à medida que aprendemos sobre algo, aliviamos os nossos medos, portanto o mais aterrador para mim são as coisas sobre as quais não escrevi. Estou mais preocupado com aquilo que não sei, porque se esta negligência e este ataque institucional existem em todo o governo… Haverá uma história interessante a escrever quando Donald Trump sair e entrar alguém que se preocupe, porque aquilo que está a acontecer não tem precedentes.

Os críticos de Trump costumam focar-se na dimensão ideológica do Presidente, mas o seu livro concentra-se na vertente mais prática, a da governação. Esse lado acaba por ser mais perigoso?
Sim, é mais eficaz, porque ninguém está a olhar para ele. Se pensar no governo norte-americano como uma entidade responsável por gerir vários riscos – e que até o faz bem, se o deixar em paz –, miná-lo por dentro exacerba esses riscos. Do lado ideológico e partidário, existem travões àquilo que Trump é capaz de fazer. Os tribunais já o travaram, o Congresso pode travá-lo… Mas dentro do governo federal, nesse lado da gestão, não existe quem possa travá-lo. É engraçado que, antes da última eleição, eu dizia que não deviam ser apenas os norte-americanos a votar no Presidente, porque vocês em Portugal têm tanta exposição como eu às coisas horríveis que podem acontecer
se o meu governo fizer porcaria.

O desinvestimento na Ciência, por exemplo?
Exato. O mundo depende do governo norte-americano para o investimento de longo prazo em Investigação e Desenvolvimento. Portugal também depende, de certa forma, do arsenal nuclear norte-americano e não se consegue prever o estado do tempo na Europa sem bons dados meteorológicos dos EUA. Trump percebeu que, qualquer problema que crie por não gerir ou gerir mal o governo, terá consequências no longo prazo, quando ele já estiver morto.

Estamos a assistir a casos de incompetência ou a tentativas deliberadas de sabotar o Governo?
Estão a acontecer três coisas diferentes. A primeira é simplesmente incompetência e indiferença. Trump não quer saber. E isso vê-se ao colocar certas pessoas em certos cargos, como Rick Perry à frente do Departamento da Energia [que Perry assumiu que queria eliminar]. A segunda é que existe muita gente com interesses financeiros naquilo que o Governo faz e, quando se tem um Presidente com tão pouco interesse na missão pública, essas pessoas aparecem aos magotes, porque sabem que podem usar este momento para servir os seus interesses. Isso vê-se no serviço meteorológico. Ele pôs à frente da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) uma pessoa que lidera uma empresa que tem interesse em tornar esses serviços privados. A terceira é a existência de uma corrente libertária, que acredita que deve haver muito pouco governo. São poucos, mas influentes. Vê essa corrente em pessoas como Peter Thiel [cofundador do PayPal], na The Heritage Foundation… A visão deles é a de um governo que prejudica as pessoas. Se explicar os problemas a Donald Trump, ele dirá que têm de ser resolvidos. Mas ele passa o dia a ver a Fox News e a responder ao ciclo noticioso.

De onde vem esse preconceito em relação ao setor público?
A primeira pessoa eleita com ataques ao governo foi Ronald Reagan. Foi aí que se percebeu que havia mercado para isso. Mas sempre houve uma dimensão antigoverno nos EUA. Grande parte tem que ver com a complexidade da sociedade e com a dimensão do país. As pessoas não percebem o que o governo faz. Essa ignorância significa que existe um mercado para o comentário negativo. Se for a pequenas cidades norte-americanas, elas não existiriam sem o governo federal. Não teriam escolas, hospitais, bombeiros… Mas se falar com as pessoas, dizem-lhe que o governo é o inimigo. Não fazem ideia de que é a infraestrutura das suas vidas. É o que acontece quando o governo está a milhares de quilómetros de distância.

Fala-se da Solyndra, mas não se fala da Tesla.
Exato. Existe um mercado para as notícias sobre a Solyndra, mas não para o facto de a Tesla ter sido apoiada pelo Governo.

Pergunta isto a várias pessoas que entrevista. Agora pergunto-lhe eu: de todos os riscos que identifica, qual é o que mais
o preocupa?

Diria duas coisas. A primeira é que já existe uma narrativa que diz que o governo é incompetente e que tudo aquilo em que se envolve é mau. Quando colocamos alguém incompetente a liderá-lo, essa narrativa vai reforçar-se. Temo que estejamos a cair neste círculo vicioso, em que se tornará impossível confiar no governo. O problema é que há coisas que apenas o setor público pode fazer. O risco específico que me preocupa mais é provavelmente o ataque à Ciência. Há tanta Ciência que o setor público financia e que o privado não apoia que me preocupa que estejamos a perder essa capacidade, que daqui a 30 anos tenhamos um clima a ferver e que não sejamos capazes de cultivar alimentos. Mas existem tantos riscos para escolher! [Risos.] Eu não estou despreocupado com a possibilidade de uma bomba nuclear explodir acidentalmente. Isso é possível. Acho que é totalmente possível que o sistema de meteorologia perca a capacidade de comunicar com o povo norte-americano. Em relação ao setor financeiro, acho possível que Trump desencadeie sozinho uma crise. Para a resolver, seria preciso um governo no qual as pessoas confiassem.

É um exagero dizer que o governo federal está a ser destruído por dentro?
Não é um exagero. O governo é que é muito grande… É como pegar num martelo para partir um camião gigante. Demora algum tempo, mas eventualmente vai destruí-lo. Nesta altura, ele já tem algumas amolgadelas e [Trump] continua
a bater.

A história que conta no prólogo sugere que Trump não queria ser Presidente.
É verdade que todas as pessoas próximas dele, incluindo ele próprio, não esperavam que pudesse vencer as eleições. Era um exercício inteligente de marketing. Essa é a única forma de explicar o seu comportamento até à vitória, como o facto de não se ter preparado para governar. Para quê preparar-te se achavas que nunca irias ganhar? Foi apanhado de surpresa. Outra questão é se ele queria ganhar. Não sei a resposta. Se dissessem a Trump que ele podia ganhar, talvez ele tivesse pensado melhor acerca das suas declarações de impostos, por exemplo. Atualmente, parece-me claro que ele quer ganhar. Parece desesperado por ficar na administração. Ficar é a única forma de controlar o seu destino. Se não ganhar, pode acabar na prisão. Tornou-se uma questão de sobrevivência pessoal. Foi amaldiçoado e tem de continuar a vencer para não ficar em apuros.

Desde que terminou de escrever o livro [no final de 2018], houve algum progresso?
Não, só tem piorado! Ainda agora, um ótimo exemplo de como é importante quem detém certos cargos é esta crise sobre a Ucrânia. Trump queria colocar como diretor dos Serviços Nacionais de Informação um ideólogo do Texas: o Congresso não deixou. Portanto, foi lá posto um tipo que ainda não está confirmado e até tem sido muito honesto. Se Trump tivesse colocado lá quem queria, nós nem saberíamos disto. Se andar pelos departamentos, percebe que as vagas não são preenchidas, que os funcionários públicos estão a reformar-se a um ritmo veloz, que não existe direção de cima e que, em muitos sítios, ainda estão a operar com as instruções da Administração Obama, porque ninguém lhes disse o que fazer.

A crise na Ucrânia também nos faz regressar ao debate acerca de incompetência vs. ação deliberada, certo?
Sim. Estão relacionados. Se quiser fazer algo sinistro na Ucrânia, é mais fácil se remover toda a gente do Departamento de Estado ou dos serviços de informação. Eliminar a especialização e quem está a tentar fazer um bom trabalho torna mais fácil fazer coisas más.

Este caso com a Ucrânia vai prejudicar Trump? Ele já sobreviveu a muito.
Parece um filme de terror, não é? Pensamos que a criatura assustadora está morta, mas abrimos o armário e ela está lá com um machado. Há muito tempo que desisti de tentar descobrir o que vai mandar abaixo Donald Trump. Acho que ele tinha razão quando dizia que podia disparar sobre alguém na 5ª Avenida e continuar a ser Presidente. A nossa sociedade está tão polarizada que os seus apoiantes mais fiéis não vão abandoná-lo. Com esse apoio, ele é assustador para os republicanos no Congresso, porque pode arruinar as suas carreiras. Não vejo como isto [crise da Ucrânia] pode acabar com ele a ser afastado.

Pode sair mais forte?
Acho que não. Aquilo que torna este caso diferente dos outros é que é muito claro e persuasivo. Ninguém diz: “Ah! Trump nunca faria isso.” Toda a gente sabe, mesmo os seus apoiantes, que é assim que ele atua. Como envolve estrangeiros e uma tentativa de interferir nas eleições norte-americanas, o caso vai criar uma dissonância cognitiva no seu eleitorado, que gosta de agitar a bandeira dos EUA. Ainda agora passei uma semana no Dakota do Sul. Há cartazes de Trump e bandeiras norte-americanas por todo o lado. São muito patriotas. Se colocar na cabeça deles a ideia de que o tipo que eles apoiam está a conspirar com ucranianos para interferir nas eleições norte-americanas, isso não será bom. Podem racionalizar ou pô-lo de lado, mas vão questionar-se. A ideia de traição é importante para aquelas pessoas.

Esta questão acerca do filho e Joe Biden será o novo “emails da Clinton”?
[Risos.] Quando olham para os EUA, os portugueses acham que isto é uma loucura, não é?

Também temos casos próximos de confusão política. Neste momento, apostaria na reeleição de Trump?
Apostaria contra ele. Embora seja verdade que 35% do país está com ele, aconteça o que acontecer, metade está contra ele, aconteça o que acontecer. A hostilidade é tal que não creio que ele consiga recuperar. Sei que parece uma coisa estúpida de se dizer, porque as pessoas têm apostado há muito tempo contra ele, mas acho que está em apuros.

Barack Obama comprou os direitos do seu livro para fazer um documentário para a Netflix. Já está mais do que habituado a este tipo de adaptações, mas esta é especial, não?
É diferente, por vários motivos. Quando escrevi sobre ele [Obama] para a Vanity Fair há uns cinco anos, fiquei a conhecê-lo relativamente bem. Como gosto dele, fico contente por entrar no mundo do entretenimento, porque acho que ele será muito bom. Da minha perspetiva, aquilo que quero saber quando vendo estes livros para adaptação é se
[o filme] vai ou não ser feito. E, como Obama quer muito fazê-lo, vai ser feito. Os meus outros livros foram adaptados a filmes, este será um documentário de oito ou dez partes. Nesse sentido, é menos glamoroso, não vai ter estrelas de cinema.

Brad Pitt não vai entrar neste.
Sim, o Brad Pitt não vai fazer de Rick Perry. Mas pode ter efeitos. Quando comecei a explicar às pessoas o que o governo faz, elas ficaram interessadas. Trump tornou tudo possível, até um reforjar da ligação entre os norte-americanos e o governo, por sentirem que Trump é uma ameaça tão grande. Um dos motivos para as coisas estarem como estão é o facto de as pessoas serem ignorantes. Achavam que não precisavam de saber como as coisas funcionam porque elas funcionaram sempre mais ou menos bem. É como voltar a apaixonar-se pela sua mulher quando ela fica doente. Passa a apreciar algo que está em risco de desaparecer.

Alguma vez ficou chateado com a forma como um livro seu foi adaptado?
Não. Quando vi pela primeira vez Um Sonho Possível, percebi que estava a congratular-me por aquilo de que gostava e a culpar o realizador por aquilo de que não gostava. Assim que percebi o que estava a fazer, parei. Tive uma sorte incrível com a qualidade dos filmes. Foram nomeados para Oscars, foram vistos por muitas pessoas… Portanto, não posso queixar-me.

Além dos livros, este ano decidiu fazer um podcast chamado Against the Rules, sobre a falência dos árbitros na sociedade norte-americana. Dos média e do desporto à arte e ao setor financeiro – essa degradação também ajuda a explicar a ascensão de Donald Trump?
O declínio do árbitro é também um declínio da confiança na sociedade. Se for forte, o árbitro é uma fonte de confiança, leva as pessoas a pensarem que o jogo “foi justo”. Mas as pessoas sentem que hoje o jogo não é justo e a sua incapacidade de aceitar qualquer tipo de árbitro torna Donald Trump possível. Aquilo que ele explora é um ambiente de desconfiança. Toda a sua vida foi vivida sem confiar em ninguém. Pessoas que sentem estar a ser vítimas de muitas decisões erradas respondem à sua mensagem. As duas coisas estão muito relacionadas.