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Há dúvidas, muitas dúvidas sobre o relato dramático da morte do líder do Estado Islâmico anunciado por Trump 

Mundo

Tasos Katopodis

O presidente americano descreveu com detalhe como foram os últimos minutos de vida de Al-Baghdadi, mas as imagens da operação transmitidas para a sala de operações dificilmente permitiam uma descrição com tanto pormenor

A descrição do grande momento é feita ao detalhe, sem esconder alguns pormenores macabros, e diz respeito à operação dos marines americanos que ditou a morte do líder do auto-proclamado Estado Islâmico Abu Bakr –al-Baghdadi. Na conferência de imprensa em que se vangloriou pelo feito, Donald Trump, com as habituais bandeiras federais atrás, adotou uma pose dramática, a condizer com o tom de voz: “Na noite passada, os EUA fizeram finalmente justiça à ação do pior terrorista do planeta”, começou por dizer. “Há muito tempo que andávamos à sua procura.”

Trump, obviamente, não perdeu a oportunidade de anunciar a façanha como uma grande conquista da segurança nacional dos EUA, e fez sobretudo questão de acentuar que Al-Baghdadi, 48 anos, “passou os últimos momentos cheio de medo, num pânico absoluto”, enquanto era perseguido dentro de um túnel sem saída, acompanhado de três dos seus filhos. “Foi então que, vendo-se encurralado, detonou o seu colete suicida, ditando o seu fim”, disse.

A operação ocorreu no noroeste da Síria e estaria a ser monitorizada através de feeds de vídeo, momento que o Presidente americano comparou com o visionamento de um filme. Só que, segundo avançaram, entretanto, ao New York Times, alguns oficiais da CIA e outros militares que acompanharam o momento, as filmagens apresentadas na sala de operações da Casa Branca não eram mais do que imagens de vigilância do complexo escuro, com imagens térmicas a permitir diferenciar uns de outros.

Ou seja, as câmaras não poderiam ter apanhado o túnel onde Al-Baghdadi morreu, nem fornecer provas de som da sua conduta durante os seus últimos minutos. Os soldados envolvidos usaram câmaras junto ao corpo, sim, mas as imagens que recolheram ainda não tinham sido dadas à Casa Branca no momento em que Trump avançou para a conferência de imprensa.

Interpelado no programa da ABC, This Week, pouco depois do anúncio, o secretário da defesa Mark Esper também não corroborou os detalhes da narrativa quase cinematográfica do presidente. “Não tenho essas informações”, disse, depois de questionado sobre como é que Trump sabia que Al-Baghdadi chorou compulsivamente, à hora da morte. Mas logo procurou justificar: “Certamente que o meu Presidente teve oportunidade de falar antes com os comandantes que estavam no terreno.”

Já o conselheiro da segurança nacional, Robert O'Brien, adiantou ao Meet The Press, que os restos mortais de al-Baghdadi, mutilados pela explosão, seriam provavelmente atirados ao mar. Questionado se o corpo seria tratado da mesma maneira do que o de Osama bin Laden - antigo líder e fundador da Al-Qaeda, em tempos a organização terrorista mais temida do mundo, de cuja cisão surgiu o ISIS, e que acabou por ser sepultado no mar - o mesmo O’Brien rematou: “espero que seja esse o caso”. Já sobre sobre os tais detalhes da operação, nada disse.