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Boris, o populista das mãos largas

Mundo

Leon Neal

O novo primeiro-ministro britânico tem de mostrar o que vale até 31 de outubro, data em que pretende ver consumado o divórcio com a UE. Para já, diz que vai gastar muitos milhões em infraestruturas e em serviços para melhorar a qualidade de vida dos seus compatriotas. É o preço que parece disposto a pagar na eventualidade de novas eleições no outono

Um dos hábitos mais perigosos dos políticos é prometerem aquilo que sabem não poder cumprir. E o novo primeiro-ministro do Reino Unido tem um longo historial nesse capítulo. Só que Boris Johnson – ou Bojo, como também é conhecido – já não está em condições de proferir os mesmos disparates que o tornaram o mais mediático e excêntrico deputado britânico. Em 2005, afirmou que votar no Partido Conservador faria com que os peitos das mulheres dos militantes “se tornassem muito maiores”. Agora, tem de se mostrar digno do cargo que ocupa, mas há coisas que nunca mudam.

O frenético périplo pelo país que começou no final de julho é o melhor exemplo da sua verve populista. Empenhado em demonstrar que consegue celebrar um acordo de divórcio com a União Europeia até 31 de outubro – “a bem ou a mal” (“do or die”) –, o ainda colunista do Telegraph parece já estar em campanha eleitoral, como destaca toda a imprensa britânica. Otimista incorrigível, diz querer contagiar os seus compatriotas com uma nova energia, a mesma que usou no seu primeiro discurso na Câmara dos Comuns, em que tentou apresentar os seus (vagos) planos para converter a Velha Albion num novo paraíso terrestre: “O melhor sítio do mundo para viver. O melhor sítio para criar uma família. O melhor sítio para ter os miúdos na escola. O melhor sítio para investir ou montar um negócio. (...) É esta a missão do Governo que eu nomeei.”

Para cumprir os seus intentos, Boris Johnson montou um executivo de linha dura e começou imediatamente a fazer grandes promessas e a falar em dinheiro, num gigantesco volume de libras esterlinas. No seu entender, não há quaisquer motivos de preocupação com a dívida, com o défice e com o equilíbrio das contas públicas. No final de julho, na sua primeira viagem para fora de Londres, anunciou que vai injetar quatro mil milhões de euros para regenerar as 100 cidades mais decadentes do país. Na mesma jornada, fez ainda saber que será construída uma nova linha férrea no Norte de Inglaterra, entre as áreas metropolitanas de Manchester e Leeds. Em relação a este último projeto, o objetivo é dinamizar os depauperados centros industriais da região, mas não só: Boris quer desde já garantir o apoio dos votantes do Partido Trabalhista que defendem o Brexit e que podem revelar-se decisivos num cenário de eleições gerais antecipadas.

Uma possibilidade cada vez mais verosímil tendo em conta o ultimato do primeiro-ministro a Bruxelas, afirmando não estar disponível para negociar rigorosamente nada enquanto os seus pares europeus não rasgarem o acordo de divórcio celebrado pela sua antecessora, Theresa May, e não abdicarem de vez da cláusula de salvaguarda para o restabelecimento de uma fronteira física entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda. Condições que continuam a ser rejeitadas pelo principal negociador da UE, o francês Michel Barnier, que as descreveu como “absolutamente inaceitáveis”.

Ameaças e minudências

A intransigência e as manobras dilatórias de parte a parte ameaçam alimentar uma espiral de consequências imprevisíveis. Boris Johnson continua a dizer que preferiria um acordo mas, face a um possível divórcio litigioso, adverte que o seu país “está muito mais bem preparado do que muita gente imagina”. Ao mesmo tempo, e talvez para desconcertar ainda mais os seus interlocutores, manifesta estar pronto para percorrer “muitas milhas extra” para chegar a uma solução de consenso. Os 27 e a Comissão Europeia garantem que jamais aceitarão discutir novamente os termos da saída do Reino Unido e admitem retaliar de forma implacável, caso o Governo de Londres, por exemplo, não cumpra as suas obrigações contratuais e se recuse a pagar os 39 mil milhões de libras (quase 44 mil milhões de euros) acordados com Bruxelas – algo que Boris Johnson já disse ser possível para “ajudar a gerir as eventuais consequências” de um no deal. A confirmar-se tal hipótese, o atual impasse daria lugar a um conflito político-financeiro sem precedentes, entre Londres e os principais executivos do Velho Continente. Colaboradores do Presidente Emmanuel Macron, citados pela imprensa francesa, dizem que Boris Johnson terá de honrar os compromissos britânicos; não o fazer seria “o mesmo que declarar o incumprimento da dívida soberana, com as consequências que todos conhecemos”.
Minudências, poderia dizer o homem que sempre teve o sonho de ser “rei do mundo” e de viver no número 10 de Downing Street, residência oficial do primeiro-ministro britânico e lugar para o qual se mudou no início desta semana, na companhia da sua namorada, Carrie Symonds, de 31 anos, antiga consultora dos tories reconvertida em ativista ambiental. Para Boris Johnson, os tempos de austeridade têm de passar à história e o seu papel é devolver a esperança aos britânicos. E, nesse sentido, todo o dinheiro é bem gasto, por dispendiosos e megalómanos que sejam os seus planos em obras públicas ou para os setores que precisam de financiamento urgente, como o velhinho NHS (o sistema público de saúde). Se tivermos apenas este último como referência, convém explicar que o reino de Isabel II também conta com hospitais decrépitos e com enormes listas de espera para 4,5 milhões de utentes que necessitam de intervenções cirúrgicas de rotina.

Orgias e porta dos fundos

É por tudo isto que Bojo anda numa roda-viva a fazer promessas junto das nações que compõem o reino (Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda do Norte). Esta segunda-feira, 29, a deslocação às Terras Altas não correu como planeava. Mais de 62% dos escoceses votaram contra o Brexit, no referendo de 2016, e muitos deles consideram-no um dos grandes responsáveis pela atual crise, razão pela qual teve de ouvir muitos apupos e insultos em Edimburgo. Para o embaraço não ser maior, Boris Johnson saiu pela porta dos fundos da Bute House, a mansão oficial da líder do Governo escocês, Nicola Sturgeon. Em conferência de imprensa, a líder nacionalista não escondeu o seu desagrado por um possível no deal entre Londres e Bruxelas, aproveitando o ensejo para sublinhar que os escoceses “vão escolher o seu futuro” e que poderá haver um segundo referendo sobre a independência do território, depois do “não” tangencial em 2014. Como se não bastasse, também a principal dirigente do Partido Conservador na Escócia, Ruth Davidson, veio dizer publicamente que discorda do rumo escolhido por Boris Johnson. Num artigo publicado no Daily Mail, informa que se vai bater por todos os meios contra um divórcio litigioso com a UE, dando a entender que poderá votar ao lado da oposição, caso o Governo seja alvo de uma moção de desconfiança até ao final de outubro. Um péssimo prenúncio porque a maioria parlamentar dos tories está prestes a desfazer-se, depois da purga governativa na última semana, com vários deputados a darem sinal de que podem vir a contribuir para que Boris Johnson se torne o primeiro-ministro mais breve da História. Nada que o visado não esteja à espera. “No Partido Conservador estamos habituados às orgias de canibalismo e às matanças do chefe de tribo, como na Papua- -Nova Guiné”, escreveu ele em 2006, no Telegraph.

Pontes para nenhures

O primeiro-ministro tem plena consciência de que a retórica não lhe permitirá governar por muito tempo e de que precisa de mobilizar o país. A austeridade da última década e todas as incertezas suscitadas pelo Brexit cavaram o fosso entre leavers e remainers, entre ricos e pobres, entre jovens e velhos, entre zonas urbanas e rurais. A terapia de choque protagonizada por Bojo passa por despejar nas próximas semanas mais de 30 milhões de libras na economia e criar a perceção de que a qualidade de vida das pessoas está prestes a mudar. Em paralelo, o seu Governo está a preparar aquilo que o tabloide The Sun definiu como a maior campanha de informação desde a Segunda Guerra Mundial, uma iniciativa propagandística que incluirá anúncios nos média tradicionais e sobretudo nas redes sociais. Também não é por acaso que Bojo se deslocou, esta terça-feira, ao País de Gales para dizer aos agricultores locais para estarem tranquilos com o Brexit, pois Londres tem muitos subsídios para lhes oferecer. A longa lista de promessas definidas pelo chefe de Governo e pelo seu principal conselheiro, Dominic Cummings (ideólogo das principais mentiras da campanha de 2016), ainda só agora começou. E não deixa de impressionar: baixa generalizada de impostos para o comum dos mortais (todos os que ganhem menos de 100 mil euros) e para as empresas (de 19% para 12,5%); redução das contribuições para a Segurança Social e das taxas sobre o imobiliário; redução do número de estudantes por turma e a garantia de que o Estado gasta até seis mil euros anuais por aluno; mais 20 mil polícias nas ruas; aumentar o orçamento das Forças Armadas em 18 mil milhões de euros; neutralidade carbónica até 2050… Esta revolução inclui ainda o alargamento do Aeroporto de Heathrow, em Londres, uma ligação ferroviária de alta velocidade entre a capital e Birmingham, e o mais provável é que haja ainda dinheiro para se construir uma ponte entre a Irlanda do Norte e a Escócia, os dois territórios onde se concentram os maiores críticos de Boris Johnson. Afinal, não há duas sem três. Há uma década, quando era o autarca de Londres, quis construir uma ponte-jardim sobre o Tamisa. No início do ano passado, anunciou uma ponte a ligar os 33 quilómetros do Canal da Mancha, na zona de Calais. Que não haja dúvidas: a silly season acaba depressa e, como escreveu a revista Economist, muito em breve saberemos se haverá eleições no Reino Unido e se Boris Johnson é mesmo um “Houdini político”.

Ministros
Tropa de elite pelo Brexit

Quem são os principais colaboradores de Boris Johnson, num Governo que o primeiro-ministro define como um “war cabinet” (“gabinete de guerra”)

Michael Gove
Ministro de Estado

Oficialmente, é o chanceler do Ducado de Lencastre
– gestor das propriedades reais –, mas na prática é o número dois do Governo. Filho adotado de uma família escocesa, foi um aluno brilhante cujo desempenho impressionou até os seus professores em Oxford. Ex-jornalista do Times, entrevistou Donald Trump em 2017, após ter promovido o Brexit e traído Boris Johnson na corrida à liderança dos tories. Apontado como o cérebro do executivo, tem 52 anos.

Ben Wallace
Ministro da Defesa

Amigo de longa data de Boris Johnson, este antigo capitão do Exército fez fortuna no setor privado, na área da segurança. Deputado desde 2005, integrou depois os governos de David Cameron e de Theresa May. Em 2016 fez campanha para o país permanecer na UE, mas tem vindo sempre a mudar de opinião. Há menos de um ano, disse que um Brexit desordenado e sem acordo com Bruxelas poria em causa a ordem pública no Reino Unido.

Priti Patel
Ministra do Interior

Uma das figuras mais polémicas dos tories por ser adepta de políticas securitárias e da pena de morte. Com 47 anos, esta eurocética filha de imigrantes indianos regressa ao Governo de Sua Majestade após ter sido despedida por Theresa May, em novembro de 2017. Motivo: foi de férias a Israel e manteve 12 encontros com dirigentes hebraicos – incluindo o primeiro-ministro, Netanyahu – sem avisar ninguém em Londres. Nunca pediu desculpa
pelo incidente.

Amber Rudd
Ministra do Trabalho
Uma das mais conhecidas dirigentes conservadoras e eterna candidata a liderar o governo. Com 55 anos, já tutelou as pastas do Ambiente e das Mudanças Climáticas, do Interior, da Energia e até da Igualdade de Género. Em 2016 fez campanha pela permanência do país na UE, mas parece ser outra das personalidades que mudaram de opinião para se manterem no poder. Gosta de recordar que ajudou a produzir a famosa comédia Quatro Casamentos e um Funeral.

Sajid Javid
Ministro das Finanças

Filho de um motorista e de uma doméstica analfabeta, ambos paquistaneses, nasceu e cresceu no Reino Unido, onde se licenciou em Economia e Ciência Política. Admirador da antiga primeira-ministra Margaret Thatcher, foi administrador do Deutsche Bank, antes de se tornar deputado, há quase uma década. É um eurocético que, em 2016, fez campanha para o país permanecer na UE. Agora, aos 49 anos, vai gerir as contas do reino a mando
de Boris Johnson.

Stephen Barclay
Ministro do Brexit

Um dos poucos dirigentes conservadores que sobreviveram à purga política de Boris Johnson e que mantêm a pasta com que serviram no governo de Theresa May. Formado em Direito e História, frequentou também a Academia Militar de Sandhurst, para depois se tornar fuzileiro. Acabaria por trocar os quartéis pela alta finança, até chegar à política, há uma década. A sua agenda para os próximos três meses promete ser frenética. Tem 47 anos e é filho de um sindicalista.

Andrea Leadsom
Ministra da Energia

Em 2016, após o referendo do Brexit, entrou na corrida para suceder a David Cameron, de modo a liderar os conservadores e o Reino Unido. Em vão. No mês passado, com a demissão de Theresa May, voltou a candidatar-se com o propósito de ser primeira--ministra. Agora, aceitou regressar ao Governo por saber que, aos 55 anos e face aos desafios que Boris Johnson enfrenta, ainda vai a tempo de lutar pelo cargo máximo uma terceira vez.
Às vezes, duvida das mudanças climáticas.

Dominic Cummings
Conselheiro do PM

A imprensa britânica define-o como o chefe de gabinete de Boris Johnson e um dos grandes responsáveis pelo estado a que chegou o país. Em 2016, foi o diretor da campanha pelo divórcio com a UE e também o responsável pelas mentiras que vimos retratadas no filme Brexit: The Uncivil War, protagonizado por Benedict Cumberbatch. É acusado de desobediência pelo Parlamento, por não ter colaborado no inquérito sobre as manipulações ocorridas durante o referendo.

Dominic Raab
Ministro dos Negócios Estrangeiros

É um dos seis ministros que compõem o gabinete XS (abreviatura de exit strategy), responsável pela estratégia de saída da UE. No anterior governo, negociou o acordo de divórcio com Bruxelas mas depois demitiu-se por discordar do seu teor. Este eurocético conhecido pelas suas tiradas misóginas tem 45 anos e é casado com uma gestora brasileira da Google, com a qual aprendeu português.

Jacob Rees-Mogg
Líder parlamentar dos Conservadores

Já era uma das vedetas da política britânica e também das redes sociais. Agora, aos 50 anos, este “ilustre representante do século XIX”, como o próprio se define, é também líder da Câmara dos Comuns e, por inerência, pode sentar-se no Conselho de Ministros, na qualidade de titular da pasta dos Assuntos Parlamentares. Aristocrata, multimilionário, católico, negacionista das mudanças climáticas e eurofóbico, diz ser “um homem do povo”.

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