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Esta é a história do menino do Mali que coseu as notas da escola no forro do casaco antes de tentar a travessia para a Europa

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Ao porto da Catânia, nessa longa noite de abril de 2015, só chegaram 26 das mais de mil pessoas que seguiam no mesmo barco do tal menino do Mali

Tullio M. Puglia/Getty Images

Convencido de que as boas notas seriam o seu melhor passaporte para o futuro, o rapaz do Mali coseu-as no forro do casaco e fez-se ao mar. A travessia do Mediterrâneo não teve final feliz, mas o segredo acabou por ser descoberto e a sua história anda a correr mundo

Tinha 14 anos, nascera no Mali e era um bom aluno – o que o levou a pensar que essas boas notas da escola o ajudariam a provar o seu valor quando chegasse à Europa. Dobrou as folhas cuidadosamente e coseu-as a um bolso do forro do casaco, para que não se perdessem. Estávamos a 18 de abril de 2015. Naquela noite, a traineira em que embarcara afundou ao largo da costa da Líbia, engolindo os sonhos desse menino e de outras mil pessoas. Foi "só" o maior naufrágio dos últimos anos.

“Nem imaginamos a expetativa que teria para ter guardado com tanto cuidado um documento que o reconhecia como um menino esforçado, acreditanto que isso lhe abriria portas em alguma escola italiana ou europeia. Ficou tudo reduzido a um papel empapado”, comentaria depois a médico legista Cristina Cattaneo, líder da equipa do laboratório forense de Milão que analisaria aquele corpo sem vida durante um ano para lhe tentar dar uma identidade – mas sem sucesso.

Cattaneo conta a sua história no livro Faceless Shipwrecked (náufragos sem rosto), publicado em Itália, no qual explica o trabalho da sua equipa durante os últimos cinco anos para tentar restaurar a dignidade desses mortos sem um nome. Cristina ainda se lembra do dia em que o corpo daquele rapaz chegou às suas mãos.

"Pesava muito menos do que o resto das vítimas", conta no seu livro, citado pelo El Mundo. Quando olharam para ele perceberam logo que era muito mais novo do que a maioria dos que se fazem a este mar aqui ao lado. No início, ainda pensaram que tivesse uns 17 anos, mas acabaram por concluir que não tinha mais de catorze.

Na noite da travessia, o que o esperava na praia era uma barcaça azul com uma risca branca. Na proa,em árabe, lia-se “abençoado Alá”. Normalmente, levava a bordo cerca de 20 pescadores, mas naquela noite subiriam a bordo perto de mil pessoas. À meia noite, num porto perto de Zwara, a oeste de Tripoli, capital da Líbia, os traficantes empurram aquele magote de gente desesperada que pagara por uma passagem para a Europa.

Há por ali várias crianças. Algumas viajam sozinhas. Para muitas, é a primeira vez que veem o mar. Ao fim da tarde do dia seguinte, o Centro Nacional para a Coordenação de Salvamento Marítimo da Guarda Costeira de Roma recebe o primeiro pedido de ajuda. Um navio, curiosamente de bandeira portuguesa, partiu imediatamente para lhe dar assistência. A cem quilómetros da costa da líbia, 180 de Malta e 200 da ilha italiana de Lampedusa - conhecida como “A Porta da Europa”, por se encontrar bem mais próxima de África do que qualquer ponto do resto de Itália - o barco afunda. Apenas 28 pessoas serão resgatadas com vida.

Demorou mais de um mês à marinha italiana para localizar com precisão o local onde a traineira teria ido ao fundo. Os primeiros corpos são recuperados só a 7 de maio. Umas semanas depois, Cristina Cattaneo e a sua equipa montaram um laboratório improvisado na base da NATO na cidade portuária da Catânia, na Sicília. Um ano depois, enquanto analisam os mais de 500 corpos que foi possível recuperar, deparam-se com um cadáver fora do comum.

“Estava tão rígido por causa do frio que era preciso cortar o casaco para o analisar. Enquanto procurava alguma marca em particular, notei o que parecia um papel cosido no forro do casaco” conta Cristina. Depois de um ano no fundo no mar, a 370 metros de profundidade, não sobrou muito daquele menino que deixou o seu país para fugir da pobreza: apenas um documento quase ilegível em francês que dizia ‘Bulletin scolaire’. Era a sua caderneta do aluno.

Algumas letras tinham-se apagado, mas ainda se conseguia ler matemática, ciências, física, numas palavras meio desbotadas. O caso impressionou tanta gente que, em muito pouco tempo, o menino do Mali ganhou um rosto, pele escura e cabelos encaracolados – pelo menos foi assim que o imaginou o cartoonista italiano Marco Dambrosio, conhecido como Makkox, e que publicou o desenho no jornal Il Floglio, tornando-se viral em itália.

Nele aparece um menino sentado no fundo do mar, com um polvo e um peixe a darem-lhe os parabéns pelas suas excelentes notas. “Uau, uma pérola rara!”, comentam.

Os restos mortais da criança descansam agora num túmulo anónimo na Sicília, onde foi enterrada a maioria dos mortos sem nome recuperados do fundo do Mediterrâneo. Só em 2018, mais de 2 mil morreram a tentar atravessá-lo, contabilizou a Organização Internacional para as Migrações. Nos últimos 15 anos, o número chegou aos 30 mil. Sobre o naufrágio em que seguia aquele menino do Mali nunca se conseguiu saber exatamente quantas pessoas morreram. Só na sala de máquinas do navio contaram-se 65 corpos sem vida. Alguns estavam abraçados.

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