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Moçambique: “Não houve avisos sobre a violência que aí vinha”

Mundo

D.R.

A garantia é dada por um engenheiro português a trabalhar em Moçambique e com contactos regulares com a Beira. Número de crianças em risco supera os 250 mil

A garantia foi dada à VISÃO por um engenheiro civil que vive e trabalha em Moçambique há sete anos, e que atualmente se encontra na zona de Tete. Preferindo não ser identificado, aquele profissional realçou que a sua empresa costuma estar atenta aos alertas meteorológicos, uma vez que trabalham com obras públicas, mas que a gravidade da situação nunca foi antecipada por parte das autoridades.

“Disseram que ia haver chuva forte, que ia haver alguns ventos, mas nada que nos fizesse prever isto”, conta num telefonema interrompido pela trovoada que durante a tarde também chegou a Tete, embora sem consequências de maior.

Esta noite, em declarações à SIC Notícias, Elias Lutemba, primeiro-secretário da Frelimo em Portugal, reforçou que não era possível ter noção da gravidade do ciclone e que foi essa a principal razão pela qual não foram tomadas mais medidas preventivas. “Falava-se em ventos de 70 km /hora e chegaram uns de 170 km/hora”, defendeu-se o representante do partido atualmente no Governo em Moçambique.

No entanto, um documento oficial do Centro Meteorológico da África do Sul a que a VISÃO teve acesso, datado do dia 13 de março, dava conta da chegada do ciclone Idai e da previsão de ventos na ordem dos 176km/hora a atingirem a região do centro de Moçambique no dia 15 de março, como acabaria por ocorrer.

As frágeis infraestruturas da região centro não aguentaram a força dos ventos e da chuva, e durante a tarde desta quarta-feira, informações oficiais davam conta de que o hospital da Beira estava a funcionar apenas em algumas alas e que os postos de saúde das cidades vizinhas estavam praticamente todos inativos.

Atualmente, há registos de 30 portugueses desaparecidos na região de Sofala, mas as falhas de comunicações e a chuva que ainda não deixou de cair têm dificultado tanto os acessos das equipas de resgate como a correta transmissão de informação sobre a atual situação naquela zona do país.

Começaram também a surgir informações sobre os avultados prejuízos que os empresários portugueses residentes na Beira deverão registar. Tal como a VISÃO já tinha referido durante a tarde, esta é uma cidade com uma significativa comunidade lusa, onde os empresários fazem sobretudo negócios com países vizinhos de Moçambique. A destruição quase total daquela cidade terá provocado prejuízos ainda incalculáveis mas que “dificilmente serão recuperados a 100%”, referiu em conversa o mesmo engenheiro civil que falou à VISÃO. “As pessoas terão que recomeçar praticamente do zero”.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros anunciou ao final desta quarta-feira que o primeiro avião C-130 da Força Aérea Portuguesa seguirá à meia-noite para dar apoio no terreno às forças operacionais. São 35 militares das forças armadas que chegarão à Beira, com equipas de medicina legal e da polícia científica, que Portugal também disponibilizou para dar apoio naquele que já é considerado o maior desastre natural do hemisfério Sul.

Há 260 mil crianças em risco

Os dados são da UNICEF Moçambique e foram atualizados esta tarde. Informações oficiais enviadas à VISÃO dão conta de mais de que mais de 350 mil pessoas estarão em risco, pelo menos, até esta quinta-feira, 21 de abril. Atualmente, mais de 7 500 abrigos foram montados para dar apoio de primeira linha às famílias desalojadas, e a UNICEF, através do Programa ALimentar Mundial (WFP) tinha conseguido garantir fundos para prover duas semanas de alimentação para 120 mil pessoas.

O número de crianças em risco e “em situação de desespero”, atualmente fixado nos 260 mil por este organismo da ONU, poderá aumentar se as condições climatéricas não derem tréguas e se a ajuda humanitária continuar a ter dificuldades em chegar às zonas mais afetadas pelas cheias.

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