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Ex-escrava sexual do Estado Islâmico faz mais um relato perturbador do tempo de cativeiro

Mundo

DELIL SOULEIMAN/ Getty Images

A mulher de 29 anos fala dos abusos e agressões de que foi alvo antes de conseguir escapar aos jihadistas e lembra a sobrinha, de 10 anos, que continua desaparecida e estará grávida

Marwa Khedr tinha 10 anos quando, em agosto de 2014, a povoação onde crescia, Sinjar, região no norte do Iraque, foi invadida por terroristas do autoproclamado Estado Islâmico. Os homens foram enterrados vivos, as mulheres e crianças levadas para uma cidade, divididas por idades - as que tinham entre os 10 e os 20 anos foram levadas para se tornarem escravas sexuais. O relato é feito pela tia de Marwa ao Daily Mail.

Mahdya, de 29 anos, que conseguiu recentemente escapar de um dos últimos redutos do Daesh na Síria, a cidade de Baghuz, descreveu ao jornal britânico como foi vendida, comprada, abusada e como, por várias vezes, se viu forçada a casar com homens que desconhecia. "Não faço ideia quantas vezes fui vendida," diz. "Um homem apenas manteve-me em sua posse durante três dias, depois voltou a vender-me. Retiveram-me num subterrâneo durante dois meses. Não conseguia distinguir o dia da noite”.

Outros dos seus sequestradores era um ocidental que se juntou ao Daesh após passar vários anos na prisão e que “comprava raparigas, lavava-as, vestia-as com roupas bonitas e depois vendia-as”. Este homem reteve Mahdya durante 10 dias.

Outro ainda comprou-a para tratar da limpeza da casa e para cozinhar. Contudo, quatro meses após viverem juntos o homem decidiu que queria casar com a escrava. “Ele disse-me que se desobedecesse ele casava-se com a minha filha de 8 anos ou que a vendia a outro homem.”

No inicio deste mês conseguiu escapar ao seu último marido, um uzbeque. Mahdya esteve um mês "a morrer à fome" e a única maneira que encontrou para sobreviver foi alimentar-se de galhos e de dejetos de animais. “Nunca pensei que fosse sobreviver”, admitiu.

Esta não foi a primeira vez que tentou fugir do Daesh, contudo as suas filhas encontravam-se tão “formatadas” pelo autoproclamado Estado Islamico que se recusaram a juntar-se a ela. “No final, tive que lhes dizer que iamos embora porque iamos procurar comida”.

Agora em segurança, numa vila no norte da Síria, com as suas filhas de 8 e 9 anos, Mahdya recorda que a ultima vez que viu a sobrinha, esta estava "amontoada" juntamente com outras num mercado prestes a ser enviada para Raqqa. A última vez que teve notícias do paradeiro da jovem foi uns meses depois, quando um amigo a viu e reparou que ela estava grávida.

"Há muitas raparigas como ela", explica Ziad Avdal, um antigo professor que toma conta de casas seguras para yazidis que procuram fugir do Daesh. “Não é apenas terrivel ela estar grávida – estas jovem raparigas podem ter sido violadas antes de ter engravidado”.

Os yazidis são uma minoria religiosa do Médio Oriente que remonta o século XI, e que mistura elementos de outras religiões, como o Cristianismo, o Islão e o Zoroastrismo. Segundo dados que remontam a 2017, existem cerca de 700 mil yazidis no mundo. Estes são um dos povos mais perseguidos no Médio Oriente devido à sua veneração de um anjo caído chamado Melek Tawwus (Anjo Pavão), o mesmo nome que o Alcorão atribui a Satanás.

Mahdya e as suas filhas estão entre os 6500 yazidis que foram raptados pelo Daesh. É estimado que cerca de metade dessas pessoas, incluindo Marwa, ainda estejam desaparecidas.

Estas revelações surgem numa altura em que se debate o polémico caso de Shamima Begum, uma inglesa de 19 anos que fugiu do seu pais natal para se tornar uma noiva dos jihadistas e que abriu um debate se as esposas dos combatentes podem regressar aos seus países de origem e receber uma segunda oportunidade ou se devem ficar nos países para onde fugiram para serem julgadas.