Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Um restaurante português no "olho do furacão" dos 'coletes amarelos' em Paris

Mundo

Google Maps

O restaurante português Pedra Alta, numa transversal aos Campos Elísios, é uma referência na avenida mais célebre de Paris, mas sofre atualmente com a sua localização, com perdas de 90% devido aos protestos dos "coletes amarelos"

Joaquim Baptista tem todos os sábados uma difícil decisão em mãos. Dono de 14 restaurantes "Pedra Alta" em França, vários no centro de Paris, cabe-lhe decidir se mantém ou não o seu restaurante da rua de Marbeuf, uma transversal aos Campos Elísios, aberto mesmo com as manifestações dos "coletes amarelos" a decorrerem a poucos metros do seu estabelecimento.

"Hoje de manhã tive de ir ao restaurante de Marbeuf. As entregas não são feitas como habitualmente e isso complica-nos o dia. Tive de me deslocar lá, conhecer a realidade e tomar a decisão se havia ou não condições para abrir. E decidi abrir para que, embora aberto não a 100%, porque não há clientes, os poucos clientes que ainda frequentam os Campos Elísios ao fim-de-semana, não percam o hábito de ir à minha casa, ao Pedra Alta", disse Joaquim Baptista, em declarações à agência Lusa.

Paulo Magalhães, gerente do restaurante e radicado em França há oito anos, descreve o seu trabalho habitual como "no limite" e com "gente, gente, gente" a entrar no restaurante, uma realidade muito diferente do que vive agora.

"É o deserto do Saara, não há ninguém, não há ninguém na rua, não há clientes. Ao almoço é bastante calmo e ao jantar é o que se vê", afirma apontando para uma casa meia vazia.

"Normalmente, ao jantar havia duas de fila de espera e, neste momento, os coletes amarelos são sinónimo de prejuízo", afirmou o gerente à agência Lusa.

No acto 9 dos "coletes amarelos", que aconteceu este sábado, os manifestantes fizeram quase o pleno dos restaurantes de Joaquim Baptista no centro da cidade. Começaram com um cortejo em Bercy, junto do Ministério das Finanças, onde há um "Pedra Alta", passaram pela praça da Bastilha, onde há outro restaurante da cadeia e, como já é tradicional, terminaram com os confrontos - também já habituais - com a polícia nos Campos Elísios.

"Toda a França vive um clima de instabilidade e quando saímos ao sábado ninguém sabe o que vai acontecer, porque os coletes amarelos aparecem de surpresa. Isso leva a que muita gente, especialmente famílias, não queiram sair de casa e todos os restaurantes são penalizados", afirmou Joaquim Baptista.

No entanto, de todos os estabelecimentos no centro da capital, o que está situado na Marbeuf é mesmo o que mais tem sofrido nestes dois últimos meses de protestos, descreve o empresário português.

"Temos uma quebra entre os 20% e os 25% mensais, sendo que aos sábados temos uma quebra de 90%. O mês de dezembro é um mês com festas de Natal e empresas, há muito turismo, é um mês em que quebra muito não podermos trabalhar ao sábado. E não é só o sábado, é também a sexta-feira à noite por causa das barricadas e toda a envolvente que nos deixa em desespero", afirmou o dono da cadeira "Pedra Alta".

O Governo francês estima que os comerciantes nas zonas mais afetadas pelas manifestações perderam cerca de 25% do seu volume de negócios.

"Estamos a falar de uma média de 25%, mas com grandes diferenças. Os comerciantes com produtos perecíveis são mais afetados porque nunca poderão recuperar a sua mercadoria que acaba por se estragar", explicou Agnès Pannier-Runacher, secretária de Estado da Economia, em declarações à BFM TV no final de dezembro.

"Isto tem de ter um fim porque está insuportável continuar assim. Está a ser criado o hábito de as pessoas escolherem outros destinos que não os Campos Elísios e, claro, todos começamos a ficar preocupados. Eu e os meus vizinhos. Eu tenho restaurantes fora de Paris que vão trabalhando bem, mas há outros proprietários que só têm um estabelecimento e é muito grave", relatou Joaquim Baptista.

Até agora, nenhum dos restaurantes deste empresário português foi visado pela violência dos protestos, ao contrário do que acontece aos seus vizinhos, e Paulo Magalhães justifica isto por terem estado abertos sete dos nove sábados de protestos.

"Eu penso que uma casa fechada é uma casa ao abandono e uma casa abandonada mais facilmente é partida. Foi o que aconteceu em alguns estabelecimentos aqui mais perto onde vemos montras partidas, não há segurança e não há ninguém. Enquanto estiver aqui alguém [no restaurante] fica mais seguro para nós. Então os que podem vir trabalhar, porque há alguns que não podem por causa dos transportes, vamo-nos mantendo ocupados e mantemos o cliente o mais seguro possível", relatou o gerente.

Mas o restaurante não fica aberto sem medidas de segurança adicionais. Desde logo, a polícia passa durante a semana para alertar os comerciantes das ruas adjacentes aos Campos Elísios das expectativas para cada manifestação, lembrando que o Estado não se responsabiliza por danos causados por vandalismo.

Durante o sábado, caso haja maior conflito entre as forças da ordem e os manifestantes, os clientes são sentados longe dos vidros que dão para a rua ou acomodados no andar superior.

Com uma clientela baseada no turismo e com uma perda na atividade hoteleira de cerca de 20%, segundo indicaram duas entidades que representam o setor da hotelaria, as previsões de Joaquim Baptista não são animadoras.

"Não podemos prever o futuro, mas comparando com o que aconteceu com os ataques terroristas, as pessoas não vinham e tinham medo. Como os protestos estão a acontecer muitas vezes seguidas, as pessoas nem sabem se devem vir ou não. E isto leva-nos a crer que as pessoas não estão a comprar viagens e podemos ver quebras até aos 50%", disse o empresário português.

Lusa