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Amnistia Internacional retira maior prémio à líder de Myanmar

Mundo

Suhaimi Abdullah

As atrocidades cometidas pelo Exército contra milhares de rohingya e a “indiferença” e “traição” de Aung San Suu Kyi perante os direitos humanos fundamentam a revogação do galardão

A Amnistia Internacional (AI) decidiu retirar o seu maior galardão a Aung San Suu Kyi, a líder de facto de Myanmar, devido “à sua consistente e clara traição aos valores que promoveu durante décadas”, lê-se na carta de justificação.

Em 2009, San Suu Kyi recebeu o prémio de Embaixadora de Consciência, o mais alto desta organização de direitos humanos.

A decisão foi comunicada ontem, dia 11, à líder da antiga Birmânia através de uma carta do secretário-geral da AI, Kumi Naidoo. “Estamos profundamente desapontados por já não representar um símbolo de esperança, coragem e defesa eterna dos direitos humanos”, refere na missiva.

Em causa está a total inação do governo de Myanmar perante o que um relatório da ONU chamou de “assassínios em massa” e “violações coletivas”, com “intenção genocida” durante a ofensiva militar que começou em 2017 e levou centenas de milhares de rohingya (minoria muçulmana) – estima-se em 700 mil – a fugirem para o Bangladesh.

Não é a primeira vez que um prémio dado à líder de Myanmar é revogado. Cidadania canadiana honorária; prémio de direitos humanos do Museu do Holocausto dos EUA; título da Liberdade de Oxford; prémio da Liberdade de Edimburgo. Todos foram retirados devido à “limpeza étnica e aos crimes contra a humanidade” – como referiram já alguns prémios Nobel numa declaração pública – cometidos pelo Exército de Myanmar contra os rohingya sem que o Governo local tenha feito alguma coisa para travar o massacre.

Aliás, já houve uma petição para lhe ser retirado o Prémio Nobel da Paz, honra concedida em 1991, mas o diretor do Instituto Nobel norueguês, Olav Njolstad, esclareceu que não existem cláusulas estatutárias que o permitam. O Nobel é entregue depois de feita uma avaliação dos atos da pessoa até que a distinção lhe é atribuída e não das ações posteriores.

Aung San Suu Kyi foi venerada mundialmente pela sua luta contra a Junta Militar que governou o país durante décadas. Esteve cerca de 20 anos em prisão domiciliária e, em 2016, tornou-se primeira-conselheira de Estado de Myanmar (o equivalente a primeira-ministra).

A retirada do prémio da AI coincide com a cimeira do Sudeste Asiático, a decorrer até dia 15 em Singapura, e o tema dos rohingya vai estar sobre a mesa. Alguns chefes de Estado já avisaram que perderam a confiança em San Suu Kyi.