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Venezuela, um país em morte lenta

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Sem futuro Desde 2014, já deixaram o país 2,3 milhões de venezuelanos

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Durante décadas, a Venezuela foi considerada o Estado mais rico da América Latina, à custa do maná petrolífero. Hoje, nas ruas de Caracas, já não se encontram vestígios da prosperidade de outros tempos, a criminalidade e a fome tomaram conta do dia a dia. Reportagem num país dividido e onde não falta quem negue a realidade

Mia Alberti, em Caracas

Vista do ar, a Venezuela é um país especial. As serras de florestação tropical desaguam nas praias de areia branca e água azul das Caraíbas. Lá em baixo, veem-se os veraneantes, as pequenas vilas costeiras, os portos onde chegam os contentores e, finalmente, a faixa cinzenta do aeroporto internacional de Caracas. Já com os pés bem assentes na terra, a realidade é outra. Madalena Garcia, a minha passageira vizinha, questiona-se, junto a outro venezuelano, se a alfândega vai deixar passar a sua mala. Traz fraldas, medicamentos, champô e até comida. Saiu da Venezuela em 2015 e é a primeira vez que volta.

“Só de visita, voltar definitivamente é impossível”, confessa.

O voo diário desde a Cidade do Panamá é dos poucos que ainda operam até Caracas. Depois da nossa aterragem, a pista quase vazia de asfalto quente ficou em silêncio. Desde o início da grave crise económica que assola o país, 15 companhias aéreas cortaram a sua rota para a cidade. Em grande parte porque o aeroporto frequentemente fica sem luz e sem água. A estrada que liga o aeroporto à cidade, serpenteando e subindo as colinas verdes, é frequente palco de assaltos e sequestros. A própria cidade de Caracas, símbolo da riqueza latino-americana desde os anos 70, é agora considerada a segunda cidade mais perigosa do mundo, com mais de 100 homicídios por 100 mil habitantes. À medida que nos aproximamos da capital, nota-se a presença militar. Carros blindados com soldados fortemente armados patrulham cada canto. Algumas estradas e ruas estão cortadas, com arame farpado e blocos de cimento. No centro da cidade, o cenário é o mesmo, com a diferença de que as altas colinas verdes foram substituídas por centenas de barrios – ou favelas. As mesmas que Hugo Chávez viu há quase 40 anos na sua primeira chegada à capital e que, segundo ele, o inspiraram a acabar com a desigualdade entre ricos e pobres. Só no barrio Jose Felix Ribas, um dos maiores do continente, vivem mais de 120 mil pessoas.

40 000% de inflação 
O preço de um café pode facilmente encher um balde de notas. Na rua, um dólar vale quatro milhões de bolívares

40 000% de inflação 
O preço de um café pode facilmente encher um balde de notas. Na rua, um dólar vale quatro milhões de bolívares

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Dignidade e dieta forçada

“Claro que ainda há pobreza, mas não é como antes, as pessoas destes barrios vivem muito bem”, conta-me Manuel Pérez, caraquenho de gema, nos seus 20 anos, e um dos membros de uma excursão organizada pelo Estado. Com orgulho, explica-me que, antes do governo de Chávez, estas casas eram feitas de chapas, hoje são de tijolo, têm acesso a depósitos de água, sistemas de esgoto e atendimento de profissionais de saúde. “Chávez deu a estas pessoas uma vida com dignidade.”

Manuel trabalhou no gabinete de imprensa do governo durante alguns anos e tem um discurso insistente sobre o que se passa: “Estão a tentar destruir-nos, principalmente a imprensa internacional. Dizem que há pessoas a comer do lixo, que há violência, mas veja: é mentira”, insiste. Mas o que ele desmente as ruas confirmam. No centro da cidade, uma sapataria tem à venda quatro ou cinco pares. São poucos os frutos, legumes e pedaços de carne nas bancas. São muitos os rostos e corpos magros nas ruas. E os mais desesperados vasculham o lixo em busca de qualquer alimento. Um estudo recente revelou que os venezuelanos perderam em média 11 quilos desde o último ano, e que mais de 60% da população acorda com fome.

Ao sábado, o centro de Caracas está cheio de gente que vem passear, jogar futebol ou aproveitar para comprar alguns bens essenciais. De uma pequena lavandaria sai uma fila de dezenas de pessoas que esperam pacientemente.

“É porque aqui vendem detergente patrocinado pelo Estado, é mais barato”, conta-me Laura, mãe solteira de uma menina de 6 anos. “Um dólar é o salário mínimo. É o equivalente a quatro milhões de bolívares. Para um turista não é nada, mas para nós é uma fortuna”, explica-me. Como a grande maioria dos venezuelanos, Laura recebe o salário mínimo de quatro milhões de bolívares (€0,85). Além disso, ao fim do mês recebe ainda mais quatro milhões em apoios do Estado. Os subsídios estaduais tornaram-se uma boia salva-vidas para a população. Estima-se que 87% dos venezuelanos vivam na pobreza. O mais importante apoio são os pacotes CLAP – um cabaz oferecido pelo Estado a cada família, por mês, que inclui um pacote de farinha, quatro de arroz, um de massa, um de feijão, entre outros alimentos básicos. “Eu sobrevivo com o CLAP”, admite Laura. “O problema é comprar queijo, é comprar carne, tomate. Um quilo de tomates custa o salário mínimo. Então compro um só tomate ou uma só cebola para a semana toda”. Para esta jovem mãe, andar de sapatos rotos ou roupa velha não tem problema.

“Até gosto do estilo”, diz. O pior é tentar justificar à sua filha porque é que já não há comida: “A fruta preferida dela era a maçã, mas uma só maçã custa cinco milhões de bolívares, é um salário inteiro”. Apesar das dificuldades, Laura é uma defensora do Estado. Não do atual Presidente, Nicolás Maduro, mas do carismático Hugo Chávez. A cara do falecido líder bolivariano está em toda a parte, em infinitas repetições de graffiti nos muros, nas centenas de outdoors, em grandes dimensões nas laterais de prédios, ou até em tatuagens como a de Laura, que leva a assinatura de Chávez nas costas.

Saudades de Chávez

“As pessoas percebem que a culpa não é do Governo”, afirma Laura, que, tal como Manuel, acredita que a Venezuela é alvo de uma “guerra económica” por parte dos EUA.

“O Governo tem ajudado, mas as pessoas têm de continuar a trabalhar. A ideia de Chávez é que possamos viver dos nossos recursos, junto às nossas famílias. É um projeto lindo, e nós acreditamos nele”, continua. Todos os venezuelanos que conheci sentem saudade de Hugo Chávez, líder do país entre 1999 e 2013. As suas políticas sociais foram bem-sucedidas nos primeiros anos, resgatando da miséria milhões de venezuelanos mais pobres, com habitação, educação, saúde e benefícios fiscais. Uma proeza que não podia durar sempre, pois era alimentada exclusivamente pelos lucros da indústria petrolífera. Após a sua morte, em 2013, o corpo de Chávez foi colocado num quartel no centro da cidade, a próxima paragem da nossa visita.

Manuel, emocionado, passa a mão pelo caixão negro. “Chávez veio mudar tudo”, diz, de lágrimas nos olhos, depois da visita. “Ele é o meu ídolo.” Manuel tem os olhos negros e ligeiramente rasgados, a pele mulata, o cabelo preto – como Chávez. E isso faz parte do encanto. “Quando o Chávez apareceu, foi a primeira vez que vimos na televisão alguém como nós: de pele mais escura, de raízes trabalhadoras”, explicam Laura e Manuel, em concordância.

Nicolás Maduro, o atual chefe de Estado, não inspira o mesmo apoio incondicional que o seu predecessor. A crise do petróleo em 2014 apanhou o primeiro ano do seu Governo e arrasou completamente a economia do país: 95% das exportações vinham da exploração dessa matéria-prima. A par da fuga de capitais, os pobres viram-se dependentes de um Estado sufocado que pouco pode oferecer-lhes. Em abril de 2016, começaram os protestos violentos e mais de 500 pessoas morreram, segundo número não oficiais – há três anos que o regime não revela estatísticas.

Foi quando Maduro decidiu agir que perdeu grande parte da sua popularidade, até aí ainda protegida pelo legado de Chávez. Reprimiu e ilegalizou protestos, censurou a imprensa e as redes sociais, atacou a oposição e prendeu deputados. Até os venezuelanos mais crentes, como Laura, sabem que ele pisou o risco.

“Por isso é que agora já não há mais protestos… são proibidos”, explica-me Rodrigo, o nosso “tradutor”. “E das pessoas que protestavam não restam muitas, muitas decidiram desistir e ir-se embora”, conta-me. Ele já teve de se despedir de vários amigos e os que ficam vivem em total precariedade: “Às vezes, passam-se meses e, quando vejo os meus amigos outra vez, nem os reconheço de tão magros que estão.”

Rodrigo foi o nosso “banco” durante a viagem. Com a inflação mais alta do mundo (a 40 000%, segundo os últimos dados, embora o FMI estime que possa chegar a um milhão), gastar dinheiro torna-se um desafio. Primeiro, para encontrar caixas multibanco que ainda tenham dinheiro, e depois para obter o suficiente para a compra: o valor de um café pode facilmente encher um balde de maços de notas. Muitos acusam o Governo de tapar os olhos à grave inflação ao tabelar a conversão oficial de um dólar para apenas 160 mil bolívares, quando na realidade o valor na ruas é o já referido de um dólar para quatro milhões de bolívares. Uma diferença abismal. Rodrigo ofereceu-se para pagar as nossas despesas com o seu cartão venezuelano, em troca de dólares em dinheiro. “Hoje em dia, é impossível poupar dinheiro em bolívares – o dinheiro desvaloriza-se tão depressa, que de um mês para o outro pode ter metade do seu valor. Mais vale gastá-lo”, garante, enquanto paga as bebidas num bar onde ainda se dança merengue e se bebem cubas-libres.

À noite, as ruas de Caracas ficam ainda mais vazias. “Esta rua, antigamente, estava cheia de bares e restaurantes, com gente nos passeios e imensos carros estacionados”, conta-me, enquanto cruzamos o bairro de Altamira, um dos melhores da cidade. À chegada ao hotel, já tarde, decidimos aventurar-nos para outro bar no fim da rua, mas fomos interrompidos pelo segurança do hotel: “Desculpem intrometer-me, mas acho melhor não saírem. A esta hora é muito perigoso.” Uma inglesa do grupo diz que não faz mal, que não levamos nada connosco. “Ainda pior. Se não tiverem nada para oferecer, vão magoar-vos”, acrescenta o segurança. “A esta hora só há gente má na rua.” Para lá do portão do hotel, a rua parecia pacífica. Olhei de novo para o segurança e voltámos a entrar no hotel.

Um bilhete sem volta

O último dia da visita ficou reservado para uma ida à praia. No caminho, voltamos a reencontrar o verde tropical, os incríveis ziguezagues das montanhas e o calor húmido com cheiro a mar. O percurso só foi interrompido pelos controlos militares, em que soldados armados inspecionaram o autocarro e os nossos passaportes. Era domingo e as estradas estavam cheias de carros com destino à costa. Ao contrário do resto do mundo, a gasolina na Venezuela é virtualmente grátis, o que permite a muitas pessoas ainda circular pelo território. A praia de Los Caracas, a 90 quilómetros da capital, está cheia de gente. Famílias, crianças e grupos de amigos aproveitam o ambiente. Uns nadam, outros dançam, outros caminham pela areia. Vendedores de água e de gelados de água com sabor passam de vez em quando, anunciando os seus produtos. Uma realidade contraditória e bizarra. No fim do dia, o nosso guia incentiva-nos a partilhar a nossa experiência: “Por favor, digam aos vossos amigos que é possível fazer turismo na Venezuela.”

No momento a seguir, fomos parados em mais um checkpoint. Desta vez, os soldados mandaram-nos descer do autocarro e encostar as mãos à parede, enquanto verificavam os nossos passaportes. Fomos postos lado a lado com um homem de cara tatuada, com um enorme buraco deixado na orelha por um alargador que já não tem. Está algemado e olha para nós com os olhos pretos, efeito de uma tintura radical feita no interior dos olhos. Não é, definitivamente, um turista. No aeroporto, despeço-me de Rodrigo. Insisto para que fique com os 120 dólares que não utilizei. “Vou aceitar porque, se fosse eu, faria o mesmo”, diz-me, com uma condição: “Vou guardar 100 dólares para mim, mas os outros 20 vou dar a uma amiga que tem cancro e não tem dinheiro para a quimioterapia.

”Entro no terminal cheio de gente. Veem-se muitas famílias com malas e mochilas, passaportes e bilhetes nas mãos. Algumas destas pessoas vão juntar-se aos outros 2,3 milhões de venezuelanos que já deixaram o país desde 2014. A maior parte em condições extremamente perigosas, a pé, através de rios e florestas. Da janela do terminal vê-se o mar azul-turquesa para lá das barreiras do aeroporto. Os passageiros esperam em silêncio o avião que há de aterrar na pista, sem esperas. Para estes venezuelanos, pode ser a última vez, em muito tempo, que vão ver aquele mar azul, aquelas colinas verdes, aquela cidade. A esperança é a de que haja uma próxima vez, e que, dessa vez, haja uma outra Venezuela.